Crise dos “vinte e poucos” (e por que ela nem devia existir)

Em 04.06.2017   Arquivado em Escrevendo

Crise dos vinte e poucos

Em 2017 minha turma de terceiro ano do Ensino Médio completa uma década desde a formatura, e eu passei esse tempo todo planejando aqui na minha cabecinha um super reencontro da galera em dezembro em alguns dos lugares que comemoramos esse marco na época, todo mundo contando como tá a vida aos “vinte e poucos anos”, rindo daquelas mesmas piadas e se surpreendendo como tudo e nada mudou ao mesmo tempo… Eis que alguns meses atrás, fuçando o Instagram afora, vi uma das meninas celebrando que seu casamento estava chegando já com um bebê a caminho. Minha primeira reação? Sorrir, claro, ela tava linda e sorridente! A segunda? Me preocupar fortemente com isso. Das cinco garotas da sala de onze alunos o saldo era 01) casada, 02) mãe, 03) noiva, 04) noiva E grávida e… 05) eu!

Sim, eu! Sem nenhuma perspectiva de ter a vida encaminhada desse jeito, sem sucesso profissional ou sequer estar fixa num emprego. Sem nenhum feito legal digno de ser anunciado assim, formada num curso que eu amei mas que não trouxe grandes frutos pra mim… Eu que escrevo coisas na esperança de alguém ler mas sem ter essa certeza, cheia de paranoias e problemas na cabeça, que não sabe se vai conseguir pagar tudo o que precisa quando o mês virar e que mora com a mãe por tempo indeterminado porque, infelizmente, é só assim que dá pra ficar. Eu mesma, com vinte e tantos anos nas costas (os “poucos” já viraram “tantos”!) tão diferente do que tinha imaginado que seria quando esse momento chegasse. E essa constatação, somada ao transtorno de ansiedade nosso de cada dia, de repente virou mais uma grande crise na minha mente já preocupada.

Quem tava comigo na hora era um casal de amigos daqueles que eu ajudo a enfrentar várias barras com um ombro pra chorar e alguns conselhos ignoráveis, e que fazem o mesmo por mim mesmo se eu não fizesse por eles. Essa então foi a pauta do dia: como eu não precisava pirar por nada daquilo, porque cada um vive a vida do seu jeito, no seu momento e não tem nada de fracasso em ser de forma diferente um do outro. Lá no fundo da minha loucurinha eu já sabia disso, mas tem vezes que a gente precisa ouvir de outra pessoa pra acreditar, e como nem assim eu conseguia absorver eles soltaram a seguinte pergunta:

“Luly, você queria estar casada, queria já ter filhos?”

Ao que respondi, soltando um suspirinho e com toda sinceridade do meu coração, com um sonoro “Não!”, porque pra mim existem milhares de coisas “na lista” que precisam vir antes, porque sequer acho que eu devia fazer essas coisas tão cedo e porque eu realmente acho que na MINHA vida ainda TÁ CEDO pra tudo isso. E aí isso resolveu a questão, ou pelo menos deveria, se não fossem as pressões da sociedade que, às vezes, nos tornam desesperados para conseguir o que a gente sequer deseja.

Se parar pra pensar, aos vinte e poucos anos você viveu, sei lá, pouco mais de um quarto da sua vida!

Muita água já passou por essa ponte, sim… Mas tem tantas outras ainda por vir que não dá pra ficar surtando com isso. Nesse processo muitas vezes seus maiores feitos não aparecem em fotos nas redes sociais ou conversas de telefone, ou até aparecem e são ofuscados pelos feitos dos outros, e isso não quer dizer que eles não estão ali, fazendo diferença. Às vezes ninguém fica sabendo daquela pessoa que você ajudou, daquela conta monstruosa que você pagou, daquela coisa que você lutou tanto pra comprar e conseguiu… É, nem todo mundo sabe do dia que você brilhou no trabalho, da manhã que você conseguiu sair de casa mesmo que tenha acordado com o pé esquerdo, de qualquer porcaria com defeito que você consertou mesmo sem entender do assunto.

Meus colegas de escola não sabem do concurso público que eu passei, dos eventos que ajudei a organizar, do livro que escrevi, das mensalidades da faculdade da minha irmã que paguei. Eles não sabem das coisas que eu aprendi a fazer sozinha, das lágrimas que derramei quando machucaram alguém importante pra mim, ou dos beijos incríveis que rolaram na minha vida umas semanas aí atrás… E sabe do que mais? Eu sei que os sorrisos das fotos são sinceros que eles devem se orgulhar de tudo isso que estão mostrando viver, mas sabe-se lá quantas coisas estão por trás disso tudo das quais também se orgulham. Como saber que eles também não tiveram suas crises pessoais e tudo ficou parecendo ruim, como rolou comigo nesse dia?

A gente nunca vai saber tudo sobre todos… E nem sobre a gente mesmo, se bobear!

Não é todo mundo começa a contribuir para o INSS com apenas duas décadas de vida nas costas ou tem o emprego ideal ao completar seu 1/4 de século. Nem sempre dá pra comprar uma casa dos sonhos aos 30, ter gêmeos na escola aos 35 ou pode pagar uma viagem pra toda família ir pra Disney junta aos 40. Algumas pessoas conseguem isso, sim, e isso não necessariamente é fracasso ou sucesso, é a vida, e na vida tudo é sempre muito relativo e o melhor: pode mudar a qualquer momento! Pode ser até pra pior, mas por pode ser também pra melhor e é nisso que temos que apostar para fazer acontecer. Não precisa ter crise dos vinte e poucos, nem dos 30, 50 ou mesmo 80 porque “Fulano” está assim ou porque “Deltrano” esperava de você assado. As coisas serão do seu jeito na hora que tiver de ser, e pra quem vive resta duas alternativas que podem caminhar juntas sempre: aceitar o que faz bem e correr atrás de mudar o que for preciso pra ficar melhor!

E se não der certo a gente chora um no ombro do outro, toma umas juntos, come uma caixa de chocolate que não devia ter comprado, vê um filme ruim na Netflix, procura uma terapia e curte a merda até que ela acabe… Pode ser que assim seja, também…