‘Til It Happens To You…

Em 29.05.2016   Arquivado em Feminismo

No início do ano, Lady Gaga concorreu ao Oscar de Melhor Canção Original com a música “Til It Happens To You”, do documentário “The Hunting Ground”, que fala sobre a violência sexual em ambientes acadêmicos dos Estados Unidos. A vencedora, porém, foi “Writing’s On The Wall” e na minha humilde opinião (desculpa aí, Sam Smith, nada contra sua pessoa), foi a maior injustiça do ano. Não só acho a música da Gaga melhor como penso que uma temática importante nesse nível (e que está tão em evidência) também deve ser levada em conta na hora dessa escolha. Mas tudo bem, vida que segue, a música não deixa de ser maravilhosa por causa disso.

Para quem nunca ouviu (mas pode fazer isso agora através desse vídeo aí em baixo), é um desabafo SUPER sincero e sentimental sobre como uma vítima de estupro é tratada por aqueles que a cercam, até mesmo os que a querem bem. Ela fala sobre essa tentativa que acontece de convencer a pessoa de que vai ficar tudo bem, que um dia vai superar e esquecer o que aconteceu com ela, de que é “mais forte do que isso”… Mas isso sempre vindo de pessoas que não fazem ideia do que é sofrer um ato de violência tão abusivo e brutal. E daí vem a frase título da música: “Até que aconteça com você, você não saberá como eu me sinto.”, um pedido desesperado para que ajudem essas pessoas a viver com essa realidade sem ignorar a dor inimaginável para aqueles que nunca sentiram. E para ter uma MÍNIMA ideia de que dor é essa é só assistir ao clipe, que é pesadíssimo mas, infelizmente, muito real. Eu confesso que não dei conta de chegar ao final…

“‘Til your world burns and crashes
‘Til you’re at the end, the end of your rope
‘Til you’re standing in my shoes
I don’t wanna hear a thing from you, from you, from you
‘Cause you don’t know
‘Til it happens to you
You don’t know how I feel, how I feel.”
(fonte)

Porém esse post está aqui não somente para mostrar a mensagem que ela quis passar, mas também para DISCORDAR disso de certa forma. Aliás, discordar não: complementar! E não, não pensem que vou falar que dá pra imaginar a dor sim, muito menos criar um “sofrimentômetro” nojento para rebaixar mulheres que já sofreram com estupro (ou mesmo a tentativa dele) na vida. Muito pelo contrário, na minha opinião mesmo que aconteça com você, você não saberá como a outra pessoa se sente! Cada um reage de uma forma às injustiças absurdas que a vida trás e não existe regra… Então ainda que você tenha passado por tudo isso, por favor, não meça a dor de outra garota através da sua. Não coloque sua superação (ou mesmo a falta de) como uma meta a ser seguida por ela. Ainda que tenha acontecido com você (e eu gostaria que JAMAIS acontecesse com QUALQUER PESSOA nesse mundo) saiba que só ELA sabe realmente e profundamente como se sente, como lidar com isso, até que ponto pode chegar para seguir adiante.

“Mas isso quer dizer que não posso ajudar, não posso intervir?” – CLARO QUE NÃO! Você deve sempre ajudar, sempre estender sua mão, SEMPRE dar o apoio. Mas faça isso com toda a empatia que conseguir reunir no seu ser. Lembre do difícil processo que é enfrentar a sociedade, os julgamentos, a si própria no espelho, mesmo que nada disso devesse ser um problema. Saiba que o abuso sexual é algo hediondo quando acontece com uma garota aos 16 anos e praticado por dezenas de homens diferentes que depois a expõe ao público, mas também com mulheres que estão na rua e são abordadas por um desconhecido… Ou mesmo com esposas que não conseguem lutar contra a força de seus maridos opressores, jovens que acabam bebendo demais e atraem algum aproveitador na festa que deveriam estar curtindo, uma pré adolescente que é assediada por um parente próximo e não consegue denunciar por isso, a universitária que mudou de ideia ao sair com seu colega de sala e ele não aceitou isso muito bem. Independente do local, das circunstâncias, das companhias, da idade, da roupa, do horário e de qualquer outra coisa o estupro é asqueroso, não importa quem é a vítima ou o agressor. É crime independente de você achar certa ou errada qualquer atitude da pessoa que passou por ele. Não é sexo, fetiche ou doença: é violência, é invadir um ser humano de uma forma que nem mesmo objetos devem ser tratados, é o resultado da atitude de alguém que fecha os olhos, os ouvidos e o coração para o grito desesperado de milhares de mulheres que querem apenas ser tratadas como um igual. Todos os dias.

E aí você pensa que poderia ser sua filha, sua amiga, sua irmã e sua neta… Que poderia ser você! Mas mesmo que não seja, ainda assim é alguém. Alguém com dores e sentimentos que, não importa o que tenha feito, não merece de modo algum passar por isso. Não limite seu amor ao próximo a quem você conhece e é importante na sua vida, expanda-o para cada uma que precisa dele desesperadamente. Mesmo que você não vá receber isso de volta no momento, faça não só porque você pode precisar que façam o mesmo por você amanhã, ou porque precisou que fizessem ontem. Faça porque é o certo, porque é o necessário, faça porque HOJE muitas e muitas de nós precisam! E quanto mais nós lutarmos contra essa cultura do estupro, esse machismo nojento, menos pessoas precisarão ser ajudadas e mais pessoas verão a importância de ajudar. E quem sabe chegaremos ao ponto em que, felizmente, ninguém mais saiba exatamente como as pessoas que passam por isso se sentem simplesmente porque ninguém mais passará. Parece um sonho, eu sei, mas nada poderia ser para mim hoje mais bonito de ser sonhado…

Uma cintura que mostrou várias coisas…

Em 12.05.2016   Arquivado em Escrevendo, Feminismo

Se a algumas semanas atrás eu tivesse dito para mim mesma que estaria escrevendo esse post, sério, eu JAMAIS acreditaria. E acho que isso é o mais maravilhoso dessa história toda: o fato de que algo muito forte negativamente na minha vida se transformou rapidinho numa coisa irrelevante e, logo em seguida, em algo ainda mais forte positivamente. Eu até pensei que não deveria escrever sobre isso porque “já passou” ou “já rendeu demais”, mas percebi que nada disso importa e com uma forcinha vindo de um lugar inesperado, pronto, cá estou eu me surpreendendo mais uma vez com a mesma coisa mesmo depois de quase um mês.

O início da história é: já tem algum tempo desde que eu pensava em tirar fotos minhas “seminua”. A palavra é bem forte pra esse caso porque as costas são algo que “todo mundo tem”. Mas nós sabemos que no corpo feminino qualquer sinal mínimo de nudez choca muito mais, ao mesmo tempo que rola fetiche ao redor disso existe também um baita tabu, então era certo que eu jamais faria tal coisa. Até que um belo dia eu fui lá e fiz. Não precisei que ninguém fizesse por mim, eu mesma peguei minha câmera, coloquei no timer e “posei” na frente dela. Assim que vi o resultado achei tudo muito ridículo e jurei que ninguém JAMAIS veria aquelas fotos. Duas horas depois, porém, uma delas estava linda e sépia no meu Instagram. No dia seguinte, por causa da história do “Bela, recatada e do lar”, pronto, foram mais duas que mandei enviar até pro Facebook (que vocês vão ver aí em baixo). Então refleti sobre como, quem sabe, algum dia alguma garota iria ver aquelas fotos e decidir fazer o mesmo. Quem sabe poderia incentivar alguém a se ver de outra forma. Pensei que se o mundo soubesse que eu tenho sardas altamente ODIADAS nas minhas costas e tava mostrando pra quem quisesse olhar, bem, algumas pessoas não precisariam mais esconder alguma coisa nelas mesmas.

Só que a repercussão foi maior do que imaginei. A foto, mesmo fechada para amigos, começou a receber “Curti” e “Amei” durante aquele dia inteiro. Recebi comentários chamando de “Diva” e rolou até um “Uau” muito bem vindo naquele momento. A cada nova notificação eu olhava mais e mais pra elas e o que eu esperava logo antes aconteceu. E sabem o melhor? Aconteceu COMIGO. Olhei tanto que comecei a focar num ponto muito específico de mim mesma: a cintura. E, de repente, eu me vi pensando “Sério mesmo que essa aí sou eu? Sério que essa cintura é minha? Se ela é assim porque diabos eu fico escondendo?”, o que de cara foi uma descoberta meio boba, mas depois virou algo GIGANTE dentro da minha cabeça. Eu percebi que poderiam existir várias outras coisas sobre mim, físicas ou não, que poderiam ser boas e eu nem sabia. Descobri que isso poderia existir nas outras pessoas também, mas que eu ainda não tive a oportunidade de encontrar nelas. E então eu passei a amar minhas fotos loucamente: usei em capa de um vídeo, postei outra no Facebook para discutir parte desse mesmo assunto que estou discutindo aqui agora, cheguei a jogar uma sem efeito nenhum no Twitter pra apoiar a hashtag #MeSintoLindaComoSou, até como perfil do Whatsapp as danadas estão… Inclusive aceitei uma sugestão que recebi e vou IMPRIMIR três delas fazer quadros aqui pro meu quarto. E aí que eu caí em mim e vi que não eram só as fotos (ou minha cintura) que eu estava amando naquele momento. Era eu mesma. E isso foi incrível.

