Exposição (des) necessária para um momento de reflexão

Em 30.11.2016   Arquivado em Feminismo

Abra suas mãos agora e olhe para os seus dedinhos por um segundo. Se eu fizer o mesmo daqui de casa, agora aos meus 26 anos, consigo contar cada garoto que já beijei na minha vida sem nem preencher todos eles. Já rolaram várias brincadeiras entre meus amigos por eu ser seletiva e “difícil”, mas no fundo todo mundo sabe o motivo: eu só me envolvo com um cara se e quando REALMENTE quero, simplesmente nunca consegui (pelo menos até hoje) “ficar por ficar” com ninguém, em todos os casos teve o mínimo de sentimento e o máximo de vontade envolvida. Nem preciso dizer então que para eu dormir com alguém a “seleção” foi ainda mais “rígida”, só aconteceu quando eu soube que nunca ia me arrepender daquilo e que estava com a pessoa mais legal do planeta… Mas isso não vem ao caso porque sequer é o tema desse “textão” da vez, nosso momento de reflexão tá só começando.

Eu não bebo bebidas alcoólicas porque não gosto, as raras vezes que fiz isso foi para saber que gosto tinha (achei tudo ruim!) e para brindar a formatura de alguém, um golinho e já passei o copo adiante. Não fumo e não uso outros tipos de droga, nem experimentei. NUNCA cedi à pressão social de amigos ou colegas para fazer qualquer coisa, nem quando era adolescente, nem quando estava desesperada pra ter os amigos que eu não tinha, nem quando riam de mim porque eu era muito careta (ou qualquer expressão que usaram, porque só gente careta como eu usa a expressão “careta”). Festinhas e baladas? Dá pra contar nos dedos também, sem precisar apelar pros dedos dos pés. Em resumo, eu pareço ser o que os padrões esdrúxulos da nossa sociedade adora enquadrar no perfil de “boa moça”, não escondo e muito menos me orgulho disso. Antes que vocês pensem que tô contando isso tudo porque discordo de quem leva a vida diferente de mim já aviso que muito pelo contrário! Na minha opinião as pessoas devem fazer o que elas quiserem, na hora que quiserem e com quem quiserem, a menos, é claro, que não seja consensual ou que magoe terceiros. Pra mim eu não sou melhor e nem pior do que a menina do “eu escolhi esperar” e nem da que pega mais de uma pessoa por vez e de uma vez, não sou melhor e nem pior do que quem passa o fim de semana na igreja ou no bar. Nós somos todas iguais, no fim das contas, e merecemos igual respeito. Com o tempo eu parei de me arrepender das coisas que não fiz e menos ainda das que fiz, todos têm o direito de se sentir assim também. (Apesar de que arrependimento a gente não controla, às vezes rola, fazer o que?)

Escrevi toda essa exposição desnecessária sobre mim para provar que é possível ser a pessoa que eu sou por completo, para já desestruturar qualquer argumento ofensivo contra a minha pessoa, argumento esse que sequer deveria existir mesmo se eu fosse o oposto do que sou. Pra mostrar que sou feminista mesmo que não me enquadre nos perfis “dá pra qualquer um” e/ou “sofre com falta de rola” (aliás, machistinhas, me expliquem como é possível ser os dois ao mesmo tempo porque ainda não entendi). E acompanhando cada vez mais as pautas do movimento eu dou de cara com uma das mais “polêmicas”: a legalização do aborto. Por muito tempo eu fui contra, mas graças às maravilhas que a reflexão trazem na nossa vida hoje sou a favor. Desde novinha eu tenho muita vontade de ser mãe, apesar de que hoje em dia sei que isso só vai acontecer se eu tiver condições, financeiras mesmo, de fazer isso exatamente como eu quero fazer, então não sei se vai rolar. Por outro lado eu jamais abortaria uma criança se engravidasse em situações normais, mesmo que em um momento indesejado. NUNCA tive qualquer relação sexual sem estar tomando pílula e usando camisinha ao mesmo tempo, mas sei que isso não tornaria uma gravidez algo 100% impossível. Sei que se tivesse algo de errado com a pizza que comi em um certo dia eu poderia ter passado mal e, pronto, o remédio já podia nem estar mais no meu organismo, sei que o látex milagroso quase imperceptível do que preservativos são feitos não tem titânio em sua essência, não é completamente incorruptível. Sei que estou correndo um risco e que todos nós estamos, mesmo que a maioria de nós não conte com isso. Sei também que não faz sentido nenhum obrigar a sociedade a viver um voto de castidade geral a menos que seja para reprodução porque, como eu disse acima, a gente tem que fazer o que quer mesmo dessa vida, estar feliz sempre vale a pena. E eu sei que se alguma coisa der errado no meio do caminho terei que encarar as consequências.

Acima de tudo, porém, eu sei que nenhuma pessoa no mundo é igual a mim ou tem a vida exatamente igual à minha. Nem todo mundo tem os mesmos desejos e vontades que eu, as mesmas limitações e liberdades, as mesmas condições e o mesmo pensamento. Sei que ninguém acorda falando “Ai, que dia lindo, acho que vou ali dar uma engravidada pra fazer uma abortinho depois!”, mas que muita gente não tem outro pensamento que não “Puta que pariu, não posso MESMO ter um filho, e agora?”. E o “não posso” depende da pessoa, viu? Pode ser um poder financeiro, físico, mental, estrutural, sentimental, tantos tipos de não poder que nem sequer consigo citar todos. E quem sou eu para julgar isso? E quem é você para julgar isso? E quem somos nós para definir o que essa pessoa pode ou não fazer, no fim das contas? Para definir se ela está sendo egoísta? Para definir que ela deve ir contra o que os outros acreditam, e não ela mesma? O que nós sabemos da vida de cada um para definir o que é certo ou não para aquela pessoa?

Por outro lado existem várias coisas que nós sabemos! Sabemos que um terço dos brasileiros culpam a vítima por estupros sofridos, o que mata o argumento de que “aborto é permitido em caso de estupro”, já que muitos sequer acreditam que a mulher tá falando a verdade quando faz a denúncia (isso quando consegue ter coragem denunciar, porque encarar toda a sociedade depois não é fácil, não). Sabemos que as pessoas inclusive continuam achando que saias curtas, bebidas, estar solteira, andar na rua sozinha e ser “fácil” são possíveis causas do estupro, quando na verdade a ÚNICA E EXCLUSIVA CAUSA são os estupradores. Sabemos que, apesar de serem muito eficientes e do fato de que devemos SEMPRE usá-los, não existe método anticoncepcional 100% seguro. Sabemos que sendo legalizado ou não as pessoas abortam de qualquer forma, mas como a maioria não tem condições financeiras para fazer isso acontece um milhão de práticas irregulares por ano, deixando essas mulheres à mercê da morte e da justiça (inclusive: leiam esse artigo, por favor). E O MAIS IMPORTANTE DE TUDO: sabemos que a legalização não torna a prática uma obrigação, muito pelo contrário… Ela gera não só segurança, mas também reflexão e pode acabar aumentando a taxa de desistência a partir disso! Sabemos também que estar segura, protegida e livre de olhares tortos muitas vezes é só o que uma pessoa precisa num momento tão difícil, e eu não tenho como provar essa última, mas por experiência própria sei que se colocar no lugar do outro, ter empatia pelo próximo, pode aumentar horizontes e diminuir julgamentos. Eu não me enquadro no perfil que as pessoas imbecis tanto acham que os defensores da legalização têm e cá estou, mesmo porque felizmente o mundo não gira em torno de mim. E você, já tentou abrir sua mente e refletir sobre isso hoje?

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Foto do Sacred Feminism

O heróico brado retumbante

Em 12.11.2016   Arquivado em Escrevendo

Estudar o período da ditadura militar no Brasil sempre foi muito angustiante para mim, mais até do que o holocausto, que não ficava exatamente muito atrás. Saber que existiu poucos anos antes de eu nascer, que aquele professor que estava ali na frente nos ensinando tinha vivido tudo aquilo, que o que nos era relatado era só a ponta do iceberg de torturas e opressões pelo qual todo o povo tinha passado, bem, não tem como não se incomodar com isso. Mas o que mais me derrubava era o “pós aula”, quando eu me sentava com as amigas para falar sobre o assunto e todas elas refletiam sobre como estariam nas ruas junto com os manifestantes tentando reverter aquela situação, que lutariam em prol da democracia mesmo que se ferrassem por isso. Não, eu não achava que elas estavam erradas ou que eram malucas, eu sentia era vergonha em pensar que, ao contrário delas e de tantos antes, eu jamais seria uma daquelas pessoas, jamais teria coragem.

