Mary Poppins – P. L. Travers (Edição Cosac Naify + Ronaldo Fraga)

Em 08.06.2020   Arquivado em Leitura

Mary Poppins (Edição Especial) *****
Mary Poppins Autora: P.L. Travers | Ilustrações: Ronaldo Fraga | Tradução: Joca Reiners Terron
Gênero: Fantasia
Ano: 1934
Número de páginas: 190p.
Editora: Cosac Naify
ISBN: 978.854.050.529-2
Sinopse: “Uma das histórias mais amadas por crianças e adultos do mundo todo, Mary Poppins ganha uma nova edição, com ilustrações do estilista Ronaldo Fraga, tradução do escritor Joca Reiners Terron e posfácio da professora de literatura inglesa da USP Sandra Vasconcelos. Depois de desenhadas por Fraga, como verdadeiros croquis de moda, os desenhos foram bordados à mão em tecido e fotografados em estúdio. O leitor vai, finalmente, descobrir a história de Mary Poppins, a babá mágica que chega inesperadamente para cuidar das crianças Banks e lhes abre os olhos para os mistérios e as maravilhas que nos cercam, todos os dias.” (fonte)

Comentários: Mais uma babá abandonou a casa da família Banks, deixando as outras empregadas da casa e a mãe das crianças desesperadas sem saber quem cuidaria de Jane, Michael e dos gêmeos, John e Bárbara. O sr. Banks, como de costume, deixou a cargo da esposa resolver isso e rumou em direção ao banco onde trabalha. Foi nesse contexto que o Vento Leste – literalmente – carregou Mary Poppins, uma babá nada convencional (e pra lá de encantada) para a porta do Número Dezessete da rua Cherry Tree Lane. Os dias seguintes dessa família foram, então, marcados pela presença da jovem, com sua personalidade forte e métodos fabulosos de resolver as coisas, deixando as crianças sem entender como tudo seria possível ser real.

Mary Poppins

A australiana P. L. Travers, autora dos seis livros da série Mary Poppins, dizia que não escrevia para crianças (1), mas essas obras que giram em torno de sua personagem mais famosa ficou marcada como um dos clássicos da literatura infantil a ponto de ser transformada em filme musical dos Estúdios Disney em 1964, tendo Julie Andrews no papel da protagonista e Emily Blunt na sequência de 2018. Muitos conhecem a história por causa dessa primeira adaptação, inclusive, e apesar de suas diversas diferenças o primeiro livro tem semelhanças pontuais, sendo também capaz de encantar pessoas de todas as idades.

Muitos podem julgar Mary Poppins pela sua grosseria, afinal na época da publicação era essencial que uma babá fosse dócil e submissa, e ela não é nada disso. Com respostas diretas, habilidades extraordinárias e conclusão para todas as questões, ela ensina sobre seu mundo não só a Jane e Michael, mas também a quem lê o livro. A escrita se refere ao início do século do passado, mas é fácil de ser entendida e flui MUITO BEM, com frases impactantes em diversos pontos. Demorei anos para enfim me render a ela porque tinha medo de quebrar todo o carinho que tenho em relação ao filme, mas a experiência foi tão maravilhosa que minha vontade mesmo é continuar lendo os outros volumes para conhecer mais aventuras mirabolantes assim. [SPOILER] Ver o Vento Oeste levá-la embora foi lindamente melancólico, mesmo já sabendo que isso aconteceria. [/SPOILER]

Mary Poppins

“(…) pode ser que comer e ser comido seja a mesma coisa, afinal. Minha sabedoria me diz que é muito provável que sim. Somos todos feitos da mesma matéria, lembre-se, nós da Selva, vocês da Cidade. A mesma substância nos compõe, a árvore logo acima, a pedra debaixo de nós, a feiura, a beleza. Somos um só, todos rumando para o mesmo final. Lembre-se disso, mesmo quando você não se lembrar mais de mim, minha criança.” (página 152)

Mary Poppins

É impossível ler Mary Poppins na edição especial da extinta Cosac Naify, que encerrou suas atividades em 2015, e focar só na história ao falar dela porque, sinceramente, é uma obra de arte à parte. Eles lançaram duas versões: uma com a capa rosa com pequenas ilustrações de barco de papel, nuvens e estrelas, e outra ainda mais rara conde a estampa rosa estava em uma luva em formato da maleta da Mary e, por dentro, uma capa exclusiva marrom, simulando a roupa dela. A lombada tem costura aparente, também visível por dentro, com o título do livro impresso direto nas páginas entre as linhas. Ele mede aproximadamente 28 x 18cm, tem 190 páginas e mesmo elas são em papel especial, com gramatura 100g/m². Hoje em dia é quase impossível achar exemplares à venda e, quando acha, o preço é exorbitante, mas vale MUITO o que custa, de verdade.

