A paixão de junho

Em 12.06.2017   Arquivado em Escrevendo

A Paixão de Junho

Esse pode ser considerado o “mês dos namorados”, mas eu vou chamar de “mês dos apaixonados”, porque todas as vezes que me apaixonei na vida foi em junho. Ou, pelo menos, as vezes em que caí na real em relação a isso, já que esse tipo de sentimento não é da noite pro dia, é construído de passinho em passinho… A história começou bem no meio mesmo, pertinho do dia doze. Não acho que exista amizade preto-e-branco, qualquer relação tem várias tonalidades em seu redor, mas foi ali que se iniciou o processo de viver uma amizade colorida pra valer. Subindo a ladeira, descobrindo que “quem canta seus males espantas”. Uma jaqueta quentinha compartilhada e antes que eu percebesse estava sujeita a sentir, ainda pré-adolescente, o que praticamente todo mundo já sentiu na vida: fogo que arde sem se ver, ferida que dói e não se sente, contentamento descontente. O não querer mais que bem querer e o melhor é que não era solitário andar por entre a gente¹.

Um longo tempo se passou e não havia dúvidas de que eu tinha encontrado o “amor da minha vida”. E acho que tinha mesmo, só não da vida inteira! Não precisa ser imortal posto que é chama, mas sim infinito enquanto dura², é o que realmente importa. Veio, ficou, passou e antes que eu estivesse pronta para novas chances uma nova porta se abriu no final daquele mesmo mês que foi marcado por isso já tantos anos atrás. E quando digo que a porta abriu não é uma metáfora bonita pra uma nova oportunidade, não, foi um “Toc-toc-toc” mesmo, e quando virei a maçaneta deixei a mão cair porque não esperava alguém aparecendo assim, aleatoriamente num dia comum e gostosinho de trabalho. Literalmente à primeira vista, porém foi nela mesmo que ficou. Aquele dia ficaria marcado como o dia em que a pior melhor coisa da minha vida aconteceu, sem dúvidas, mas com o tempo até essas pequenas certezas se tornam mentiras.

Porque o junho seguinte tornou essa dorzinha exagerada em irrelevante. Não me fez esperar muitos dias e me trouxe o coração batendo acelerado logo de cara! Aliás, não só isso, né? Teve borboleta no estômago, cabeça no ombro, tensão no ar, mãos encostando e um cheiro tão característico que dá pra lembrar exatamente qual mesmo com o passar do tempo. Teve expectativa sem decepção, muito pelo contrário, foi melhor ainda que o esperado… De um jeito que dava vontade de escrever pro mundo saber que isso existe, mas ao mesmo tempo sem essa necessidade porque tem coisas que a gente prefere guardar a dois. Elevou toda essa historia de coincidências a um novo nível, transformou a vontade em realidade.

Inclusive, saudades…

¹ “Amor é um Fogo que Arde sem se Ver”, Luís Vaz de Camões. Lisboa, 1524-1580.
² “Soneto de Fidelidade”, Vinícius de Moraes. Rio de Janeiro, 1913-1980.

A Ansiedade Queima

Em 10.06.2017   Arquivado em Escrevendo

A Ansiedade Queima

Desde muito pequena meu maior medo de todos é o fogo, e o fato de ser ansiosa tornou minha relação com ele difícil pra valer. Teve uma vez que minha tia tava queimando não-sei-o-que na entrada da casa da minha avó e eu dei meia volta para sair pela outra porta que ninguém usava, só pra não passar por ali. Antes disso rolou também uma reunião num Centro Espírita que fui com minha mãe e o moço que “liderava” esse grupo (não entendo tanto desse assunto para saber nomes, me desculpem) disse que a gente ia liberar ali nossos maiores medos… Eu nem sabia direito o que estava acontecendo, nem prestei atenção, mas comecei a reclamar que tinha alguma coisa queimando quase instantaneamente, mesmo que não tivesse.

Rolou também uma vez que fui acender o pisca-pisca da árvore de natal da minha casa, ele explodiu na minha mão e fiquei sem ter coragem de ligar tomadas por anos. Demora em adquirir habilidade para acender isqueiros e fósforos, pavor da hora do “parabéns pra você”, por aí vai… São várias histórias envolvendo essa mesma coisa, então quando falam sobre relacionar sensações com cheiros, eu relaciono a ansiedade com cheiro de queimado. Ela também é um medo constante que enfrento nessa vida, tão forte quanto assistir qualquer coisa em combustão, porque a ansiedade queima.

