O Amigo dos Sonhos

Em 15.03.2017   Arquivado em Escrevendo

O Amigo dos Sonhos

Eu queria que alguém me dissesse que vive algo igual, só para eu ter certeza de que esse tipo de coisa é comum… Sei lá, às vezes eu acho meio estranho, em outras acho normal sem muito significado e tem aqueles momentos em que fico devaneando se não existe algo maior por trás, algo espiritual, mesmo sendo um pouco cética para esse tipo de coisa na maior parte do tempo. No fim das contas não faz diferença, nada disso muda a realidade bela e bizarra de que meu antigo amigo imaginário me ajuda através de sonhos.

Ok, pareço completamente louca falando, mas é verdade.

Muitas crianças têm amigos imaginários, mas esse veio um pouquinho tarde demais na minha vida, quase na adolescência. Eu não o criei, ele apareceu sabe-se lá como já pronto, alto, ruivo, de olhos azuis, meio nerd, quando eu paro pra pensar é a imagem perfeita do protagonista do primeiro livro que eu escrevi. E ele era meu melhor amigo! Na época eu até tinha amigos muito legais (foi antes dos anos de solidão escolar pelos quais eu passei), mas ninguém era igual. Me entendia, sabe? Às vezes me dava respostas que eu nem sabia que ia ouvir… Ou quem sabe até sabia, mas no momento quem estava dizendo aquilo tudo era ele, não eu, então vamos continuar assim… Quando eu morri de medo de encarar minha escola nova, ele tava do meu lado. Quando eu preguei um poster do Daniel Radcliffe na parede e fiquei admirando apaixonada, ele zuou minha cara. Quando fiquei doente e não pude estrear minha nova sandália da Sandy, ele consolou essa breve decepção. Eu sabia histórias de quando ele era um garotinho, ouvia elas dentro de casa ou enquanto empurrava o carrinho do supermercado com meus pais, nossos momentos juntos eram uma delícia, porém chegou o dia em que eu precisei rasgar essa página da minha vida. Ora, eu estava bem grandinha, né? Já tinha passado da fase de criar o amigo ideal na minha mente, era hora de encarar o mundo real como ele realmente deveria ser! Foi então que eu resolvi abandoná-lo em nome da “mocinha” que já era, não era certo ter esse tipo de brincadeira de criança. Decidi que se um dia tivesse um filho menino daria aquele nome pra ele e aí tava tudo ok, seria uma homenagem silenciosa cujo motivo ninguém precisaria saber, e com o tempo esqueci que essa era a origem do mesmo…

Até que, alguns anos mais tarde, quando eu sequer pensava mais em um tudo isso, ele de repente voltou.

Eu já era quase adulta, nos anos loucos da faculdade, numa das situações da vida em que a gente não sabe bem o que fazer e vai dormir com a cabeça cheia de preocupações na esperança de acordar com uma solução imediata. Naquela noite eu sonhei com esse problema, e ele apareceu para me dar a resposta. Foi meio que um diálogo mesmo, eu expus o que tinha acontecido e nós conversamos até que a saída fosse exposta, e eu acordei na manhã seguinte maravilhada com a experiência. Vários meses se passaram, surgiram contratempos de relacionamento, e quem foi me consolar enquanto eu dormia? Ele outra vez! E aí eu formei, tinha conseguido minha primeira cliente e não tinha onde fazer o trabalho, adivinha quem veio dando a sugestão certa naquela madrugada? Ele mesmo! Não é sempre, quem me dera, mas vira e mexe o “amigo dos sonhos”, que uma vez chamei carinhosamente de “Brothah” – tipo brother, com sotaque britânico forçado, que nem eu e minha irmã nos chamamos de “Sistah” -, dá uma passeada na minha cabeça desacordada com um ombro pra eu chorar e palavras pra me acalmar, surpreender, ajudar.

Outro dia contei isso prum grupo de amigas, temendo um pouquinho ser julgada, e elas sentiram uma mistura de admiração e arrepios, quase querendo também. Ficamos alguns momentos procurando significados, achamos vários e nenhum ao mesmo tempo, assim como a maioria das coisas da vida que a gente começa a tagarelar sobre. Só sei que no fim eu disse “Eu só queria que ele existisse de verdade!” e uma delas simplesmente soltou “E quem disse que não existe?”, como se encerrasse a questão. Pois é, quem disse?, não é mesmo…

ps.: Ei, Brothah, aí no mundo do inconsciente ou seja lá onde você vive, se não tiver fazendo nada, aparece essa noite pr’a gente bater um papo porque, menino, cê num sabe o quanto eu tô precisando… Ou será que sabe?

