Último dia

Em 26.02.2016   Arquivado em Escrevendo

Naquela época, no auge da infância, a gente nunca ia imaginar que eu tinha as cordas vocais ferradas, então minha professora me escolheu como um dos alunos que faria parte do coral comemorativo de 50 anos da escola. Eu sei, hoje em dia é até engraçado imaginar isso, mas foi o que rolou, por mais incrível que possa parecer. Fizemos a primeira apresentação na festa de aniversário e depois, por que não, eles resolveram manter aquele grupo de alunos em outras apresentações, como o Auto de Natal e, nos anos seguintes, festas juninas e qualquer outra ocasião que houvesse para a gente cantar.

Gravamos cds, cantamos em recepções de seminários, festas no shopping e aberturas de agências bancárias e, a cada nova apresentação, eu amava mais e mais fazer parte do coral. Meu amigos foram cansando depois de dois anos, mas eu continuava firme e forte, tendo que ir para a escola em horários fora de aula pros ensaios e levando a família toda pras apresentações. Era engraçado porque à medida que o tempo foi passando eu era uma das mais velhas da turma, mas continuava nas primeiras fileiras porque pequenininha daquela jeito tinha que ficar entre os mais novos e mais baixinhos. Porém, como tudo o que é bom dura pouco, na quarta série a primeira fase do Ensino Fundamental acabou e eu tive que sair da escola, deixando de fazer parte também do coral. Naquele ano eu me preparei pra cada apresentação com mais e mais alegria e no dia da última delas, o Auto de Natal de 2000, TODO MUNDO foi pra escadaria da escola me assistir cantando pela última vez. Eu nunca esqueço que eu e uma amiga (que é filha de uma amiga da minha mãe) nos arrumamos juntas lá em casa e até passamos uma sombra brilhosa nos olhos, que fomos descobrir depois que na verdade era purpurina para usar no papel, e não no rosto. Mas a gente não ligou, não. Coisa de criança né?

Ao final da apresentação eu chorei. Primeiro porque eu choro mesmo, sou a pessoa mais chorona que já existiu nesse mundo, e segundo porque estava tendo que me despedir da minha escola querida, meus amigos queridos e meu coral querido. Mas depois que as lagriminhas acabaram a gente se divertiu até… Acho que criança “supera” essas coisas com mais facilidade e, bem, a gente ia comer pizza naquela noite, não tinha muito do que reclamar, né? Mas uma coisa eu fiz questão de fazer antes de ir embora e o Rodrigo, que também estava “formando”, concordou comigo: nós tínhamos que pisar na grama da fachada da escola, aquela grama que era proibida para todos os alunos, uma vez que não estudávamos mais lá e ninguém poderia chamar nossa atenção. E foi ali, naquela grama, que tiramos uma foto celebrando aquela data “especial”.

Olha, eu até tentei participar do coral da minha nova escola, mas como foi a ÚNICA aluna a fazer isso não deu muito certo e cancelaram a ideia. Me colocaram pra ser backing vocal da banda que os meninos do Ensino Médio tinham montado e era isso aí, foi minha última experiência como cantora da vida (para o bem de nossos ouvidos). Mas foi uma fase que rendeu várias histórias saudosas e uma das fotografias favoritas que temos da infância, desrespeitando regras e sendo aplaudidos por isso!

Creative Writing Prompts 02
Rodrigo (irmão da Pati), Daninha (minha irmã), Patiquinha (nossa melhor amiga-quase-irmã) e eu, no nosso momento *vida loka*. Porém não sigam nosso exemplo pois pisar na grama é feio e faz mal pras plantinhas, ok crianças? Ok!

Esse post foi inspirado na proposta #02 do Creative Writing Prompts, que oferece mais de trezentas ideias legais para desenvolver sua escrita criativa. É o entre os 25 que me propus a escrever até outubro de 2018!
Nesse específico eu tive que expressar em apenas 10 minutos todos os sentimentos que essa foto me trouxe, então me perdoem pelo texto meio sem nexo, achei melhor publicá-lo assim mesmo porque essa que é a graça do negócio, né, se fosse arrumar demais ou censurar o resultado perdia todo o sentido. Só finalizei e revisei mesmo!

A não dita tradição

Em 15.02.2016   Arquivado em Escrevendo

Era pra ter vídeo hoje, mas nessa vida nem tudo o que a gente planeja acontece, então ficaremos apenas com palavras por enquanto, que são mais do que o suficiente.

Meu pai tinha uma caneta tinteiro. Meu avô e bisavô também tinham antes dele, todas eram Parker e ficavam na gaveta do armário da minha casa. Eu amava aquelas canetas. Não sabia se podia, mas sempre que achava uma delas (provavelmente a do meu pai, que é mais nova) usava até acabar a tinta. Ele sabia disso. Se a caneta não estava onde deveria já sabia que estava comigo. Uma vez ele teve que sair pra comprar tinta e me levou junto, porque sabia que eu ia gostar. Inclusive fui eu quem indicou uma loja onde ele provavelmente acharia essa tinta, e foi onde achou mesmo.

No natal de 2007 eu tinha acabado de passar no meu primeiro vestibular, ainda estava prestando outros, e era o primeiro desde que ele já não morava mais com a gente. Ele foi a uma loja comprar nossos presentes, pensando em dar algo realmente significativo que simbolizasse que sua filha de 17 anos estava dando o primeiro passo para virar adulta, e então resolveu seguir essa não dita tradição de família. Entrou na mesma super papelaria onde um dia eu havia indicado que ele encontraria tinta para escolher MINHA Parker, mas enquanto a moça o atendia ele viu uma linha de outra marca, Sheaffer, que estava no balcão. Apontou para uma delas, “É aquela ali que ela vai querer”.

Eu abri o pacote sem nem imaginar o que era, mas entendi no momento que abri a caixa dourada: minha primeira caneta tinteiro. E mesmo se não tivesse sido entregue a mim diretamente eu sabia que era minha. A estrutura de metal era simples, com os detalhes prateados, o nome da marca gravado na alça da tampa. E ela era cor de rosa. Nem muito claro, nem muito escuro: era rosa e ponto! “Tive que comprar essa, é a primeira caneta tinteiro ‘patty’ do mundo!”, foram as exatas palavras que ouvi dele quando peguei nela pela primeira vez. Abri e a pena também era prateada, limpinha, esperando ansiosamente para ser usada pela primeira vez.

Ela estava comigo quando assinei minha primeira lista de chamada dois meses depois. E meu primeiro cheque, o verso do meu primeiro cartão de banco, incontáveis anotações em sala de aula nos cinco anos que passei na UFMG. Eu era a garotinha que andava com um potinho de tinta azul na mochila, tendo que parar de escrever no meio da aula para reabastecer e chamando atenção do colega mais próximo. “Que elegante essa menina!” E quando as aulas práticas começaram e eu tinha que usar jaleco lá estava ela no meu bolso, em todos os momentos. Podia ser que nem fosse necessária, mas estava ali, e ainda está, seja no porta canetas em cima da estante ou dentro de qualquer bolsa ou mochila que eu esteja usando, meu eterno material favorito na hora de escrever, mais querida até que o teclado que é o que eu uso, hoje, para transformar qualquer ideia que tenho em palavras…

Creative Writing Prompts 01

Esse post foi inspirado na ideia #01 proposta pelo Creative Writing Prompts, que oferece mais de trezentas ideias legais para desenvolver sua escrita criativa. É o entre os 25 que me propus a escrever até outubro de 2018!

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