Outra coisa que passava muito pela minha cabeça, o mais intrigante de tudo, era COMO DIABOS AQUILO TUDO TINHA ACONTECIDO? Como as pessoas tinham permitido, será que não perceberam? Se elas estavam pedindo o fim, por que não impedir desde o começo? E aí que cá estamos, mais de cinquenta anos depois, e de repente eu vejo, diante de mim e de todos nós, uma manobra política acontecendo bem na nossa cara. Vejo gente tentando impedir e não sendo o suficiente diante do poder, gente manipulando claramente para que se concretizasse e, claro, gente que assistiu a e resolveu se manter neutro ou mesmo acreditou que era o melhor, deu seu apoio. Foi então que eu descobri COMO acontece. E foi então também que eu percebi o quanto estava errada lá na minha adolescência. Eu não precisava sentir vergonha porque no fim das contas eu sou, sim, alguém que vai para a rua lutar pelo que acredita. Porque foi isso que eu fiz (e continuarei fazendo, sempre).

Veja bem, o objetivo aqui não é falar exatamente sobre os motivos pelos quais estamos indo às ruas e sim o que sinto quando chego lá, mas é impossível desenvolver um sem ter destrinchado o outro porque independente do posicionamento político a gente precisa analisar a situação como um todo. Quando você vota em um candidato à presidência e, consequentemente, no seu vice, não são somente PESSOAS que você está elegendo, mas também e principalmente um plano de governo. E se o vice assume o cargo e não segue o plano de governo do presidente que o elegeu, pronto, é porque tem alguma coisa errada. Sobre o julgamento em si, pensem bem… Foi cometido um crime e deve existir uma condenação para ele, mas a partir do momento em que as decisões são tomadas independentes do tipo de crime, dos motivos, da defesa, a partir do momento em que aquela coisa deixa de ser crime no dia seguinte da condenação é porque tem outra coisa errada. E temos que pensar no objetivo de um governo, que é SEMPRE continuar no poder, certo? É pra isso que as melhorias são feitas, pra isso que medidas são tomadas, para que nas eleições seguintes queiram te reeleger ou eleger seu sucessor. Mas e quando isso NÃO PODE acontecer, quando quem está no poder NÃO PODE continuar? Aí seu objetivo principal se perde e ele pode fazer o que bem quiser a hora que quiser sem se importar com o que os outros vão pensar, e VÁRIAS coisas erradas nascem, crescem e se reproduzem. É o que estamos vivendo agora, é o que não dá para ver e ficar caladinho.

Eu relutei muito antes de finalmente tomar essa decisão. Via amigos indo, participando, e ao mesmo tempo que tinha vontade, faltava coragem. Sabe quando você pensa “E se der ruim?” e deixa esse pensamento te dominar a ponto de não fazer o que quer? Pois é, acontece sempre comigo, mas a situação chegou num ponto extremo em que não deu pra segurar mais. O resultado foi surpreendente e maravilhoso. Nunca me considerei muito patriota por motivos extremamente estúpidos como “gostar da cultura de outros países” e “não ouvir música nacional”, mas é escutar o hino tocando que preciso segurar as pontas e as lágrimas que querem cair. Até aí tudo bem, eu sou MUITO chorona, se bobear rola até com o hino alheio. E ver torcedor sofrendo pela derrota do Brasil em Copas do Mundo então? Nossa, parte meu coração, mas novamente eu sou muito sentimental, qualquer “amor de fã” já me toca, no futebol não seria diferente. Porém foi eu pisar na rua tomada por manifestantes pela primeira vez que percebi que a emoção que todas essas coisas me causam não vem dos outros e sim de mim. Ouvir os tambores batendo e vozes gritando em nome de uma vida melhor, seja ela uma perspectiva para o futuro ou vontade de manter o que há de bom no passado e presente, saber que todo mundo está ali por causa de um país inteiro e não somente de si mesmo, reconhecer nos discursos o que eu mesma diria se tivesse acesso àquele microfone, nossa, isso tudo me arrepia, me dá um nó na garganta, eu acho LINDO DEMAIS! E aí a gente vai caminhando às vezes sem nem perceber o que está fazendo até que bate a real, até que todo mundo canta uma música que de repente começa a fazer sentido, até que a presença da polícia ali no cantinho dá medo mesmo que nada do que está sendo feito seja errado… Tudo isso me faz refletir o quanto é heroico esse brado retumbante, o quanto é ousado lutar pelo que queremos ser e o que temos direito num mundo onde somos reprimidos o tempo todo por isso. Aliás, democracia é uma coisa linda de forma geral!

Eu sou uma pessoa que SEMPRE será a favor de toda e qualquer manifestação, a menos que manifestem pelo fim do meu direito de manifestar. Em 2013 achei tudo muito confuso, tudo muito fora da ordem e sem objetivo, mas sem desvalorizar, apenas não participei. As que vieram logo após o resultado das eleições de 2014 então iam contra quase todas as coisas que acredito e as pessoas que eu conheço que estavam lá pensavam apenas em manter seu status de privilegiado em relação ao outro, algo que não posso aceitar, mas mesmo julgando tudo uma baita babaquice continuei sendo a favor do que estava sendo feito. Teria como não fazer o mesmo diante da minha insatisfação, da noção de todos os erros e injustiças que estão sendo cometidos? Não, não teria. Sabe como é, eu “prefiro barulho da democracia ao silêncio oprimido da ditadura” (fonte).

heroicobradoretumbante
Primeiramente…

Amor na Primavera

Em 24.10.2016   Arquivado em Escrevendo

Amor na Primavera
Eros e Psiquê, de Antonio Canova, via Italianarte

Paris, era primavera e o amor estava no ar. Cristiane caminhava pelo parque comendo cerejas. Como a garota amava essas frutinhas! Todo dia comprava sacos e mais sacos delas. Olhando para o relógio percebeu que deveria correr, pois se demorasse não chegaria na faculdade a tempo.

Chegando lá, encontrou Renato. Seu coração bateu mais forte de modo que nem as cerejas, nem o curso de Belas Artes eram capazes de fazê-lo bater. O rapaz sorriu para ela e, de mãos dadas, foram estudar. E passaram a tarde se olhando, namorando e se beijando.

Na volta para casa, Cristiane decidiu escrever um poema sobre amor. Sobre seu amor. Sobre amor visto como oxigênio, como o amor visto em obras camonianas. Começou, escreveu, corrigiu, leu, releu e aprovou. Convidou Renato para jantar, e durante a noite lhe mostrou seu texto, tão bem escrito. Renato, emocionado, pediu a garota em casamento, decisão tomada semanas antes. Feliz, ela aceitou. Satisfeito, ele a beijou.

Anos se passaram. Renato e Cristiane continuam juntos. Continuam amando belas artes e cerejas. Continuam se amando, tão fortemente como nas obras camonianas.

Esse texto foi escrito por mim numa prova de redação no 1º ano do Ensino Médio, em agosto de 2005, e as exigências eram que fosse na terceira pessoa e retratassem o amor da forma que era apresentado em alguns do exemplos dados, entre eles a foto da mesma escultura usada para ilustrar o post e um poema de Camões. De tudo o que já escrevi no colégio ele foi meu favorito e minha mãe o encontrou semana retrasada, mas quando fui ler fiquei MUITO decepcionada. Não tinha nem um pingo da genialidade que eu estava esperando, discordei várias vezes da pontuação, da escolha de nomes, do título, foi bem triste.

