Dois Papas

Em 06.02.2020   Arquivado em Filmes

Dois Papas (The Two Popes) *****
Dois Papas Elenco: Jonathan Pryce, Anthony Hopkins, Cristina Banegas, Juan Minujín, Luis Gnecco, Renato Scarpa, Dilma Rousseff, Papa Francisco, Bento XVI
Direção: Fernando Meirelles
Gênero: Drama
Duração: 125 min
Ano: 2019
Classificação: 14 anos
Sinopse: “Filme centrado na relação entre o Papa Bento XVI e o Papa Francisco. Produção da Netflix com direção do brasileiro Fernando Meirelles (Cidade de Deus). O filme explora o relacionamento e as visões opostas entre dois dos líderes mais poderosos da Igreja Católica, que devem abordar seus próprios passados e as demandas do mundo moderno para guiar a igreja para a frente.” Fonte: Filmow.

Comentários: Dois Papas, filme da Netflix dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles, concorre a três estatuetas no Oscar 2020, que acontecerá nesse domingo (09): Melhor Roteiro Adaptado (Anthony McCarten), Melhor Ator (Jonathan Pryce) e Melhor Ator Coadjuvante (Anthony Hopkins). Nele vemos uma história de ficção baseada em fatos reais onde McCarten sugere como seriam os acontecimentos entre 2005 e 2013 no Vaticano, da nomeação à renúncia de Bento XVI, se ele e o Papa Francisco tivessem estabelecido uma relação de amizade nesse meio tempo. Com fotografia belíssima, diálogos extremamente bem trabalhados e uma dose de humor em meio a muito drama, suas duas horas de duração fluem de maneira muito tranquila mesmo para aqueles que não estão tão inseridos na temática principal.

Digo isso na pele de uma pessoa que não segue qualquer religião, mas foi criada por duas famílias católicas, então frequentei a igreja por um tempo, não por me identificar mas também sem ser forçada, e acompanhei de certa forma alguns episódios retratos nele. Quando Bento XVI assumiu o título eu estudava em um colégio católico onde cheguei a ser crismada meses depois, e sua decisão de sair do cargo veio logo após ser escolhida como madrinha da minha irmã no mesmo sacramento. Essa conexão com o momento torna a narrativa mais interessante, traz as lembranças de “O que eu estava fazendo nesse dia?” quando algumas cenas apareciam na tela.

Dois Papas

Imagem via Veja, artigo onde pode-se ter ideia do que é verdade e o que não é no longa!

No que diz respeito à parte técnica, o filme é IMPECÁVEL, com total destaque para as duas atuações protagonistas inquestionavelmente maravilhosas. Maior parte do roteiro gira em torno de conversas não verídicas entre eles, que tornam aquelas figuras quase mitológicas no nosso cotidiano no que eles são realmente: seres humanos. Pessoalmente sempre tive antipatia por Bento XVI, assim como tenho por qualquer órgão ou personalidade que representa e age através do conservadorismo, e no que diz respeito a Francisco sinto o contrário, acho importantíssimo que entidades tão antigas e arcaicas sejam guiadas por uma mente progressista. Ver erros e acertos vindos de ambos os lados ajudou muito a enxergar duas pessoas, não meras autoridades.

A obra também faz uso de cenas históricas, atuadas e documentais, que mostram muito além do breve intervalo de tempo onde é focada, pontuando o regime militar ocorrido na Argentina entre as década de 60 e 70, incluindo vídeos reais das Mães da Plaza de Mayo, e a existência do muro de Berlim na Alemanha, nações dos dois Pontífices retratados. São tomadas bastante sentimentais e até questionadoras sobre a Igreja em si. Uma vez que o final do mandato de Bento XVI foi rodeado de escândalos onde foram revelados vários podres da mesma, isso fica inevitável, mas ele não chega a de fato invalidá-la como organização, de fato. Ao fim, durante os créditos finais, alguns minutos de descontração em meio ao emotivo onde eles assistem à final da Copa do Mundo de 2014 em que seus países se enfrentaram, e por mais que também não tenha acontecido de verdade é bem divertido de se ver, principalmente sabendo que Francisco é, de fato, apaixonado por futebol.

Leia também: Democracia em Vertigem, resenha do filme brasileiro que concorre ao prêmio de Melhor Documentário no Oscar 2020.

E claro que não podemos deixar de falar da trilha sonora, um dos pontos altos da história. Durante o enredo temos referências populares que ajudam o expectador a se identificar, começando por “Dancing Queen”, do ABBA (minha música favorita!) e terminando com “Blackbird”, dos Beatles… Ver duas bandas tão queridinhas ali foi algo que eu não esperava e ajudou na identificação mais um pouquinho. Também gostei de encontrar o momento onde eu de fato tinha algo em comum com duas pessoas com uma vida tão diferente da minha, ao ver Bento XVI aficionado por refrigerante e Papa Francisco jovem lendo “A Pedagogia do Oprimido” de Paulo Freire que é, hoje, a bibliografia base da minha monografia de pós-graduação que está em processo. Meirelles é diretor do filme nacional que mais gosto, “Cidade de Deus”, e fez jus à expectativa dessa vez também.