O mais lindo dessa edição, porém, são as ilustrações pelo estilista mineiro multipremiado Ronaldo Fraga. Após fazer as ilustrações, que conseguem ser lúdicas ainda que monocromáticas, elas foram bordadas pela (também) mineira Stella Guimarães e sua equipe, deixando propositalmente fios soltos que compõe o visual das cenas, dando ideia de movimento. Por fim, esses bordados foram digitalizados e adicionados à publicação. O resultado é MUITO único e especial, torna a leitura ainda mais prazerosa em ver a combinação de um cenário britânico com artes brasileiras. O livro conta também com tradução de Joca Reiners Terron e posfácio incrível de Sandra Guardini T. Vasconcelos, que sugere algumas leituras para conhecer mais a fundo sobre P. L. Travers. Im-pe-cá-vel!

Mary Poppins

Leia também: Walt nos Bastidores de Mary Poppins, resenha do filme com Emma Tompson e Tom Hanks baseado na época em que Walt Disney comprou os direitos para produzir o filme de Mary Poppins.

Esse livro foi a minha escolha para o mês de Maio no Desafio Leia Mulheres 2020, onde a proposta é ler uma ficção científica ou fantasia. Leia também a resenha do título de Abril (autora independente), Os Textos Que Desisti de Enviar!

Os Textos Que Desisti de Enviar

Em 24.05.2020   Arquivado em Leitura

Os Textos Que Desisti de Enviar *****
Os Textos Que Desisti de Enviar Autora: Vanessa Pérola
Gênero: Crônica
Ano: 2019
Número de páginas: 100p.
Editora: Publicação Independente (Amazon)
ISBN: B07VCCHKBJ
Sinopse: “No dia dos namorados meu namorado terminou comigo. E depois de tudo o que passamos, eu fiquei devastada. Não deu tempo de entregar as cartas que eu tinha escrito para comemorar quatro anos de namoro. Então resolvi arquivá-las. No lugar delas, comecei a escrever sobre o término e o que ele causou no meu coração. Encontrei o caminho da liberdade.

Este é um livro sobre relacionamentos, sobre como os términos machucam e a ausência sufoca. Mas também é um livro sobre como pensar no aconteceu sem sentir dor, entender que não tem volta e sobre rir novamente. É pra extravasar na felicidade e rabiscar papéis escrevendo aquilo que rasga a pele.Se você está enfrentando um término doloroso, faça desse livro seu amigo. Escreva a partir dessas histórias, as suas histórias. Porque mesmo que não tenha a intenção de expor, vai ter tirado um peso das suas costas, porque escrever é se libertar.

Em ‘Os textos que desisti de enviar’, Vanessa Pérola narra em 32 textos, entre crônicas e desabafos, histórias que relatam a dor da ausência, o poder do autoconhecimento e a beleza do ajustamento das emoções.” (fonte)

Comentários: É muito fácil eu me identificar quando encontro blogueiras nacionais que também autoras independentes porque, afinal de contas, sou uma delas. Por mais que seja alguém diferente no modo de se expressar, crenças e vivência, não tem jeito, nós temos aquele elo em comum que não consigo deixar de considerar. Por isso ler Os textos que desisti de enviar, da baiana Vanessa Pérola, foi uma experiência muito especial! Essa coletânea de contos publicada por ela, também nascida em 1990, está disponível como ebook na Amazon por R$5,99, ou de graça para assinantes Kindle Unlimited, que foi onde o li.

Os Textos Que Desisti de Enviar

Após um término de namoro traumático, bem ali no clima do Dia dos Namorados, Vanessa sentiu que todos os anos que passou com o (agora ex) namorado tinham sido irrelevantes pra ele. Tendo que jogar no esquecimento a carta que queria entrega-lo nessa data comemorativa ela decidiu, então, escrever novos textos narrando seus sentimentos diante dessa nova vida de solteira, que começam na negação até, com o passar do tempo, atingir a aceitação.

As 32 crônicas são divididas em três partes: Noite, Amanhecer e Dia. A primeira é triste, pesada, sobre sentimentos cheios de infelicidade e provavelmente difícil de ser lida por pessoas que passam por algo parecido. Não é fácil ver outra pessoa sofrer, ainda mais sabendo que é uma não-ficção. Mas o maravilhoso da vida é que tudo passa, né, gente? Nas duas partes seguintes vemos sua recuperação gradual até, enfim, dar uma aula de amor próprio como um modo de permitir que todos os outros amores venham. E é aí que você sente alívio enorme, como se fosse uma amiga passando pelo mesmo, aquela que você mal espera pela hora de ver sorrir com os olhos de novo. E ela sorri!

Os Textos Que Desisti de Enviar

O principal “problema” do livro coloco entre aspas porque acho bem justificável por ser uma publicação independente: as falhas de revisão. Nada muito grave, mas aqui e ali achamos uma repetição desnecessária de palavras e esse tipo de coisa que é muito difícil detectar e corrigir quando você já está revisando já completamente afundada na sua própria história e acostumada com ela. Se tivesse uma editora por trás eu reclamaria, mas julgo aceitável em casos assim. Se você não pensa como eu, porém, talvez se incomode em alguns momentos.

Também tenho, e confesso, certa dificuldade de me identificar com discursos muito religiosos com o da Vanessa, mas é mais pela diferença de realidade, mesmo. Hora nenhuma isso se transforma em defeito no texto, principalmente porque o livro é sobre a vida da autora, então precisa tê-la jogada dentro dele, perderia o sentido se ela cortasse a própria essência e religião é um aspecto importante da vida dela. Precisa estar lá e cabe a quem não tem a mesma crença aceitar.

“Porque não existe essa de amar o outro se não há uma gota de amor por nós mesmos. Como podemos doar aquilo que não temos? Esse é o clichê mais real que existe.”

Os Textos Que Desisti de Enviar

Por outro lado AMEI a diagramação, com ilustrações lindas de flores em cada uma das partes, e os trechos de música que precedem cada texto. Sempre serei a favor de sugestão de trilhas sonoras quando se trata de literatura, sendo as músicas sugeridas dentro da minha zona de conforto ou não. Ela tem até uma playlist do livro no Spotify que é ótima de ouvir durante a leitura. Foi mais um momento de identificação, já que eu coloquei um QR Code pra playlist de “Wish You Were Here” antes mesmo da dedicatória…

Leia também: Minha experiência na Amazon KDP, com dicas pra quem também quer publicar seu ebook de forma independente na loja Kindle, desde a edição digitaç até o pedido de cópias físicas do autor!

Vanessa Pérola tem 29 anos, estudou psicologia e mora na Bahia. Para ler outros textos da autora é só acessar o blog Vanessa Pérola, sobre amor, ser mulher e preta, auto ajuda e vários outros temas que dizem respeito à sua experiência pessoal. Vocês podem encontrá-la também no Twitter, Instagram e, nessa mesma rede, num perfil sobre cabelos cacheados que tem quase 60 mil seguidores, o Cacheadas in Love. Esse livro foi a minha escolha para o mês de Abril no Desafio Leia Mulheres 2020, onde a proposta é uma autora independente. Leia também a resenha do título de Março (poesia), A Princesa Salva a Si Mesma Nesse Livro!