É meio louco que algo que faz parte de mim e não posso controlar seja associado ao “aroma” que mais me causa temor, mas é verdade.

A sensação que tenho quando a coisa “ataca” é que nem a de uma chama mesmo, mas não a chama confortável que fica nas lareiras e fogueiras que usamos pra nos manter aquecidos no frio, ou a que fica protegida pelas grades do fogão e logo vai trazer algo com pra comer. Não, não se parece nada com isso! É como se você entrasse direto num incêndio sem perceber, sem que alguém tenha te alertado do que tinha ali e, de repente, não conseguisse sair. Sua pele e/ou entranhas gritam com a ardência que você não pode combater, falta ar para conseguir proferir gritos de socorro pedindo ajuda, vai te consumindo até que você vire um mero montinho de cinzas que qualquer ventinho pode desmembrar e levar pra longe. Dói. Incomoda. Flameja. Às vezes destrói.

A sorte é que, vez ou outra, aparecem “pessoas porta fogo” com o extintor certo que a gente precisa pra colocar em ordem esse abrasamento descontrolado!

Esse post foi inspirado nas propostas #9 e #33 do Creative Writing Prompts, que oferece mais de trezentas ideias legais para desenvolver sua escrita criativa. É o 14º entre os 25 que me propus a escrever até outubro de 2018.

Crise dos “vinte e poucos” (e por que ela nem devia existir)

Em 04.06.2017   Arquivado em Escrevendo

Crise dos vinte e poucos

Em 2017 minha turma de terceiro ano do Ensino Médio completa uma década desde a formatura, e eu passei esse tempo todo planejando aqui na minha cabecinha um super reencontro da galera em dezembro em alguns dos lugares que comemoramos esse marco na época, todo mundo contando como tá a vida aos “vinte e poucos anos”, rindo daquelas mesmas piadas e se surpreendendo como tudo e nada mudou ao mesmo tempo… Eis que alguns meses atrás, fuçando o Instagram afora, vi uma das meninas celebrando que seu casamento estava chegando já com um bebê a caminho. Minha primeira reação? Sorrir, claro, ela tava linda e sorridente! A segunda? Me preocupar fortemente com isso. Das cinco garotas da sala de onze alunos o saldo era 01) casada, 02) mãe, 03) noiva, 04) noiva E grávida e… 05) eu!

Sim, eu! Sem nenhuma perspectiva de ter a vida encaminhada desse jeito, sem sucesso profissional ou sequer estar fixa num emprego. Sem nenhum feito legal digno de ser anunciado assim, formada num curso que eu amei mas que não trouxe grandes frutos pra mim… Eu que escrevo coisas na esperança de alguém ler mas sem ter essa certeza, cheia de paranoias e problemas na cabeça, que não sabe se vai conseguir pagar tudo o que precisa quando o mês virar e que mora com a mãe por tempo indeterminado porque, infelizmente, é só assim que dá pra ficar. Eu mesma, com vinte e tantos anos nas costas (os “poucos” já viraram “tantos”!) tão diferente do que tinha imaginado que seria quando esse momento chegasse. E essa constatação, somada ao transtorno de ansiedade nosso de cada dia, de repente virou mais uma grande crise na minha mente já preocupada.

Quem tava comigo na hora era um casal de amigos daqueles que eu ajudo a enfrentar várias barras com um ombro pra chorar e alguns conselhos ignoráveis, e que fazem o mesmo por mim mesmo se eu não fizesse por eles. Essa então foi a pauta do dia: como eu não precisava pirar por nada daquilo, porque cada um vive a vida do seu jeito, no seu momento e não tem nada de fracasso em ser de forma diferente um do outro. Lá no fundo da minha loucurinha eu já sabia disso, mas tem vezes que a gente precisa ouvir de outra pessoa pra acreditar, e como nem assim eu conseguia absorver eles soltaram a seguinte pergunta:

“Luly, você queria estar casada, queria já ter filhos?”

Ao que respondi, soltando um suspirinho e com toda sinceridade do meu coração, com um sonoro “Não!”, porque pra mim existem milhares de coisas “na lista” que precisam vir antes, porque sequer acho que eu devia fazer essas coisas tão cedo e porque eu realmente acho que na MINHA vida ainda TÁ CEDO pra tudo isso. E aí isso resolveu a questão, ou pelo menos deveria, se não fossem as pressões da sociedade que, às vezes, nos tornam desesperados para conseguir o que a gente sequer deseja.

Se parar pra pensar, aos vinte e poucos anos você viveu, sei lá, pouco mais de um quarto da sua vida!

Muita água já passou por essa ponte, sim… Mas tem tantas outras ainda por vir que não dá pra ficar surtando com isso. Nesse processo muitas vezes seus maiores feitos não aparecem em fotos nas redes sociais ou conversas de telefone, ou até aparecem e são ofuscados pelos feitos dos outros, e isso não quer dizer que eles não estão ali, fazendo diferença. Às vezes ninguém fica sabendo daquela pessoa que você ajudou, daquela conta monstruosa que você pagou, daquela coisa que você lutou tanto pra comprar e conseguiu… É, nem todo mundo sabe do dia que você brilhou no trabalho, da manhã que você conseguiu sair de casa mesmo que tenha acordado com o pé esquerdo, de qualquer porcaria com defeito que você consertou mesmo sem entender do assunto.

Meus colegas de escola não sabem do concurso público que eu passei, dos eventos que ajudei a organizar, do livro que escrevi, das mensalidades da faculdade da minha irmã que paguei. Eles não sabem das coisas que eu aprendi a fazer sozinha, das lágrimas que derramei quando machucaram alguém importante pra mim, ou dos beijos incríveis que rolaram na minha vida umas semanas aí atrás… E sabe do que mais? Eu sei que os sorrisos das fotos são sinceros que eles devem se orgulhar de tudo isso que estão mostrando viver, mas sabe-se lá quantas coisas estão por trás disso tudo das quais também se orgulham. Como saber que eles também não tiveram suas crises pessoais e tudo ficou parecendo ruim, como rolou comigo nesse dia?

A gente nunca vai saber tudo sobre todos… E nem sobre a gente mesmo, se bobear!

Não é todo mundo começa a contribuir para o INSS com apenas duas décadas de vida nas costas ou tem o emprego ideal ao completar seu 1/4 de século. Nem sempre dá pra comprar uma casa dos sonhos aos 30, ter gêmeos na escola aos 35 ou pode pagar uma viagem pra toda família ir pra Disney junta aos 40. Algumas pessoas conseguem isso, sim, e isso não necessariamente é fracasso ou sucesso, é a vida, e na vida tudo é sempre muito relativo e o melhor: pode mudar a qualquer momento! Pode ser até pra pior, mas por pode ser também pra melhor e é nisso que temos que apostar para fazer acontecer. Não precisa ter crise dos vinte e poucos, nem dos 30, 50 ou mesmo 80 porque “Fulano” está assim ou porque “Deltrano” esperava de você assado. As coisas serão do seu jeito na hora que tiver de ser, e pra quem vive resta duas alternativas que podem caminhar juntas sempre: aceitar o que faz bem e correr atrás de mudar o que for preciso pra ficar melhor!

E se não der certo a gente chora um no ombro do outro, toma umas juntos, come uma caixa de chocolate que não devia ter comprado, vê um filme ruim na Netflix, procura uma terapia e curte a merda até que ela acabe… Pode ser que assim seja, também…

No meio do caminho tinha uma árvore…

Em 30.05.2017   Arquivado em Escrevendo

No Meio do Caminho Tinha Uma Árvore...

Minhas sessões de terapia acontecem uma vez por semana, toda sexta feira, desde março. Eu devia ter corrido atrás disso faz tempo? Já! Mas fugi uma época, arrisquei fazer de mal jeito em outra, até que tudo explodiu e precisei começar pra valer. E aí que pra chegar até lá tenho que percorrer um caminho que apesar de breve, é um pouco cansativo, e não me refiro ao caminho psicológico de melhorar minha ansiedade porque esse é longo, mas o caminho físico mesmo, os sete quarteirões que eu ando daqui até lá, subindo um belo de um morrinho e sempre tendo uma pausa bem no meio dele.

Porque no meio do caminho tem uma árvore!