Esse post foi inspirado nas propostas #134, 185 e 197 do Creative Writing Prompts, que oferece mais de trezentas ideias legais para desenvolver sua escrita criativa. É o 11º entre os 25 que me propus a escrever até outubro de 2018.

A mulher do ônibus

Em 06.03.2017   Arquivado em Escrevendo

A mulher do ônibus

Começo de noite de domingo, cês já sabem como é, né(?): nem uma viva alma na rua, ônibus só de meia em meia hora, se isso, todo mundo “endomingado”. Graças ao aplicativo da Prefeitura eu sabia exatamente a hora que devia estar no ponto e consegui embarcar em direção ao meu breve compromisso bem a tempo e evitar um atraso monstro caso não conseguisse. “Pontualidade britânica”, é o que me diriam quando eu chegasse lá!

Ali no Centro da cidade muita gente entrou, inclusive essa moça. Primeiro um grupo de três caras, depois ela, eu reparei porque achei o cabelo lindo. Assim que passou da roleta ela ficou olhando para os lugares, procurando onde sentar, e isso não faltava (era DOMINGO, afinal de contas), até mesmo uma “dupla” de acentos completamente vazia, mas naquele momento parecia que ela não achava nenhum, até que me viu desacompanhada com os fones no ouvido, deu um sorrisinho e veio na minha direção. Dei lugar para que ela se sentasse no banco da janela – sempre fico no corredor – e fiquei me questionando por que motivo essa escolha demorou tanto tempo, já que eram várias opções. E foi então que eu percebi que, tirando nós duas, TODAS as outras pessoas ali dentro eram homens. Os idosos que estavam em seus lugares preferenciais na frente, o motorista em seu dia de dupla função, os passageiros que já estavam sentados e aqueles que ainda estavam subindo. Se ela não se sentasse ao meu lado, mesmo que fosse para onde poderia ficar inicialmente sozinha, em algum momento teria que dividir o espaço com algum deles, e provavelmente eu também, já que aquele ponto onde estávamos parados estava bem cheio, MESMO. E ali na minha ansiedade já pensando na reunião que eu teria em alguns momentos nem me toquei disso, mas ela sim, e foi correndo pro único canto onde se sentiria segura de ter uma viagem tranquila. Comigo. Com outra mulher. E nem foi preciso que isso fosse dito porque eu simplesmente sabia, tendo eu mesma já feito o mesmo mais de uma vez.

Nenhum daqueles homens tinha uma placa na testa dizendo que ia fazer mal a qualquer uma de nós, mas a mera possibilidade disso já era o suficiente. Levantei da cadeira e dei o sinal com um aperto no peito de deixá-la ali, o que depois se transformou em um medinho forte quando um dos grupos que estava lá atrás fez comentários sobre a minha bunda em alto e bom som pra todo mundo ouvir. Torci pra ela descer logo, pra alguma moça entrar no meu lugar, pra que nenhuma de nós precise passar por nada disso. Andei na rua quase correndo pra chegar onde devia logo, sem saber se queria ou não que aparecesse alguém com quem dividir aquela calçada quase deserta, fechando a cara pro rapaz que veio mexer comigo e só aumentou meus receios. Nada me aconteceu de mal e ainda assim eu só queria estar segura.

É isso que é ser mulher em qualquer momento do ano, então que tal no dia 8 de março deixar as flores de lado e passar a nos entregar o respeito que deveria ser nosso de direito, todos os dias? Só assim vamos parar de viver esse tipo de situação, que parece uma coisa boba mas é exaustiva de ser vivida todos os dias.

Amo e Detesto

Em 30.01.2017   Arquivado em Escrevendo

amodetesto
Amo esse filme, detesto quando chega essa cena! Imagem do Disney Wikia.

Eu amo batons vermelhos e detesto sair de casa sem eles…

Amo Coca Cola, detesto Fanta Uva;
Amo brócolis, detesto azeitona;
Amo limão, detesto goiaba;
Amo coração e detesto bife de fígado.

Amo cachorros e detesto baratas.

Amo rock, detesto axé;
Amo escrever, detesto praticar esportes
Amo filmes de animação, detesto os de terror;
N’O Rei Leão amo o Mufasa e detesto demais o Scar!