Trailer:

Democracia em Vertigem

Em 03.02.2020   Arquivado em Filmes

Democracia em Vertigem *****
Democracia em Vertigem Direção: Petra Costa
Gênero: Documentário
Duração: 113 min
Ano: 2019
Classificação: 12 anos
Sinopse: “Uma narrativa cautelosa em tempos de crise da democracia – o estopim pessoal e político para explorar um dos mais dramáticos períodos da história do Brasil. Combinando acesso exclusivo a líderes do passado e do presente (incluindo os ex-presidentes Dilma Rousseff e Luiz Inácio Lula da Silva) a relatos da biografia complexa de sua própria família, a diretora Petra Costa (Elena) testemunha a ascensão e a queda de políticos e o que restou do país, tragicamente polarizado.” Fonte: Filmow.

Comentários: Talvez essa seja a resenha mais ousada que já fiz nesse blog até hoje, o que de certa forma a torna também uma das mais importantes. Ela começou a ser escrita em junho de 2019, quando o documentário foi lançado na Netflix, confesso que precisei desse tempo todo pra dar a cara a tapa… Mas dei, isso é maior que o tempo. Não importa a opinião que eu publicar aqui e agora, já sei, é uma opinião impopular. E como tudo o que contém nesse blog, é pessoal, sincera e ACIMA DE TUDO com posição. Seja o que for que aconteça vai acontecer com meu pleno conhecimento de que JAMAIS fiquei em cima do muro.

“Somos uma república de famílias. Umas controlam a mídia, outras os bancos, elas possuem a areia, o cimento, a pedra e o ferro. De vez em quando, acontece de elas se cansarem da democracia, do Estado de direito. Como lidar com a vertigem de ser lançado em um futuro que parece tão sombrio como nosso passado mais obscuro? O que fazer quando a máscara da civilidade cai e o que se revela é uma imagem ainda mais assustadora de nós mesmos?” – Petra Costa

Democracia em Vertigem é um dos filmes indicados à categoria de Melhor Documentário de Longa Metragem no Oscar 2020, a maior premiação sobre cinema internacional do ano. Dirigido e narrado pela cineasta mineira Petra Costa, que através de sua visão intimista narra diversos acontecimentos na política nacional desde o primeiro mandato do presidente Lula, eleito em 2002, até o impeachment da Dilma oficializado em 2016, ressaltando causas e resultados desse marco da atual crise político-econômica (e, adiciono, SOCIAL) instalada ainda hoje no Brasil. Ela usa cenas da própria vida, com seus relatos e de sua família, recortes gravados direto com os envolvidos na história e, claro, gravações divulgadas e vazadas pela mídia de um modo geral.

Democracia em Vertigem

“(…) a democracia tem assento, junto comigo, no banco dos réus.” – Dilma Rousseff | Imagem via Aventuras na História

Apesar das opiniões polarizadas, resultado do cenário brasileiro que também tem essa característica no momento, uma coisa é incontestável no que diz respeito ao documentário: ele é 100% HONESTO. Petra não se propõe, em momento algum, a fazer uma narração neutra ou isenta desses acontecimentos tão contemporâneos da nossa república. Ela deixa bem claro, desde início, quem é, de onde veio, para onde foi seu voto e até mesmo o envolvimento de familiares no contexto. Diferente da tão comentada série “O Mecanismo”, lançada também pela Netflix como um ensaio sobre a Operação Lava Jato, as personagens não são fictícias representando pessoas reais: ela dá nome e rosto a cada um, expondo quem disse o que sem precisar mudar autoria das falas ou fatos. Relata sua história e a do seu país, se mantendo à esquerda, sim, mas sem esconder isso em nenhum minuto.

E nem deveria. A definição de documentário não exige que o trabalho seja imparcial (juízes, por outro lado, devem ser sim!) e eu, como expectadora, também não preciso ao afirmar que mais do que qualquer obra de ficção, esse filme me trouxe choro e angústia por lembrar cada acontecimento dos fatos mais tristes que vivi como cidadã brasileira desde que nasci (em 1990, para contextualiza-los). Lágrimas, porém, nem um pouco inéditas e sim repetição das que já haviam caído enquanto as coisas aconteciam, desde a primeira eleição da qual participei na vida e elegi nossa primeira mulher presidente até o fim, passando pelo golpe constitucional por ela sofrido chegando no agora, sua tão triste consequência que vem desmontando o Brasil no último ano. Lágrimas que sabem que enquanto de um lado a idolatria é movida pelo ódio e pela destruição, do outro ela é impulsionada pelo saber da diferença que foi feita na vida das pessoas que pensavam que essa diferença nunca ia chegar, mesmo que na época que estava acontecendo eu fosse nova (ou mesmo privilegiada) demais para entender a magnitude.

“Apesar das diferenças, sofro de novo com o sentimento de injustiça e o receio de que, mais uma vez, a democracia seja condenada junto comigo. E não tenho dúvida que, também desta vez, todos nós seremos julgados pela história.” – Dilma Rousseff

Democracia em Vertigem não é uma aventura ou fantasia, não apresenta mocinhos ou vilões. É feita de posicionamento. De fatos, sinceridade e dura realidade. Não tira a culpa no momento em que o partido é culpado, mas JAMAIS age com a desonestidade intelectual de afirmar que ele retém toda a culpa do mundo. Mostra, de perto e de frente, não só uma família de esquerda aos olhos de sua filha de microfone na mão, mas também as mais diversas pessoas que ela contactou para terminar seu trabalho, entre elas uma mulher que se recusou a recuar do cargo que era seu de direito por acreditar nele e, por isso, foi retirada. Mas, como dito pela própria, “a história será implacável com os que hoje se julgam vencedores”, e essa indicação para um prêmio tão importante talvez seja um dos passos. Minha torcida, acho que deixei claro, já tem!

Trailer: