Janeiro Branco e a (minha) Ansiedade

Em 15.01.2017   Arquivado em Escrevendo

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A primeira vez que me surgiu um estalo de que algo não estava e nunca esteve bem comigo foi através de uma brincadeira. Eu estava tomando coragem para puxar assunto com um crush e assim que uma publicação dele apareceu na minha timeline do Facebook amarelei, comecei a suar frio e senti que não daria conta mais. Meu amigo que estava ao lado, sem perceber que era tão sério assim, brincou “Vai em frente, Luly, deixa de ser besta, se você ficar intimidada por causa disso é caso de precisar de tratamento, hein!”.

Ele estava certo.

Ainda assim eu fui vivendo com aquilo achando que “precisar de tratamento” era um grande exagero da minha parte, não passava de uma piada, mesmo com um grande histórico de pessoas que tiveram que se tratar com psicólogos e psiquiatras na família. Continuei minha vida do jeito que ela sempre foi, tentando justificar as coisas que me aconteciam e, principalmente, minha reação a elas com milhares de desculpas que doíam muito menos que a realidade. Até que chegou uma situação simples, algo altamente inofensivo que não iria me prejudicar em nada, aquele momento da vida em que “ou ganha, ou empata” e lá estava eu, sem conseguir fazer. Era um telefonema e tudo o que aconteceu foi eu discar e cancelar a ligação três vezes até finalmente desistir quando já estava chorando e tremendo MUITO, precisando gritar no travesseiro para que ninguém soubesse o que se passava dentro do meu quarto, sentindo dores horríveis dentro da barriga. E aí caiu a ficha de que aquilo tinha um motivo, então passei o dia inteiro quieta entre lágrimas, muitos pensamentos e testes de internet que me fizeram concluir que havia uma possibilidade de todos os meus problemas pessoais em toda a minha vida serem causados por uma única coisa. Tomei coragem para conversar com uma pessoa que poderia me ajudar, papo vai e papo vem, e enfim veio o diagnóstico, escancarado na minha frente: TAG. Transtorno de Ansiedade Generalizada. Aos poucos toda minha existência foi magicamente explicada.

Quando chorei porque sentaram minha irmã perto de uma sacada pedindo para tirarem ela dali porque conseguia ver direitinho milhares de jeitos dela cair não estava sendo super protetora. Quando eu unhava minhas mãos na escola porque estava prestes a ter que jogar vôlei não era frescura, como minhas amigas já me disseram várias vezes. Quando eu andava na beirada da calçada pensando no dia absolutamente comum que vinha pela frente em total desespero não era depressão juvenil. Quando eu tinha que apresentar um trabalho e suava frio não era timidez (apesar de que na época eu era bem tímida, sim). Quando eu não dormia nas vésperas das provas não era insônia. Todos os “transtornos alimentares” que já tive na verdade não eram transtornos alimentares, inclusive quando parei de comer porque tinha um TCC pra apresentar ou conversar com um cara que eu estava afim. Quando viajei para visitar uma amiga e quis voltar pra casa no segundo que cheguei lá, sem nem saber os dias ótimos que teríamos pela frente, não era arrependimento bobo . Quando eu estava prestes a dizer o que pretendia, fazer o que desejava ou realizar o que esperava e nada disso acontecia não estava “amarelando’. Quando estava vivendo uma das melhores coisas da minha vida, sabendo que não vivi várias outras por causa disso, ainda assim havia uma parte de mim desejando que um meteoro caísse naquele momento para que eu não precisasse ir em frente, por mais que eu soubesse que era o que queria… As mãos tremendo visivelmente, as dores de barriga instantâneas, o choro inexplicável em ocasiões inexplicáveis, o desespero só de pensar que existem outras milhões de possibilidades para algo além da que eu esperava, mesmo que fossem impossíveis ou improváveis. A ansiedade já me fez perder 10 quilos de uma vez, o que muita gente encarou como uma dádiva, mas eu sabia que aquilo não estava certo. A ansiedade transformou meus principais paraísos particulares em verdadeiros infernos.

Há uma diferença absurda entre estar ansioso e viver com a ansiedade. É mais ou menos a diferença entre sentir fome e passar fome: o primeiro é até gostosinho, aquele momento logo antes de uma refeição saudável e feliz que você vai encontrar em casa, enquanto o segundo muitas vezes representa uma vida de miséria. Quando você está ansioso por algo, sua viagem de férias, a festinha do fim de semana, uma oportunidade de matar saudades de alguém, sente um friozinho na barriga de animação e sorri sem parar. A ansiedade como doença não é assim… É quase odiar sua vida e não poder desistir dela porque não consegue parar de pensar nas consequências do que vai deixar pra trás, parafraseando Freddie Mercury é não querer morrer, mas às vezes desejar sequer ter nascido. Qualquer atividade comum pode ser um verdadeiro desafio para um ansioso: atender o telefone, enviar uma mensagem, falar com a atendente do banco, comparecer ao primeiro dia de trabalho, comparecer aos demais dias de trabalho, terminar um relatório que está já atrasado, flertar, sair de casa em um dia chuvoso, falar para um grande público, dirigir um carro diferente do que está acostumado. É ótimo que você, com sua mente sadia, consiga fazer, mas entenda que alguns têm muita dificuldade em conseguir também. De fato é difícil lidar com algo que você não entende e não há nada de errado em dizer “Calma, tudo vai dar certo!”, mas lembre-se que essa fala deve ser incentivo e alento, e não ordem e solução, porque palavras não curam doenças, e uma doença mental não pode ser vista, mas continua sendo uma doença. A minha vida como ansiosa não é percebida quando você entra no meu blog e vê o template colorido, ou é apresentado a mim enquanto estou falando sem parar animadamente, nem mesmo na minha foto de perfil sorridente que foi tirada num dia em que tive uma crise que me deixou sem ar, porém existe em tantas situações, grandes e pequenas, que somente eu posso saber como é viver dentro da minha cabeça… E nem mesmo ter TAG pode faz saber exatamente como é a outra pessoa que também tem, porque se manifesta de forma diferente para cada um de nós.

E é por causa da existência desses transtornos que nós temos a campanha do Janeiro Branco para conscientizar e debater sobre a Saúde Mental e o Bem Estar. Nem sempre o corpo são é sinônimo de mente sã, seu vizinho piadista pode ter depressão, sua professora maravilhosa pode ser bipolar, sua prima que te vê semanalmente na casa da vovó pode ter fobia social, o cara que senta ao seu lado na primeira aula da segunda feira pode ter um distúrbio alimentar, seu personal trainer pode ser esquizofrênico e a autora de um blog que você visita às vezes, que você encontrou naquele evento que você foi no fim de semana, pode ter sido diagnosticada com TAG. É preciso entender que o problema existe, dar carinho a quem vive com ele e lembrar que é perfeitamente possível ter uma vida normal assim, basta ter acesso ao tratamento adequado e apoio daqueles que o cercam. Quem quiser saber mais sobre o assunto pode visitar o site e Facebook do projeto e começar o ano com ainda mais empatia na sua vida!

Foi MUITO DIFÍCIL MESMO pra mim escrever esse post e não sou profissional no assunto, apenas alguém que está descobrindo como lutar contra algo que não escolheu viver, 100% do que está aqui é baseado na MINHA experiência e na orientação que estou recebendo para ficar melhor (se passei alguma informação equivocada me desculpem). Sendo assim, por favor, tenham muito cuidado ao julgar e comentar algo dessa vez, ok? Obrigada!