A Princesa salva a si mesma neste livro

Em 18.03.2020   Arquivado em Leitura

A Princesa salva a si mesma neste livro As mulheres têm uma espécie de magia # 1 (The Princess saves herself in this one) *****
A Princesa salva a si mesma neste livro Autora: Amanda Lovelace
Gênero: Poesia
Ano: 2017
Número de páginas: 208p.
Editora: LeYa Brasil
ISBN: 978.854.410.659-4
Sinopse: Amor e empoderamento em versos que levam os contos de fada à realidade feminina do século XXI ‘A princesa salva a si mesma neste livro’, de Amanda Lovelace, é comparado ao fenômeno editorial ‘Outros jeitos de usar a boca’, de Rupi Kaur, com o qual compartilha a linguagem direta, em forma de poesia, e a temática contemporânea. É um livro sobre resiliência e, sobretudo, sobre a possibilidade de escrevermos nossos próprios finais felizes. Não à toa ‘A princesa salva a si mesma neste livro’ ganhou o prêmio Goodreads Choice Award, de melhor leitura do ano, escolha do público. Esta é uma obra sobre amor, perda, sofrimento, redenção, empoderamento e inspiração. Dividido em quatro partes (“A princesa”, “A donzela”, “A rainha” e “Você”), o livro combina o imaginário dos contos de fada à realidade feminina do século XXI com delicadeza, emoção e contundência. Amanda, aclamada como uma das principais vozes de sua geração, constrói uma narrativa poética de tons íntimos e cotidianos que acolhe o leitor a cada verso, tornando-o cúmplice e participante do que está sendo dito.” (fonte)

Comentários: Eu não sou a maior fã do mundo de poesias, confesso. Tenho meus sonetos favoritos, todos muito antigos, mas de um modo geral é um estilo que não amo ler, e escrever menos ainda, sou péssima nele! Ainda assim o título de A Princesa salva a si mesma neste livro sempre me deixou tão curiosa que resolvi que ele merecia uma chance. Na verdade, e no fundo, todo mundo merece, não é mesmo? Parecia o tipo de coisa pela qual eu morro de amores com sua proposta de falar sobre ser mulher, sobre empoderar-se, sobre uma princesa contemporânea que é sua própria heroína. Pois bem, li, terminei e ainda não sei muito bem como avalia-lo. Acho que a grande questão de coletâneas é que elas nunca são uma coisa só, né? Então dá pra adorar algumas coisas e até odiar outras. Não cheguei nesse ponto extremo negativo, felizmente, mas em alguns momentos senti que estava só olhando para um monte de palavras jogadas de linha em linha, sabe? Em outros, porém, o impacto veio, menina, bem do jeito que tinha que vir!

A Princesa salva a si mesma neste livro

O livro é dividido em quatro partes que, ao seu modo, narram a vida da autora desde criança até a vida adulta e contemporânea. O início, “A Princesa” foi, pra mim, o mais sofrido de todos, por sentir uma coletividade imensa nas situações tristes que ela relatava. Ali estava sua infância e pré-adolescência, a primeira menstruação que ela não queria ver chegar, relatos de uma vida ao lado da irmã mais velha querida e da mãe, não tão querida assim. Fala de bullying, gordofobia e relacionamento abusivo não-romântico, que pode acontecer (e acontece todos os dias) dentro de casa, de quem você devia te fazer sentir mais segura. Algumas coisas já vivi, outras felizmente não, mas é o resultado das incertezas da imaturidade e de como nelas as coisa têm um peso muito maior.

Logo em seguida começa “A Donzela”, trecho mais pesado com a adolescência e início da vida adulta marcados por romances falhos (os “dragões”) e perdas familiares, uma vez que Amanda a irmã e mãe morrendo em sequência. Foi quando vi um número maior de falas simples, típicas do que vemos em Tumblrs da vida, organizadas de uma forma que soem como versos. Uma coisa MUITO bacana da escrita dela é que o título vem ao final dos textos, não no início, então sua interpretação não é muito direcionada: primeiro vem a leitura, depois o real significado dela. Nem todas as poesias têm isso, mas a maioria sim e é um fator estilístico diferente, bastante positivo.

A Princesa salva a si mesma neste livro

O momento de alento do livro fica na terceira parte, “A Rainha”. Aqui ela enfim parece se aceitar, ver o lado positivo em si mesma e na vida, principalmente no que diz respeito ao amor. Os textos românticos me causaram muita identificação, aquela sensação de “finalmente ela é feliz”, sabe? Foi onde tudo ficou mais poético, também, e talvez menos clichê porque o amor é sempre clichê, então tá permitido. Minha parte favorita, sem sombra de dúvidas, que deixou até um desejo de “quero mais” no ar quando acabou.

