Feel The Beat

Em 20.06.2020   Arquivado em Filmes

Feel The Beat *****
Feel The Beat Elenco: Sofia Carson, Wolfgang Novogratz, Donna Lynne Champlin, Rex Lee, Brandon Kyle, Lidya Jewett, Shaylee Mansfield, Shiloh Nelson, Carina Battrick, Eva Hauge, Dennis Andres, Marissa Jaret Winokur, Enrico Colantoni
Direção: Elissa Down
Gênero: Comédia, Família
Duração: 107 min
Ano: 2020
Classificação: Livre
Sinopse: “Depois que April não consegue sucesso na Broadway retorna para sua pequena cidade natal, e é relutantemente recrutada para treinar um grupo de jovens dançarinos para uma grande competição.” Fonte: Filmow.

Comentários: A última vez que assisti a um lançamento Netflix em busca de pauta pro blog, “Um Amor, Mil Casamentos”, o resultado foi absolutamente desastroso, então imaginem o quanto estava pé atrás com a comédia familiar Feel The Beat, disponível desde ontem, sexta feira, no serviço de streaming. Me preparei psicologicamente para cruzar os braços, não dar uma risada e absolutamente odiar, mas não foi o que aconteceu. Uma mistura clichê de humor leve, lições de vida e romancinho jovem, tudo necessário para fazer dessa história um típico passa tempo pros momentos em que a gente até evita pensar… E essa é EXATAMENTE a proposta do filme, que a cumpre super bem, causando até lágrimas aqui e ali.

Nele vemos o decair da carreira da dançarina April, que aprendeu da pior forma possível como a falta de gentileza pode leva-la direto dos palcos da Broadway à volta para a casa do pai em sua cidadezinha natal. E como qualquer interior que se preze essa volta é marcada por reencontros com as mesmas pessoas de sempre, alguns constrangedores e outros… Mais constrangedores ainda! De um lado o núcleo do ex namorado com quem viveu um fim de relacionamento não tão feliz, do outro a antiga professora de dança da infância que insiste que ela compartilhe seus conhecimentos e sucesso com as atuais alunas… E é nesse contexto, ao receber uma proposta de ajuda-las a vencer um concurso cuja mera participação do grupo é completamente improvável, que ela vê uma nova luz no fim do túnel, se apoiando nas jovens para retomar o sucesso de onde parou.

Feel The Beat

Feel The Beat: Imagem via Decider.

Uma das queridinhas recentes das produções Disney Channel, Sofia Carson funcionou LINDAMENTE no papel de April. Ela tem uma cara meio “antipática à primeira vista” que bate perfeitamente com a personalidade não muito modesta da dançarina, mas sabe suavizar a expressão e tornar-se tangível quando necessário. O conjunto de pré adolescentes que compõe suas alunas também é perfeito, é um roteiro que tomou cuidado ao criar personagens variadas e inclusivas, sem precisar forçar essas presenças em nenhum momento, todas rodeadas de suas famílias e vidas particulares que estão presentes na história, mas não só “jogadas” no ar, elas fazem parte do enredo e se complementam. É incrível ver um filme sobre dança quebrando tantos padrões, onde meninos são bem vindos no palco sem preconceito e a força e intensidade dessa modalidade esportiva é apontada e valorizada.

Coincidência ou não, tenho percebido que os filmes, ou mesmo episódios de séries, que mais me sensibilizam de verdade são dirigidos por mulheres, e esse foi um dos casos. Sim, se trata de uma comédia, mas passei mais da metade dele chorando bastante. Essa premissa do “ensinar ao ser ensinada” é usada quase sempre em produções do gênero, e nele usada sabiamente. Desde dificuldades do início de carreira até corações partidos por um primeiro amor juvenil, os momentos de lágrimas e consolo não são dominados por frases de impacto estereotipadas, mas sim gestos de carinho genuíno. Apesar das novas possibilidades e conquistas que se abrem ao longo do filme, ele não tem um final fantasioso que normalmente torna a coisa uma completa idiotice para tender à romantização. É lindo, feliz, gostoso e, por que não(?), pé no chão!

Trailer:

Um Amor, Mil Casamentos

Em 26.04.2020   Arquivado em Filmes

Um Amor, Mil Casamentos (Love, Wedding, Repeat) *****
Um Amor, Mil Casamentos Elenco: Sam Claflin, Olivia Munn,, Eleanor Tomlinson, Freida Pinto, Joel Fry, Aisling Bea, Allan Mustafa, Jack Farthing, Tim Key
Direção: Dean Craig
Gênero: Comédia, Romance
Duração: 100 min
Ano: 2020
Classificação: 16 anos
Sinopse: “Jack, um homem que ajuda sua irmã no casamento dos sonhos. Ao mesmo tempo, ele inesperadamente se reúne com Dina (Olivia Munn), a mulher por quem se apaixonou e perdeu há dois anos atrás, iniciando uma série de eventos desastrosos e hilários.” Fonte: Filmow.

Jack conheceu Dina por intermédio de sua irmã, com quem fez faculdade. Depois de dias muito agradáveis juntos em Roma, perto da hora de se despedir, ele é interrompido no momento em que pretende se declarar para a moça, jornalista de guerra prestes a embarcar para um trabalho. Dois anos se passam e eles se reencontram na Itália para o casamento da mesma irmã/amiga que os apresentou, o que parece ser a oportunidade perfeita para compensar esse tempo perdido e, enfim, tentar engatar um romance que nunca teve a oportunidade de começar. Porém, a presença de um penetra que pretende estragar a cerimônia e as atitudes travessas de crianças que brincam de trocar os lugares nas mesas podem levar tudo a perder…

Um remake do francês “Plan de Table”, de 2012, Um Amor, Mil Casamentos é uma produção Netflix lançada na Sexta Feira da Paixão como promessa de entretenimento para o feriado de Páscoa. Apostando em um dos queridinhos do momento no gênero, Sam Claflin (eternizado como o Finnick da série Jogos Vorazes), o filme é um longa metragem divididos em dois atos, ambos em torno dos mesmos eventos: o desejo dele em conquistar Dina e o plano do casal de irmãos de dopar um ex colega da noiva que pretende arruinar seu grande dia por estar apaixonado por ela. E é lógico, como mostrado no próprio trailer, que essa ideia dá errado, ocasionando nas confusões que prometem causar risadas e emoção em quem assiste, como uma boa comédia romântica deve fazer.

Um Amor, Mil Casamentos

Um Amor, Mil Casamentos: Imagem via Cinema Blend.

Ironicamente o filme não cumpre nenhum desses requisitos. Como comédia é extremamente fraco, com piadas sem graça, acontecimentos previsíveis e atuações bastante forçadas. A quebra dos atos corta completamente o clímax quando ele finalmente promete se desenrolar, e a chegada da segunda metade da história é ainda mais massante e decepcionante que a primeira. Pessoalmente eu confesso que só terminei de assisti-lo porque REALMENTE estava precisando de uma pauta para o blog e foi uma grande decepção, uma vez que divulgação da Netflix foi fortíssima a ponto de eu adicionar à Minha Lista antes mesmo do lançamento.

A emoção, normalmente vinculada à parte romântica do gênero, também não acontece. A trama tem vários casais, alguns que já estão juntos, outros que já estiveram e, claro, os que pretendem ser formados. NENHUM DELES, em nenhum momento, cativa o expectador. Não fica aquela tensão no ar, onde a gente espera pelos eventos torcendo por eles, nem mesmo os noivos ou os protagonistas da história causam isso. A verdade é que as personagens são mal apresentadas e ainda mais mal desenvolvidas, não permitindo a afeição por elas individualmente, quiçá em conjunto. Sendo bem sincera estou até surpresa em saber que sua duração é de pouco mais de uma hora e meia porque, pra mim, pareciam várias horas. A parte positiva da minha avaliação foi por causa do elenco bacana, cenário LINDÍSSIMO e os cinco minutos finais que, ainda que clichê, conseguiram ser bonitinhos. Fora isso, uma perda de tempo…

Trailer:

Por Lugares Incríveis

Em 28.02.2020   Arquivado em Filmes

Por Lugares Incríveis (All The Bright Places) *****
Por Lugares Incríveis Elenco: Elle Fanning, Justice Smith, Alexandra Shipp, Felix Mallard, Keegan-Michael Key, Luke Wilson, Virginia Gardner, Alex Haydon, Kelli O’Hara, Lamar Johnson, Nicole Forester DemiP, Sara Katrenich, Sofia Hasmik
Direção: Brett Haley
Gênero: Romance, Drama
Duração: 108 min
Ano: 2020
Classificação: 16 anos
Sinopse: “Quando Theodore Finch conhece Violet Markey em circunstâncias nada usuais, uma amizade única surge entre os dois. Cada um com seus próprios traumas e sofrimentos, eles se juntam para fazer um trabalho de geografia e acabam descobrindo muito mais do que os lugares incríveis no estado onde moram: a vontade de salvar um ao outro e continuar vivendo.” Fonte: Filmow.

Comentários: Violet Markey se sente à beira de um abismo. No aniversário de 19 anos de sua irmã, o primeiro depois do acidente que resultou na sua morte, ela se vê parada mesma ponte onde a tragédia aconteceu. Se teria pulado ou não, ela não teria como saber, porque foi interrompida por Theodore “Aberração” Finch, um colega de escola do qual seus amigos fazem questão de manter distância. Claramente interessado no que pode tê-la levado a esse ponto extremo, o garoto se oferece como parceiro num trabalho de geografia onde eles precisam andar pelo estado de Indiana e descobrir maravilhas escondidas por lá. Ela exita, mas acaba tendo que ceder, e desse projeto acaba nascendo uma amizade (e, mais tarde, romance) completamente inusitada. Finch então tenta mostrar a Violet que ela precisa voltar pro mundo, enquanto ele próprio lida com as próprias crises.

Adaptado do livro de mesmo nome de Jennifer Niven, publicado no Brasil pela Editora Seguinte, e roteirizado pela própria autora e Liz Hannah, Por Lugares Incríveis é uma produção Netflix que chegou ao serviço de streaming essa sexta feira, dia 28. Um alerta sobre transtornos mentais sustentado por um romance adolescente de pano de fundo, ele irresponsavelmente não contém aviso de gatilho, mas devia. A classificação indicativa se refere, exclusivamente, ao peso da narrativa, que consegue ser bonita sem apelar para a romantização dessas doenças. Apesar de rápido, um daqueles filmes onde muita coisa acontece em pouco tempo de tela, o expectador consegue ver o crescimento da relação entre as personagens, traços da sua personalidade e, claro, receber o impacto de vários momentos de drama, intensificados com uma trilha sonora que casa perfeitamente com cada uma das cenas.

Por Lugares Incríveis

Imagem via Daily Motion

O casal protagonista é, talvez e mais ainda do que o roteiro, o melhor de todos os aspectos. Elle Fanning passa os sentimentos de “Ultravioleta” de forma tão melancólica, tão triste e perdida, que você consegue perceber que aquela garota de rostinho tão delicado está, no momento, carregando mais peso do que consegue suportar após sua perda. É uma vontade quase pessoal vê-la superando a ausência de Eleonor, sua irmã, para voltar a ter o brilho que em algum momento esteve ali. Justice Smith, protagonista da série The Get Down também lançada pela plataforma, mais uma vez mostrou ao que veio ao transmitir a “montanha russa” de sentimentos de Finch o interpretando, hora sorridente e brincalhão e logo em seguida quase fora de si, como se fosse duas pessoas diferentes. O elenco de apoio é também formado de vários artistas maravilhosos, que junto com o visual rústico e intimista de Indiana conseguem captar o expectador para emocionar.

Leia também: Por Lugares Incríveis, resenha do romance no qual esse filme é adaptado.

É claro que, como grande fã do livro,não posso deixar de destacar minha satisfação em relação ao longa também como uma adaptação. As mudanças e cortes, sempre necessários para se adequar à mídia, foram bem pensados de forma que o foco é ver a mensagem da história sendo passada, mais do que agradar preciosistas. Mesclando alguns personagens, deixando outros de lado para destacar os que foram colocados, reorganizando a ordem das andanças pra que as mais significativas tivessem importância. E se o livro te dá vontade de conhecer tudo na vida real, nossa, o apelo visual contribui horrores pra isso. Fiquei até me imaginando nos lugares, agora que sei exatamente como são. Acho que deve ser interessante pra quem ler depois de assistir, porque as diferenças vão se destacar de maneira surpreendente, enquanto pra quem faz o contrário, como eu, esses elementos trazem sensação enorme de carinho. As principais frases de efeito também estão lá, e ainda bem porque a Jennifer escreve lindamente!

Porém, senti falta de ver aprofundamento ao expor o quadro mental do Finch, já que a bipolaridade e tendência suicida não ficam claras e deu a impressão de que ele tem “só” depressão e usa humor para combatê-lo, reforçada pelos problemas familiares. É um olhar com maior possibilidade de identificação por parte de quem assiste, então funcionou, mas uma perda ainda assim no que diz respeito à discussão levanta. Existe também um projeto pessoal da Violet, não relacionado diretamente ao relacionamento deles, que seria interessante ver mencionado, mas talvez eu me importe mais com isso porque é o ponto principal em que temos em comum, não afeta o enredo. Fora isso, pessoalmente, achei bastante satisfatório! Ao final, antes dos créditos, consta o link de um site com contato para canais de ajuda em todo o mundo, inclusive o Brasil, pra reforçar a ideia principal que realmente importa: existem lugares incríveis. Você não está sozinho. Tente buscar ajuda!

Trailer:

Dois Papas

Em 06.02.2020   Arquivado em Filmes

Dois Papas (The Two Popes) *****
Dois Papas Elenco: Jonathan Pryce, Anthony Hopkins, Cristina Banegas, Juan Minujín, Luis Gnecco, Renato Scarpa, Dilma Rousseff, Papa Francisco, Bento XVI
Direção: Fernando Meirelles
Gênero: Drama
Duração: 125 min
Ano: 2019
Classificação: 14 anos
Sinopse: “Filme centrado na relação entre o Papa Bento XVI e o Papa Francisco. Produção da Netflix com direção do brasileiro Fernando Meirelles (Cidade de Deus). O filme explora o relacionamento e as visões opostas entre dois dos líderes mais poderosos da Igreja Católica, que devem abordar seus próprios passados e as demandas do mundo moderno para guiar a igreja para a frente.” Fonte: Filmow.

Comentários: Dois Papas, filme da Netflix dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles, concorre a três estatuetas no Oscar 2020, que acontecerá nesse domingo (09): Melhor Roteiro Adaptado (Anthony McCarten), Melhor Ator (Jonathan Pryce) e Melhor Ator Coadjuvante (Anthony Hopkins). Nele vemos uma história de ficção baseada em fatos reais onde McCarten sugere como seriam os acontecimentos entre 2005 e 2013 no Vaticano, da nomeação à renúncia de Bento XVI, se ele e o Papa Francisco tivessem estabelecido uma relação de amizade nesse meio tempo. Com fotografia belíssima, diálogos extremamente bem trabalhados e uma dose de humor em meio a muito drama, suas duas horas de duração fluem de maneira muito tranquila mesmo para aqueles que não estão tão inseridos na temática principal.

Digo isso na pele de uma pessoa que não segue qualquer religião, mas foi criada por duas famílias católicas, então frequentei a igreja por um tempo, não por me identificar mas também sem ser forçada, e acompanhei de certa forma alguns episódios retratos nele. Quando Bento XVI assumiu o título eu estudava em um colégio católico onde cheguei a ser crismada meses depois, e sua decisão de sair do cargo veio logo após ser escolhida como madrinha da minha irmã no mesmo sacramento. Essa conexão com o momento torna a narrativa mais interessante, traz as lembranças de “O que eu estava fazendo nesse dia?” quando algumas cenas apareciam na tela.

Dois Papas

Imagem via Veja, artigo onde pode-se ter ideia do que é verdade e o que não é no longa!