Depois fiquei mais triste ainda com minha decepção. Percebi que era ÓBVIO que eu não ia gostar de algo que produzi a mais de uma década atrás, que isso é bom porque representa que evoluí, é claro. Percebi que eu não sou ninguém para julgar as palavras de uma garota de 15 anos e muito menos para esperar dela feitos acima do padrão. Aliás, essa mesma garota tirou total na prova e emocionou muitas de suas amigas na época, então tenho é que ficar orgulhosa do seu extraordinário trabalho ordinário! E quem sabe daqui a um tempo, com mais evolução ainda, Cristiane e Renato não acabam se tornando personagens em uma nova história? Veremos…

A história que nunca irei escrever

Em 15.10.2016   Arquivado em Escrevendo

A história que nunca irei escrever

Eu já escrevi um livro inteiro, pedaços de um segundo e sempre continuarei escrevendo outros. Não sei dizer quantos e sequer dizer se todos, porque o que não me faltam são ideias e histórias aqui dentro da cabeça (e do coração), histórias de rir e de chorar que poderiam estar acontecendo agora mesmo enquanto vivemos nossa vida real ou, quem sabe, realmente estão. Muitas vezes eu exponho as situações que já imaginei que poderiam acontecer comigo, em outras acabo retratando exatamente o contrário, dou pra personagens o destino que não queria pra mim de jeito nenhum. Escrever pode ser um reflexo das várias ideias que temos de como seriam momentos perfeitos, aqueles que acabamos até decepcionando quando não sai tudo exatamente como o “planejado”. Só que a vida é uma caixinha de surpresas e por mais que soe improvável às vezes o universo resolve ser maravilhoso e fazer a realidade ainda melhor que a ficção.

É quando nem no fundo da sua imaginação mais fértil você consegue visualizar uma ou outra possibilidade tão linda assim até que, do nada, ela acontece, e quando acontece a gente não pode deixar passar, não pode temer, tem que ir fundo e aproveitar esse momento, senão acaba sentindo o pior tipo de arrependimento que existe: o de não ter feito, de não saber como foi desejar ser um expectador da sua própria vida só para assistir o que está acontecendo ali, não importa se dura dias, meses, anos… Não sentir o clima intenso quase palpável que os momentos extraordinários da vida têm, ou como sua respiração muda e pode ser ouvida à medida que a coisa de aproxima, não sentir o cheiro característico que está no ar e que fica marcado de forma que dá pra lembrar mesmo de longe, mesmo muito tempo depois. Não viver o mix de sensações maluco que envolve ansiedade, alegria, nervosismo, realização, surpresa, às vezes até amor… Não poder olhar no fundo dos olhos e ver como eles se transformam quando acompanhados de um sorriso, ou mesmo não admirar aquela imensidão de pintinhas que se tornam, ali dentro do coração, uma das melhores visões do mundo.

Não receber carinhos inesperados que arrepiam a pele e a alma.

Você é a história que eu nunca vou precisar escrever, simplesmente porque pude vivê-la ao vivo e com todas as cores possíveis, a história que me fez lembrar que a vida pode ser tão maravilhosa quanto a pessoa que a protagonizou junto comigo. E mesmo que às vezes eu sinta um aperto no peito de saudades de cada um desses segundos que foram ainda melhores do que pensei, logo volto a sorrir por a gente ter compartilhado tudo isso: um “enredo” que não me faz querer voltar atrás, nem por um momento sequer, porque foi além do esperado, foi ideal!

Pakita & Eu

Em 30.09.2016   Arquivado em Escrevendo

Pakita & Eu

É estranho ter tanta coisa pra falar e ainda assim um aperto na garganta sufocar tudo isso de forma que o cérebro começa a impedir que as palavras sejam redigidas. Eu poderia apelar para o meme e dizer que das 10 maiores raivas que passei na vida, sete ela que causou, e nas outras três ficou do meu lado para que eu me acalmasse. Eu poderia aproveitar o título inspirado em “Marley & Eu” e jogar citações do livro que sei que conseguem expressar melhor o que sinto do que eu mesma jamais vou conseguir. Eu poderia tentar ser poética, algo que nunca fui, ou mesmo bancar a engraçadinha, que é como eu me viro quando tenho que encarar situações assim. Eu poderia ignorar e sequer publicar essas palavras, mas isso seria injusto demais. Seria injusto não dedicar alguns minutos à Pakita justo no dia em que fazem dois meses em que ela não está mais aqui, então é isso que vou fazer.

Ela chegou uma bolinha de pelos marrom, completamente muda e desorientada, sem saber o que estava fazendo ali. Podia entrar na lista de “piores cachorrinhos do mundo” pelo número de gritos que ouvia graças à confusão enorme que causava, completamente desproporcional ao seu tamanhozinho tão pequeno que fazia com que a gente pisasse nela várias e várias vezes ao dia. A primeira coisa que nós fizemos juntas foi (re) assistir a um filme do Harry Potter e ela viveu isso tantas vezes ao nosso lado nos últimos 12 anos que acho que nunca vamos saber realmente quantas. Ela também gostava de E.R. e sempre era possível ouvir aquele latido tão raro quando seus médicos favoritos apreciam na tela. A Pankeka era sua grande ídola, já velhinha tentando ter paciência com o bebê que tinha chegado, e ela a seguia desesperada por todos os lados imitando o modo dela se deitar. E no dia que a Pankeka morreu foi ela que veio até mim quando cheguei da escola, desesperada, para dar a notícia da forma silenciosa que ela usava para se comunicar, e mesmo anos depois se nós chamássemos por aquele nome ela corria pela casa procurando, ainda na esperança de achar a amiga perdida.

Ela nunca aprendeu o que era certo ou errado, ou até aprendeu sim, mas preferia ignorar isso e fazer o que viesse na cabeça na hora que viesse. Ela sabia que não devia deitar em cima do meu travesseiro, mas fazia isso assim que eu saía de manhã, não importa o quão suja estivesse. Ela sabia que tinha o lugar para fazer as coisas, delimitado com um jornal, mas se não queria sair do nosso lado fazia ali onde estava mesmo. Ela sabia qual comida era dela e qual não era, mas isso não a impediu de, sabe-se lá como, puxar um ovo de páscoa do alto de um criado e comê-lo INTEIRO, e sem nem passar mal depois. Ela sabia que derrubar o lixo no chão e espalhar pela casa inteira ia deixar todo mundo bravo, sem falar com ela direito, mas era só sentir saudades que fazia isso pra chamar um pouco de atenção. “Quem sabe assim eles não me deixam mais sozinha…”, acho que era isso que passava na cabeça dela. Ela sabia que a gente não ia aguentar viver sem ela, mas isso não foi suficiente para impedir que optássemos por isso quando chegou a hora. Pro bem dela, como tudo o que nós fizemos desde que ela entrou na nossa vida pra nunca mais sair. Saber que ela não estava bem era ainda pior do que a gente não estar bem por causa dela.

“Kita”, “Kiki”, “cãozinho”, o que ninguém sabia era o quanto a vida de cada um de nós girava em torno dela, e só fomos descobrir quando ela parou de estar aqui. Sessenta dias se passaram e às vezes eu levanto correndo quando percebo que a porta do quarto está fechada, achando que ela pode estar precisando entrar, ainda que a gente nunca fechasse a porta antes por causa dela. Quando não tem ninguém em casa eu ainda me preocupo em chegar a tempo de dar comida pra ela, e aí de repente lembro que não precisa mais disso. Ela não está mais do outro lado da porta esperando a gente entrar, não vai vir correndo pedir carinho quando o som da nossa voz ecoar pela casa. Quando eu entro na cozinha tomando cuidado onde piso é por mero costume, porque não tem nada para pisar ali. A casa está muito mais limpa, as responsabilidades diminuíram muito, mas o coração ficou completamente vazio. Não tem mais ninguém para lamber meu nariz quando eu falar “Fofenha!” na nossa brincadeira particular. Não tem mais chorinho carregando a uvinha de plástico pedindo pra brincar, aquela que ela amava tanto que foi enterrada ao seu lado. Não tem mais “fioti di lião” ou colo desesperado quando soltam fogos de artifício. Não tem mais Pakita, nunca mais, e não tem nem como ela consolar o choro de saudades porque dessa vez ele vem quando a gente menos espera justamente por causa dela, da falta que ela faz e nunca vai deixar de fazer.

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