“(…)
preciso dos seus
momentos tarde da noite
confortavelmente calmos

preciso
de tudo
isso

– você é um poema de verdade, querido

A Princesa salva a si mesma neste livro

Por fim “Você” não se refere a uma pessoa específica, mas sim à leitora do livro. Ela retoma todas as temáticas anteriores e perdas, danos, dragões e neuras e joga junto com questões sociais, como a cultura do estupro e LGBTQfobia. Deixa de ser princesa indefesa, donzela em sofrimento e até mesmo rainha dona de si, que era seu papel nos outros momentos: sua metamorfose é tal que vira SEREIA ao falar de si mesma. É um momento que mistura auto-ajuda tanto para quem consome quanto para quem produz. Talvez seja exatamente o que alguém precisa ler, talvez seja o que esse alguém já leu mil vezes por aí…

A série “As mulheres têm uma espécie de magia”, da mesma autora, tem outros dois livros de poesia publicados no Brasil pela LeYa: “A Bruxa não vai para a fogueira neste livro” e “A voz da sereia volta neste livro”, disponível como ebook e também livro físico. Para acompanhar mais trabalhos de Amanda Lovelace é só segui-la pelo @ladybookmad no Twitter, Instagram e Tumblr. Esse livro foi a minha escolha para o mês de Março no Desafio Leia Mulheres 2020, onde a proposta é poesia. Leia também a resenha do título de Fevereiro (não-ficção), Memórias da Princesa: Os Diários de Carrie Fisher!

Memórias da Princesa: Os Diários de Carrie Fisher

Em 15.02.2020   Arquivado em Leitura

Memórias da Princesa: Os Diários de Carrie Fisher (The Princess Diarist) *****
Memórias da Princesa: Os Diários de Carrie Fisher Autora: Carrie Fisher
Gênero: Autobiografia
Ano: 2016
Número de páginas: 224p.
Editora: Best Seller
ISBN: 978.854.650.018-5
Sinopse: Um relato íntimo e revelador de Carrie Fisher, a Princesa Leia de Star Wars. Carrie Fisher era uma jovem atriz iniciante quando foi chamada por George Lucas para interpretar o papel que mudaria sua vida: a Princesa Leia, de Star Wars. Inexperiente, Carrie se viu imersa em um ambiente pouco acolhedor, e buscou refúgio em diários que mantinha ao longo das gravações dos filmes. Em “Memórias da princesa: Os diários de Carrie Fisher”, a atriz conta seus melhores e piores momentos ao longo das filmagens de Star Wars e a relação que mantinha com os colegas de trabalho, além de trazer detalhes inéditos sobre sua vida pessoal e sobre como o filme mudou completamente seu modo de viver.” (fonte)

Comentários: Se você nunca ouviu falar dela com certeza, e pelo menos, já ouviu falar de sua personagem. A relação de Carrie Fisher com a icônica Princesa Leia Organa é de muito carinho, apesar dos mais diversos pesares, o que é realmente uma coisa boa uma vez que a partir do momento que foi escalada para o papel uma não existia mais sem a outra. Em “Memórias da Princesa” ela conta sua visão muito pessoal sobre como se tornou Leia e o que veio logo depois, expondo acontecimentos da época da gravação de Star Wars (hoje considerado o Episódio IV – Uma Nova Esperança) através de lembranças resgatadas 40 anos depois de tudo após encontrar os diários que mantinha à época, e essa exposição inclui a transcrição de algumas páginas do próprio, que não a deixam mentir, ainda que ela não tivesse essa intenção./p>

Memórias da Princesa: Os Diários de Carrie Fisher

Carrie não era só atriz e nem só filha de artistas. Era também escritora, e isso é claro na maneira tão bem planejada com a qual escreve esse livro: ela sabe lidar com as palavras! Às vezes tão real que parece estar logo na nossa frente, outras com poéticas metafóricas que te fazem desejar ser sua a autoria da fase lida e relida até ficar tatuada no cérebro para todo o sempre. É gostoso, mas também melancólico, assistir a maneira carinhosa com a qual ela trata seu eu se 19 anos, inocente e insegura, e como tenta fazer o mesmo com a versão contemporânea, que aos seus olhos perdeu tanto se comparado à menina que foi um dia. Dá raiva, não dela é claro, mas da sociedade que faz com que a mulher odeie tanto o ato de envelhecer a ponto de achar que isso a fez perder parte do seu valor.