Não é uma árvore suntuosa mais alta que os prédios, nem frutífera que me faz “roubar” coisas gostosas quando está carregada, ou sequer um Ipê rosa ou amarelo que sempre paro pra admirar. Não, é só uma árvore. Pra falar verdade eu nem sei como ela é porque nunca parei pra olhar de verdade, meu foco é sempre nas raízes que já cresceram a nível de destruir a calçada. Não uma destruição em massa nem nada, é aquela elevação típica cheia de pedrinhas que sempre vemos, mas por algum motivo eu me desequilibro nela todas as vezes que subo a rua.

Todas – as – vezes!

Isso antes mesmo da terapia em si… Durante seis anos morei perto de onde hoje são minhas consultas, enquanto minha querida vovó morava ao lado da minha casa atual, e se eu voltava da casa dela à pé era certeza que ia rolar uma deslizada ali. É aquela coisa meio “bêbado andando”, piso na região da árvore e pronto, rola pés fora do lugar e braços sacudindo pra tentar fazer tudo voltar no eixos, estando sozinha ou acompanhada. Quando vou descer nada acontece, fica tudo de boa, mas na ida é tiro e queda (ou, no caso, quase uma queda), aquele lugarzinho acaba me fazendo olhar pros lados pra ver se alguém presenciou essa breve pisada em falso, aí quando volto e passo pela árvore de novo só consigo pensar “Ahá, dessa vez você não me pega!” e ela não pega mesmo. Não sei quando foi que eu reparei isso. Não sei quando foi que decidi escrever sobre o fato de ter reparado isso. Não sei quando foi que apelei de vez e resolvi tirar uma foto desse exato momento para me incentivar a escrever sobre o fato de eu ter reparado isso. Só sei que aconteceu, e aí eu passei a prestar mais atenção me desafiando a não dar mais uma “trupicada”, o que nem sempre consigo. Tudo podia ser evitado pegando um ônibus, como minha mãe já disse que eu devia fazer várias vezes (e acha que eu faço, vejam bem), mas me foi recomendado ir andando então eu vou. Mesmo porque é até mais rápido! Aí o resultado é esse aí, lidar com a muito desnecessária mini vergonha temporária e eventuais sapatilhas que saem do pé. Se parar pra pensar é até bom porque posso usar de desculpa, sabe, se ouvir algum dia um “Ei, você atrasou, o que aconteceu?” é só fazer um ar poético e dizer, meio que de brincadeira e meio que de verdade:

“Tinha uma árvore no meio do caminho!”

Esse post foi MAIS OU MENOS inspirado na proposta #40 do Creative Writing Prompts, que oferece mais de trezentas ideias legais para desenvolver sua escrita criativa. É o 13º entre os 25 que me propus a escrever até outubro de 2018.

Arco-irisar

Em 15.05.2017   Arquivado em Escrevendo

Arco-irisar

A circulação sanguínea acelerada causada por batimentos cardíacos frenéticos deixa as bochechas vermelhas de excitação, quentes, proeminentes. Pode ser maravilhoso, pode ser desesperador, pode e é os dois ao mesmo tempo sabe-se lá como. Aí dizem que laranja abre o apetite, então será que foi o alaranjado do Sol ao fundo que trouxe essa fome de falar e ouvir, contar e descobrir a existência já conhecida? Seja qual for o motivo foi forte o suficiente para fazer amarelar diversas vezes, estagnada nessa sufocante euforia de saber exatamente com agir e ainda assim recear todas as possibilidades impossíveis que os universos inexistentes nunca trariam. O reflexo mostrava o rosto esverdeado no que só poderia ser o enjoo ansioso sabotando a expectativa, mas após o respira-e-inspira se transforma em “verdesperança” e súbito de coragem. Age! Um ícone subitamente fica azulzinho com a evidência de que não havia o que temer, o sorriso enorme como o céu anil se abre, faz com que as emoções ultrapassem o ultra sônico… Em excitação me ilumino, viro ultravioleta!

Ainda que o chover prepondere,
Seus raios são influência certa
E me levam a arco-irisar…

Esse post foi mais ou menos inspirado na proposta #20 do Creative Writing Prompts, que oferece mais de trezentas ideias legais para desenvolver sua escrita criativa. É o 12º entre os 25 que me propus a escrever até outubro de 2018.

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