O que começou em mim não parou mais, foi um assunto que eu achei que sequer existiria, mas até hoje surgem pessoas inesperadas vindo falar comigo sobre. Teve gente vindo me chamar pra confessar que também morre de vontade de fazer isso, mas não tem a coragem que eu tenho, e é nesse momento que essas pessoas descobrem que eu sequer tinha essa coragem, ela teve que ir sendo construída sem que eu notasse. Agora acho que tô “encerrando” um ciclo chegando no ponto máximo que achei que não chegaria, que é isso vir parar aqui no blog. Quem ainda não viu pode ter duas reações agora que vai ver: se decepcionar completamente no estilo “todo esse alvoroço só pra isso?” OU entender o que essas costinhas aí representam, que ao meu ver significa ter absorvido realmente todo o resto que foi dito. E aí minha finalização é: fique atento às dicas que a vida te dá que te mostram a pessoa maravilhosa que você é. Elas podem aparecer a qualquer momento, de milhares de maneiras diferentes. Não é algo permanente, em certos momentos fica difícil acreditar nessa “maravilhosidade” toda, mas nos faz cair na real que valemos vale a pena em tantos níveis que a gente mesmo nem imagina…

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Esse post foi inspirado na proposta #08 do Creative Writing Prompts, que oferece mais de trezentas ideias legais para desenvolver sua escrita criativa. É o entre os 25 que me propus a escrever até outubro de 2018! A outra foto publicada, que é minha favorita, pode ser vista aqui.

Vídeo-Tag: #GIRLPOWER

Em 27.04.2016   Arquivado em Feminismo, Memes e Tags, Vídeos

Peguei lá no Blog Coisa e Tal, por indicação de uma leitora aqui do blog, a tag #GIRLPOWER e, ai, eu tava doida para respondê-la, acho que tem tudo a ver com as coisas que acredito, sobre as quais eu falo e principalmente com o momento. Com certeza foi minha tag favorita do VEDA.

Perguntas:
01. O que significa Girl Power para você?
02. Quais famosas são sua referência Girl Power?
03. Qual a melhor maneira de uma garota achar o seu próprio Girl Power?
04. Se você pudesse ter um superpoder, qual seria?
05. Que produto de beleza faz você se sentir superpoderosa?
06. Qual é o seu lema Girl Power?
07. Qual é a sua melhor pose Girl Power?

Indico para responder essa tag, em vídeo ou em texto, TODAS as meninas super poderosas que frequentam esse blog e que gostaram dela, porque quero ver as respostas de vocês!

Pessoal, tive que fechar os comentários desse post porque o número de SPAM estava abusivo, não tinha como continuar! Quem responder essa tag me manda o link nos comentários de qualquer outra postagem para eu ver, por favor!

Onde a srta. Norbury errou…

Em 15.04.2016   Arquivado em Feminismo, Vídeos

Eu já contei várias vezes aqui que Meninas Malvadas é um dos meus filmes favoritos, mas nunca tinha parado pra falar numa coisa que pensei desde a primeira vez que o assisti, então essa é a hora: vou contar aqui onde a professora Norbury, essa personagem tão brilhante da história, errou um pouquinho no meio de tantos acertos. Sei que parece sem sentido, mas esse vídeo é, de um modo geral, minha maneira de dizer pra vocês que NÂO, nós não podemos mais nos chamar de “vagabundas” e “piranhas”, mas não para impedir que os outros também o façam, e sim porque já passou da hora de ver mulheres passando por isso!

Você é o que você quer ser!

Em 08.03.2015   Arquivado em Escrevendo, Feminismo

Já faz alguns meses que tô querendo escrever esse post, mas hoje, 8 de março, vi essa imagem abaixo no Facebook da Imaginarium e decidi que tava na hora de tirá-lo dos rascunhos de vez porque tinha tudo a ver com o assunto:

oquevocequer
Imagem tirada daqui.

Antes de mais nada, quero apresentar duas situações diferentes para vocês que foram os pivôs da existência desse post.
Situação 01, ocorrida em 2011 quando eu ficava o dia inteiro na UFMG porque além das aulas fazia estágio lá. Eu estava dentro do ônibus em pé, esperando a hora de descer pra voltar pra casa quando escuto um diálogo mais ou menos assim entre dois jovens rapazes em idade escolar (provavelmente no Ensino Médio). Nesse dia eu estava com meu cabelo sem chapinha, preso em um coque.
Garoto 01: Mas você tava afim da *fulana*, né?
Garoto 02: Tava, eu fiquei com ela!
Garoto 01: Mas você já viu o cabelo dela sem chapinha?
Garoto 02: Vi depois que fiquei com ela. Ow, assim não dá, né? Menina tem que ter uma chapinha.
Garoto 01: É, tem que fazer, é muito feio quando tá sem, fica desleixada. Aí você nem quis mais ficar com ela?
Garoto 02: Eu ficaria, mas se a gente fosse sair juntos ia querer que ela se cuidasse com certeza.