Em meio a esse antes, durante e depois, lá está ele: o diário em si. Poesias de uma moça abrindo os próprios sentimentos caminham nele lado a lado com a narrativa direta que os nega o tempo todo. É MUITO FÁCIL se identificar com ela, não só quando centra sua vida num romance que ela mesma nem considera assim (já-já falarei disso), mas principalmente no medo de não ser suficiente como pessoa, na crítica ao machismo talvez sem reparar que era isso que estava fazendo, nos pequenos desesperos de alguém muito privilegiada, mas que tinha seus diversos problemas com os quais lidar ainda assim. Uma menina virando mulher, exposta por causa dos pais a vida inteira, renovando um cenário de exposição, naquele momento em sua micro esfera, mas em breve para o mundo todo.

Memórias da Princesa: Os Diários de Carrie Fisher

A maioria das pessoas, ou pelo menos as pessoas com as quais tive a chance de conversar sobre, resumem o livro ao assunto principal abordado nele: o caso que ela manteve com Harrison Ford, que depois se tornou ser par romântico na série, à época casado com sua primeira esposa, nos três meses finais daquelas gravações. A Carrie dos diários se culpa bastante, e tem uma visão de negação e desespero muito forte de quem está vivendo o momento ainda como adolescente, e é muito bom balancear suas angústias apaixonadas com a visão de uma adulta, já idosa na verdade, que olha os acontecidos com distância e maturidade. Fui alertada de que NUNCA MAIS ia conseguir OLHAR pra ele mas, apesar de questionar fortemente muitas de suas atitudes, não o considero um vilão. Mais errado do que eles poderiam julgar quarenta anos atrás, é claro, principalmente no início. O durante em si foi entre os dois, e só eles sabem o quanto fez bem ou mal. Ainda assim, pensando em o quão jovem ela era, dá vontade às vezes que pega-la no colo e fazer carinho, dizendo que tudo ia ficar bem e que ela não precisava se esconder… Dele, dos outros homens que a rodeavam e, acima de todos, dela mesma.

“Tenho certeza, no entanto, de que, se eu tivesse princípios, o que estou fazendo agora violaria quase todos eles”
Memórias da Princesa: Os Diários de Carrie Fisher

Página 107

A sinceridade ácida da autora não esconde riquezas, regalias, facilidades que teve em toda sua vida. Ela não se coloca no papel da “pobre garota rica”, admite isso tudo sem enganar quem está lendo sua própria história. Mas nunca, desde a primeira página, pinta a fama como algo perfeito, a experiência mais incrível que uma pessoa pode ter na sua existência. Porque não é. De fotos odiosas que invadem privacidades a diálogos fofos que, em certos momentos, tendem a se tornar incômodos, ela ama e odeia saber que as pessoas sempre fariam filas para vê-la, não importa o quão exausta estivesse de se submeter a tudo novamente. Em dado momento compara a participação em eventos de fãs, como a Comic Con, com uma “dança erótica”, mas ao invés de colocarem dinheiro em sua calcinha os fãs o trocava por provas de que, por um minuto que fosse, estiveram ao seu lado. Isso lisonjeia, claro, mas também assusta, e só estando na pele de quem vive para saber o quanto.

No centro do livro existem páginas de fotos, em papel específico e a cores, da época da produção do primeiro filme (muitas delas ao lado de Harrison), do merchandising da personagem à época e até uma mais recente, dela ao lado do seu eu de cera no Madame Tussauds. Vê-la vestida de figurinos tão clássicos (principalmente pra mim, que sou fã do universo da galáxia muito, muito distante) e associa-la às palavras escritas enquanto as fotos eram tiradas é uma experiência muito louca, transformadora, fazendo com que o mito intocável da tela pareça de fato um ser humano. “Só Carrie Fisher”, como ela mesma diz nas palavras da página final.

Memórias da Princesa: Os Diários de Carrie Fisher

Duas das páginas de fotos centrais, todas coloridas

Carrie faleceu no dia 27 de dezembro de 2016, aos 60 anos, no intervalo de gravações entre os episódios VIII e IX de Star Wars. Sua mãe, Debbie Reynolds, morreu no dia seguinte, aos 84, mas o legado das duas foi deixado em diversos tipos de arte. Esse livro foi a minha escolha para o mês de Fevereiro no Desafio Leia Mulheres 2020, onde a proposta é uma não-ficção. Leia também a resenha do livro de Janeiro (HQ), Batatinha Fantasma: Amor em Quadrinhos!