Amo a Pepsi Twist mas ironicamente detestava a Coca Cola Light Lemon…

Amo muito maiôs e detesto usar biquíni (na verdade, não uso!);
Amo o frio, detesto o calor;
Amo cor-de-rosa, detesto laranja;
Amo meu macaquinho de margaridas mas detesto ter que raspar as pernas para usá-lo!

Amo quem leva a bandeja pro lugar certo no shopping e detesto mais que tudo gente que joga lixo fora da lixeira!

Amo tatuagens, detesto quando alguém tem preconceito contra elas;
Amo todas as formas de amor, detesto que se incomodem com isso;
Inclusive amo a diversidade e detesto quando ela não é aceita!
Amo ficar sozinha mas detesto quando estou com pessoas amadas e tenho que me despedir delas…

Amo abraços e carinho, dar e receber, e não consigo achar nada que detesto tão fortemente pra criar esse contraste!

Eu amo ler quase tudo nessa vida e sempre detesto quando leio os comentários do G1;
Amo boas notícias, detesto a pouca frequência com a qual as recebo;
Amo descobrir o que há de melhor nas pessoas, detesto as que só mostram seu pior;
Amo levar as coisas na brincadeira e detesto brincadeira com assunto realmente sério.

Amo amar e detesto detestar!

Pedaços de uma vida que abriu-se em flor

Em 12.01.2017   Arquivado em Escrevendo

“É o avô do Henrique!”

Minha mãe, já grávida de 43 semanas, abriu o portão e desligou o interfone morrendo de rir dessa resposta dado pelo meu avô para responder à pergunta “Quem é?”, lá no primeiro apartamento onde a gente morou. A ideia de não contar pra ninguém se eu era menina ou menino veio dela mesma, inicialmente porque tinha medo de ficar decepcionada com o resultado do ultrasom, mas depois que isso não aconteceu era simplesmente mais legal continuar com o suspense. O quarto era todo verde, as roupas em cores “neutras”, acho que no total apenas outras cinco pessoas sabiam da verdade, entre elas meu tio Márcio, que foi selecionado pra ajudar na escolha do nome oficial.

Mamãe queria Renata. Mentira, mamãe queria Henrique, mas não tinha como, então ela optou por Renata. Papai escolheu Luciana. Os dois gostavam de ambos, então tio Márcio desempatou e Luciana venceu. Acho que foi melhor assim porque eu gosto do meu nome – não gosto de ser chamada por ele, é verdade, mas isso não muda nada, continuo gostando e pronto. Eu só consigo me ver dessa forma, não sei quem é a Renata e muito menos quem é o Henrique… Imagino que ela seja mais ou menos parecida comigo mesma, senão idêntica, já ele não tenho a mínima ideia. Será que é um cara legal, desconstruído e educado? Será que é o contrário de tudo que deveria ser, todo machista sem noção? Ai, Deus me livre! Será que ele é gay? Eu tenho quase certeza que ele é gay, espero que a família dele (no caso, a minha) aceite isso de boa, lá no universo paralelo em que eu nasci como ele e não como eu mesma…

Luciana significa “cheia de luz”, por causa do Lúcia, apesar de que não me sinto um ser TÃO iluminado assim, não, mas estamos trabalhando pra chegar lá… Significa “cheia de graça”, por causa do Ana, e pode ser que isso justifique as piadas que eu faço em tempo integral e todo mundo sempre acha que tô falando sério. Significa “aquela que veio ao amanhecer”, mas a “diferentona” aqui nasceu no finalzinho da tarde, graças ao médico que me arrancou meio que sem eu querer. Ao contrário é Anaicul, que odeio, na família é Lulu, que acho fofo, alguns conhecidos não muito próximos insistem no Lu, que eu também não gosto, e já foi Lucy em vários e vários lugares, o que é BEM legal e lembra aquela que estava no céu com diamantes. A Luly nasceu aos 12 anos por causa de uma perninha puxada sem querer que transformou um “u” em “y”, e como é que a gente ia saber que no final ela ia se tornar a oficial entre todas as outras? Essas coisas da vida… Quando a presença é alegre vira “Luulyyy”, se tá chamando de longe sai um “Lu-lê!” e tem aquelas vezes que eu mesma falo de mim na terceira pessoa carinhosamente como Lulynha…

Um ponto divertido da história, é que seu Carlito, de fato, era o avô do Henrique. Infelizmente não viveu o suficiente para saber disso, mas meu primo de mesmo nome, filho do tio Márcio (!), nasceu pouco mais de 21 anos depois do causo do interfone. É claro que ele é uma pessoa completamente diferente do Henrique que eu teria sido, mas ainda assim acho isso legal e acredito completamente na teoria de que é por isso que ele parecia um pouquinho comigo em uma ou outra foto quando era neném. Outra dessas coisas da vida…

pedacosdeumavida

Esse é o 1º texto do projeto 52 perguntas em 52 semanas, traduzido para o português pela Bia Carunchio, que tem como objetivo “ajudar no processo de escrita da sua história de vida”. A pergunta da vez é “Qual o seu nome completo? Explique porque seus pais te deram esse nome.” e foi isso que ela me inspirou a produzir!

O título desse post é um trecho da música “Cantiga Por Luciana”, da cantora carioca Evinha, vencedora do IV Festival Internacional da Canção nas categorias Nacional e Internacional em 1969.

Exposição (des) necessária para um momento de reflexão

Em 30.11.2016   Arquivado em Feminismo

Abra suas mãos agora e olhe para os seus dedinhos por um segundo. Se eu fizer o mesmo daqui de casa, agora aos meus 26 anos, consigo contar cada garoto que já beijei na minha vida sem nem preencher todos eles. Já rolaram várias brincadeiras entre meus amigos por eu ser seletiva e “difícil”, mas no fundo todo mundo sabe o motivo: eu só me envolvo com um cara se e quando REALMENTE quero, simplesmente nunca consegui (pelo menos até hoje) “ficar por ficar” com ninguém, em todos os casos teve o mínimo de sentimento e o máximo de vontade envolvida. Nem preciso dizer então que para eu dormir com alguém a “seleção” foi ainda mais “rígida”, só aconteceu quando eu soube que nunca ia me arrepender daquilo e que estava com a pessoa mais legal do planeta… Mas isso não vem ao caso porque sequer é o tema desse “textão” da vez, nosso momento de reflexão tá só começando.

Eu não bebo bebidas alcoólicas porque não gosto, as raras vezes que fiz isso foi para saber que gosto tinha (achei tudo ruim!) e para brindar a formatura de alguém, um golinho e já passei o copo adiante. Não fumo e não uso outros tipos de droga, nem experimentei. NUNCA cedi à pressão social de amigos ou colegas para fazer qualquer coisa, nem quando era adolescente, nem quando estava desesperada pra ter os amigos que eu não tinha, nem quando riam de mim porque eu era muito careta (ou qualquer expressão que usaram, porque só gente careta como eu usa a expressão “careta”). Festinhas e baladas? Dá pra contar nos dedos também, sem precisar apelar pros dedos dos pés. Em resumo, eu pareço ser o que os padrões esdrúxulos da nossa sociedade adora enquadrar no perfil de “boa moça”, não escondo e muito menos me orgulho disso. Antes que vocês pensem que tô contando isso tudo porque discordo de quem leva a vida diferente de mim já aviso que muito pelo contrário! Na minha opinião as pessoas devem fazer o que elas quiserem, na hora que quiserem e com quem quiserem, a menos, é claro, que não seja consensual ou que magoe terceiros. Pra mim eu não sou melhor e nem pior do que a menina do “eu escolhi esperar” e nem da que pega mais de uma pessoa por vez e de uma vez, não sou melhor e nem pior do que quem passa o fim de semana na igreja ou no bar. Nós somos todas iguais, no fim das contas, e merecemos igual respeito. Com o tempo eu parei de me arrepender das coisas que não fiz e menos ainda das que fiz, todos têm o direito de se sentir assim também. (Apesar de que arrependimento a gente não controla, às vezes rola, fazer o que?)