No que diz respeito à parte técnica, o filme é IMPECÁVEL, com total destaque para as duas atuações protagonistas inquestionavelmente maravilhosas. Maior parte do roteiro gira em torno de conversas não verídicas entre eles, que tornam aquelas figuras quase mitológicas no nosso cotidiano no que eles são realmente: seres humanos. Pessoalmente sempre tive antipatia por Bento XVI, assim como tenho por qualquer órgão ou personalidade que representa e age através do conservadorismo, e no que diz respeito a Francisco sinto o contrário, acho importantíssimo que entidades tão antigas e arcaicas sejam guiadas por uma mente progressista. Ver erros e acertos vindos de ambos os lados ajudou muito a enxergar duas pessoas, não meras autoridades.

A obra também faz uso de cenas históricas, atuadas e documentais, que mostram muito além do breve intervalo de tempo onde é focada, pontuando o regime militar ocorrido na Argentina entre as década de 60 e 70, incluindo vídeos reais das Mães da Plaza de Mayo, e a existência do muro de Berlim na Alemanha, nações dos dois Pontífices retratados. São tomadas bastante sentimentais e até questionadoras sobre a Igreja em si. Uma vez que o final do mandato de Bento XVI foi rodeado de escândalos onde foram revelados vários podres da mesma, isso fica inevitável, mas ele não chega a de fato invalidá-la como organização, de fato. Ao fim, durante os créditos finais, alguns minutos de descontração em meio ao emotivo onde eles assistem à final da Copa do Mundo de 2014 em que seus países se enfrentaram, e por mais que também não tenha acontecido de verdade é bem divertido de se ver, principalmente sabendo que Francisco é, de fato, apaixonado por futebol.

Leia também: Democracia em Vertigem, resenha do filme brasileiro que concorre ao prêmio de Melhor Documentário no Oscar 2020.

E claro que não podemos deixar de falar da trilha sonora, um dos pontos altos da história. Durante o enredo temos referências populares que ajudam o expectador a se identificar, começando por “Dancing Queen”, do ABBA (minha música favorita!) e terminando com “Blackbird”, dos Beatles… Ver duas bandas tão queridinhas ali foi algo que eu não esperava e ajudou na identificação mais um pouquinho. Também gostei de encontrar o momento onde eu de fato tinha algo em comum com duas pessoas com uma vida tão diferente da minha, ao ver Bento XVI aficionado por refrigerante e Papa Francisco jovem lendo “A Pedagogia do Oprimido” de Paulo Freire que é, hoje, a bibliografia base da minha monografia de pós-graduação que está em processo. Meirelles é diretor do filme nacional que mais gosto, “Cidade de Deus”, e fez jus à expectativa dessa vez também.

Trailer:

Democracia em Vertigem

Em 03.02.2020   Arquivado em Filmes

Democracia em Vertigem *****
Democracia em Vertigem Direção: Petra Costa
Gênero: Documentário
Duração: 113 min
Ano: 2019
Classificação: 12 anos
Sinopse: “Uma narrativa cautelosa em tempos de crise da democracia – o estopim pessoal e político para explorar um dos mais dramáticos períodos da história do Brasil. Combinando acesso exclusivo a líderes do passado e do presente (incluindo os ex-presidentes Dilma Rousseff e Luiz Inácio Lula da Silva) a relatos da biografia complexa de sua própria família, a diretora Petra Costa (Elena) testemunha a ascensão e a queda de políticos e o que restou do país, tragicamente polarizado.” Fonte: Filmow.

Comentários: Talvez essa seja a resenha mais ousada que já fiz nesse blog até hoje, o que de certa forma a torna também uma das mais importantes. Ela começou a ser escrita em junho de 2019, quando o documentário foi lançado na Netflix, confesso que precisei desse tempo todo pra dar a cara a tapa… Mas dei, isso é maior que o tempo. Não importa a opinião que eu publicar aqui e agora, já sei, é uma opinião impopular. E como tudo o que contém nesse blog, é pessoal, sincera e ACIMA DE TUDO com posição. Seja o que for que aconteça vai acontecer com meu pleno conhecimento de que JAMAIS fiquei em cima do muro.

“Somos uma república de famílias. Umas controlam a mídia, outras os bancos, elas possuem a areia, o cimento, a pedra e o ferro. De vez em quando, acontece de elas se cansarem da democracia, do Estado de direito. Como lidar com a vertigem de ser lançado em um futuro que parece tão sombrio como nosso passado mais obscuro? O que fazer quando a máscara da civilidade cai e o que se revela é uma imagem ainda mais assustadora de nós mesmos?” – Petra Costa

Democracia em Vertigem é um dos filmes indicados à categoria de Melhor Documentário de Longa Metragem no Oscar 2020, a maior premiação sobre cinema internacional do ano. Dirigido e narrado pela cineasta mineira Petra Costa, que através de sua visão intimista narra diversos acontecimentos na política nacional desde o primeiro mandato do presidente Lula, eleito em 2002, até o impeachment da Dilma oficializado em 2016, ressaltando causas e resultados desse marco da atual crise político-econômica (e, adiciono, SOCIAL) instalada ainda hoje no Brasil. Ela usa cenas da própria vida, com seus relatos e de sua família, recortes gravados direto com os envolvidos na história e, claro, gravações divulgadas e vazadas pela mídia de um modo geral.

Democracia em Vertigem

“(…) a democracia tem assento, junto comigo, no banco dos réus.” – Dilma Rousseff | Imagem via Aventuras na História

Apesar das opiniões polarizadas, resultado do cenário brasileiro que também tem essa característica no momento, uma coisa é incontestável no que diz respeito ao documentário: ele é 100% HONESTO. Petra não se propõe, em momento algum, a fazer uma narração neutra ou isenta desses acontecimentos tão contemporâneos da nossa república. Ela deixa bem claro, desde início, quem é, de onde veio, para onde foi seu voto e até mesmo o envolvimento de familiares no contexto. Diferente da tão comentada série “O Mecanismo”, lançada também pela Netflix como um ensaio sobre a Operação Lava Jato, as personagens não são fictícias representando pessoas reais: ela dá nome e rosto a cada um, expondo quem disse o que sem precisar mudar autoria das falas ou fatos. Relata sua história e a do seu país, se mantendo à esquerda, sim, mas sem esconder isso em nenhum minuto.

E nem deveria. A definição de documentário não exige que o trabalho seja imparcial (juízes, por outro lado, devem ser sim!) e eu, como expectadora, também não preciso ao afirmar que mais do que qualquer obra de ficção, esse filme me trouxe choro e angústia por lembrar cada acontecimento dos fatos mais tristes que vivi como cidadã brasileira desde que nasci (em 1990, para contextualiza-los). Lágrimas, porém, nem um pouco inéditas e sim repetição das que já haviam caído enquanto as coisas aconteciam, desde a primeira eleição da qual participei na vida e elegi nossa primeira mulher presidente até o fim, passando pelo golpe constitucional por ela sofrido chegando no agora, sua tão triste consequência que vem desmontando o Brasil no último ano. Lágrimas que sabem que enquanto de um lado a idolatria é movida pelo ódio e pela destruição, do outro ela é impulsionada pelo saber da diferença que foi feita na vida das pessoas que pensavam que essa diferença nunca ia chegar, mesmo que na época que estava acontecendo eu fosse nova (ou mesmo privilegiada) demais para entender a magnitude.

“Apesar das diferenças, sofro de novo com o sentimento de injustiça e o receio de que, mais uma vez, a democracia seja condenada junto comigo. E não tenho dúvida que, também desta vez, todos nós seremos julgados pela história.” – Dilma Rousseff

Democracia em Vertigem não é uma aventura ou fantasia, não apresenta mocinhos ou vilões. É feita de posicionamento. De fatos, sinceridade e dura realidade. Não tira a culpa no momento em que o partido é culpado, mas JAMAIS age com a desonestidade intelectual de afirmar que ele retém toda a culpa do mundo. Mostra, de perto e de frente, não só uma família de esquerda aos olhos de sua filha de microfone na mão, mas também as mais diversas pessoas que ela contactou para terminar seu trabalho, entre elas uma mulher que se recusou a recuar do cargo que era seu de direito por acreditar nele e, por isso, foi retirada. Mas, como dito pela própria, “a história será implacável com os que hoje se julgam vencedores”, e essa indicação para um prêmio tão importante talvez seja um dos passos. Minha torcida, acho que deixei claro, já tem!

Trailer:

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