Agora situação 02, que aconteceu no meio do ano passado numa mesa de jantar com algumas pessoas da minha família depois da apresentação de dança da minha prima. Como eu sabia que ia assisti-la nesse dia, fui ao salão e estava de chapinha recém feita (que eu não gosto tanto, gosto de como fica no dia seguinte). O assunto era sobre cabelos no geral.
Tia (que tem um cabelo cacheado liiindo e usa sempre natural): Eu gosto assim (cacheado), mas minha irmã fez progressiva…
Eu: Eu fiz uma vez, mas não gostei, prefiro fazer chapinha de vez em quando.
Tio: Eu não gosto de nada artificial, para mim tudo o que é artificial é feio.
Eu: Poxa, quer dizer que tô feia agora? (Falei brincando, claro.)
Tio: Não, porque seu cabelo é liso, nem parece que você fez chapinha nele.
Eu: Tio, meu cabelo não é liso, ele é enrolado.
Tio: Não! Seu cabelo é liso!
Todas as outras pessoas da mesa: Não é não!
* Tio fica chocado. *

Eu não condeno meu tio por preferir o que é natural, mas a generalização “tudo o que é artificial é feio” soou muito errada para mim naquele momento, como se eu estivesse negando aquilo que eu era. Por outro lado achei abominável o papo dos dois adolescentes do ônibus: um deles gostava de uma garota, ficou com ela, mas aí eles viram o cabelo sem chapinha e a magia acabou, como se estar natural fizesse dela uma garota feia. Mas mesmo um caso sendo muito pior que o outro em nenhum dos dois foi levado em conta como eu e a *fulana* QUERÍAMOS estar independente de como ÉRAMOS realmente.

Não, meu cabelo não é liso: ele tem a raiz lisa e o resto é meio enrolado meio ondulado, nunca sei definir. Quando eu era criança, porém, era bem lisinho. Às vezes eu uso ele natural, às vezes faço trança como ele molhado para secar mais cacheado, mas na maioria das vezes eu fico de chapinha SIM. Não sei, eu “me vejo” de cabelo liso, sabe? Parece que eu fico mais eu, que nem quando uso batom vermelho ou quando sorrio e aparece minha covinha na bochecha, e até mesmo uma vez quando a moça fez minha sobrancelha fina demais e deixei um tempo sem mexer pra voltar a ficar mais grossa como gosto: algumas dessas características são naturais, outras artificias, mas são todas minhas. Porque EU QUERO ASSIM! Muitas vezes quando posto foto com o cabelo natural recebo comentários do tipo “Isso, assuma os cachos” ou “Seu cabelo agradece a folga” como se eu estivesse fazendo mal a mim mesma ou ao próprio cabelo – que por sinal fica MUITO MAIS BEM CUIDADO quando vou ao salão com frequência porque minha cabeleireira faz questão disso – simplesmente por querer estar daquele jeito, de um jeito que eu acho bonito. E se eu simplesmente abandonasse isso, nunca mais fizesse chapinha na vida só porque os outros dizem assim, acho estaria tão errada quanto a menina que tem sempre que fazer porque a sociedade ditou assim, mesmo muitas vezes não querendo
Gostar de sair com o cabelo arrumadinho (ou sempre maquiada ou de salto alto) não faz uma pessoa necessariamente fútil. Por outro lado cara lavada, um rabo de cavalo preso rápido ou a ausência de “depilação impecável” não transformam ninguém numa desleixada. São opções da própria pessoa, e o feminismo é isso: é o direito de ESCOLHA, é saber que você pode trabalhar e chefiar uma empresa, mas que pode também decidir por ficar em casa e não ter uma profissão, ninguém manda em você e na pessoa que você decidiu se tornar! Para mim uma donzela indefesa pode ter tanto valor quanto uma heroína, todas elas podem ser mulheres maravilhosas, basta querer.

Por isso nesse Dia Internacional da Mulher eu digo: você não é só o que é, mas também o que QUER SER! Seja a moça dos cabelos lisos ou cacheados, com ou sem maquiagem, estudando ou não aquilo o que você ou seus pais querem, mãe de crianças ou de cachorros, dona de casa ou alguém que trabalha fora, colecionadora de bonecas ou selos, chefe ou funcionária, gorda ou magra, fotógrafa ou fotografada, ouvinte ou falante, tímida ou extrovertida, mulher ou não; todas as anteriores, um meio termo entre elas ou até mesmo nenhuma delas! Que seja por ser feliz, por escolha, que seja por ser você. E mesmo que você julgue quem escolheu diferente, seja a diferença qual for, não condene: aceite. E assim ser você vai ser cada vez melhor!

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