Escrevi toda essa exposição desnecessária sobre mim para provar que é possível ser a pessoa que eu sou por completo, para já desestruturar qualquer argumento ofensivo contra a minha pessoa, argumento esse que sequer deveria existir mesmo se eu fosse o oposto do que sou. Pra mostrar que sou feminista mesmo que não me enquadre nos perfis “dá pra qualquer um” e/ou “sofre com falta de rola” (aliás, machistinhas, me expliquem como é possível ser os dois ao mesmo tempo porque ainda não entendi). E acompanhando cada vez mais as pautas do movimento eu dou de cara com uma das mais “polêmicas”: a legalização do aborto. Por muito tempo eu fui contra, mas graças às maravilhas que a reflexão trazem na nossa vida hoje sou a favor. Desde novinha eu tenho muita vontade de ser mãe, apesar de que hoje em dia sei que isso só vai acontecer se eu tiver condições, financeiras mesmo, de fazer isso exatamente como eu quero fazer, então não sei se vai rolar. Por outro lado eu jamais abortaria uma criança se engravidasse em situações normais, mesmo que em um momento indesejado. NUNCA tive qualquer relação sexual sem estar tomando pílula e usando camisinha ao mesmo tempo, mas sei que isso não tornaria uma gravidez algo 100% impossível. Sei que se tivesse algo de errado com a pizza que comi em um certo dia eu poderia ter passado mal e, pronto, o remédio já podia nem estar mais no meu organismo, sei que o látex milagroso quase imperceptível do que preservativos são feitos não tem titânio em sua essência, não é completamente incorruptível. Sei que estou correndo um risco e que todos nós estamos, mesmo que a maioria de nós não conte com isso. Sei também que não faz sentido nenhum obrigar a sociedade a viver um voto de castidade geral a menos que seja para reprodução porque, como eu disse acima, a gente tem que fazer o que quer mesmo dessa vida, estar feliz sempre vale a pena. E eu sei que se alguma coisa der errado no meio do caminho terei que encarar as consequências.

Acima de tudo, porém, eu sei que nenhuma pessoa no mundo é igual a mim ou tem a vida exatamente igual à minha. Nem todo mundo tem os mesmos desejos e vontades que eu, as mesmas limitações e liberdades, as mesmas condições e o mesmo pensamento. Sei que ninguém acorda falando “Ai, que dia lindo, acho que vou ali dar uma engravidada pra fazer uma abortinho depois!”, mas que muita gente não tem outro pensamento que não “Puta que pariu, não posso MESMO ter um filho, e agora?”. E o “não posso” depende da pessoa, viu? Pode ser um poder financeiro, físico, mental, estrutural, sentimental, tantos tipos de não poder que nem sequer consigo citar todos. E quem sou eu para julgar isso? E quem é você para julgar isso? E quem somos nós para definir o que essa pessoa pode ou não fazer, no fim das contas? Para definir se ela está sendo egoísta? Para definir que ela deve ir contra o que os outros acreditam, e não ela mesma? O que nós sabemos da vida de cada um para definir o que é certo ou não para aquela pessoa?

Por outro lado existem várias coisas que nós sabemos! Sabemos que um terço dos brasileiros culpam a vítima por estupros sofridos, o que mata o argumento de que “aborto é permitido em caso de estupro”, já que muitos sequer acreditam que a mulher tá falando a verdade quando faz a denúncia (isso quando consegue ter coragem denunciar, porque encarar toda a sociedade depois não é fácil, não). Sabemos que as pessoas inclusive continuam achando que saias curtas, bebidas, estar solteira, andar na rua sozinha e ser “fácil” são possíveis causas do estupro, quando na verdade a ÚNICA E EXCLUSIVA CAUSA são os estupradores. Sabemos que, apesar de serem muito eficientes e do fato de que devemos SEMPRE usá-los, não existe método anticoncepcional 100% seguro. Sabemos que sendo legalizado ou não as pessoas abortam de qualquer forma, mas como a maioria não tem condições financeiras para fazer isso acontece um milhão de práticas irregulares por ano, deixando essas mulheres à mercê da morte e da justiça (inclusive: leiam esse artigo, por favor). E O MAIS IMPORTANTE DE TUDO: sabemos que a legalização não torna a prática uma obrigação, muito pelo contrário… Ela gera não só segurança, mas também reflexão e pode acabar aumentando a taxa de desistência a partir disso! Sabemos também que estar segura, protegida e livre de olhares tortos muitas vezes é só o que uma pessoa precisa num momento tão difícil, e eu não tenho como provar essa última, mas por experiência própria sei que se colocar no lugar do outro, ter empatia pelo próximo, pode aumentar horizontes e diminuir julgamentos. Eu não me enquadro no perfil que as pessoas imbecis tanto acham que os defensores da legalização têm e cá estou, mesmo porque felizmente o mundo não gira em torno de mim. E você, já tentou abrir sua mente e refletir sobre isso hoje?

empatia_ajuda
Foto do Sacred Feminism

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