O heróico brado retumbante

Em 12.11.2016   Arquivado em Escrevendo

Estudar o período da ditadura militar no Brasil sempre foi muito angustiante para mim, mais até do que o holocausto, que não ficava exatamente muito atrás. Saber que existiu poucos anos antes de eu nascer, que aquele professor que estava ali na frente nos ensinando tinha vivido tudo aquilo, que o que nos era relatado era só a ponta do iceberg de torturas e opressões pelo qual todo o povo tinha passado, bem, não tem como não se incomodar com isso. Mas o que mais me derrubava era o “pós aula”, quando eu me sentava com as amigas para falar sobre o assunto e todas elas refletiam sobre como estariam nas ruas junto com os manifestantes tentando reverter aquela situação, que lutariam em prol da democracia mesmo que se ferrassem por isso. Não, eu não achava que elas estavam erradas ou que eram malucas, eu sentia era vergonha em pensar que, ao contrário delas e de tantos antes, eu jamais seria uma daquelas pessoas, jamais teria coragem.

Outra coisa que passava muito pela minha cabeça, o mais intrigante de tudo, era COMO DIABOS AQUILO TUDO TINHA ACONTECIDO? Como as pessoas tinham permitido, será que não perceberam? Se elas estavam pedindo o fim, por que não impedir desde o começo? E aí que cá estamos, mais de cinquenta anos depois, e de repente eu vejo, diante de mim e de todos nós, uma manobra política acontecendo bem na nossa cara. Vejo gente tentando impedir e não sendo o suficiente diante do poder, gente manipulando claramente para que se concretizasse e, claro, gente que assistiu a e resolveu se manter neutro ou mesmo acreditou que era o melhor, deu seu apoio. Foi então que eu descobri COMO acontece. E foi então também que eu percebi o quanto estava errada lá na minha adolescência. Eu não precisava sentir vergonha porque no fim das contas eu sou, sim, alguém que vai para a rua lutar pelo que acredita. Porque foi isso que eu fiz (e continuarei fazendo, sempre).

Veja bem, o objetivo aqui não é falar exatamente sobre os motivos pelos quais estamos indo às ruas e sim o que sinto quando chego lá, mas é impossível desenvolver um sem ter destrinchado o outro porque independente do posicionamento político a gente precisa analisar a situação como um todo. Quando você vota em um candidato à presidência e, consequentemente, no seu vice, não são somente PESSOAS que você está elegendo, mas também e principalmente um plano de governo. E se o vice assume o cargo e não segue o plano de governo do presidente que o elegeu, pronto, é porque tem alguma coisa errada. Sobre o julgamento em si, pensem bem… Foi cometido um crime e deve existir uma condenação para ele, mas a partir do momento em que as decisões são tomadas independentes do tipo de crime, dos motivos, da defesa, a partir do momento em que aquela coisa deixa de ser crime no dia seguinte da condenação é porque tem outra coisa errada. E temos que pensar no objetivo de um governo, que é SEMPRE continuar no poder, certo? É pra isso que as melhorias são feitas, pra isso que medidas são tomadas, para que nas eleições seguintes queiram te reeleger ou eleger seu sucessor. Mas e quando isso NÃO PODE acontecer, quando quem está no poder NÃO PODE continuar? Aí seu objetivo principal se perde e ele pode fazer o que bem quiser a hora que quiser sem se importar com o que os outros vão pensar, e VÁRIAS coisas erradas nascem, crescem e se reproduzem. É o que estamos vivendo agora, é o que não dá para ver e ficar caladinho.

Eu relutei muito antes de finalmente tomar essa decisão. Via amigos indo, participando, e ao mesmo tempo que tinha vontade, faltava coragem. Sabe quando você pensa “E se der ruim?” e deixa esse pensamento te dominar a ponto de não fazer o que quer? Pois é, acontece sempre comigo, mas a situação chegou num ponto extremo em que não deu pra segurar mais. O resultado foi surpreendente e maravilhoso. Nunca me considerei muito patriota por motivos extremamente estúpidos como “gostar da cultura de outros países” e “não ouvir música nacional”, mas é escutar o hino tocando que preciso segurar as pontas e as lágrimas que querem cair. Até aí tudo bem, eu sou MUITO chorona, se bobear rola até com o hino alheio. E ver torcedor sofrendo pela derrota do Brasil em Copas do Mundo então? Nossa, parte meu coração, mas novamente eu sou muito sentimental, qualquer “amor de fã” já me toca, no futebol não seria diferente. Porém foi eu pisar na rua tomada por manifestantes pela primeira vez que percebi que a emoção que todas essas coisas me causam não vem dos outros e sim de mim. Ouvir os tambores batendo e vozes gritando em nome de uma vida melhor, seja ela uma perspectiva para o futuro ou vontade de manter o que há de bom no passado e presente, saber que todo mundo está ali por causa de um país inteiro e não somente de si mesmo, reconhecer nos discursos o que eu mesma diria se tivesse acesso àquele microfone, nossa, isso tudo me arrepia, me dá um nó na garganta, eu acho LINDO DEMAIS! E aí a gente vai caminhando às vezes sem nem perceber o que está fazendo até que bate a real, até que todo mundo canta uma música que de repente começa a fazer sentido, até que a presença da polícia ali no cantinho dá medo mesmo que nada do que está sendo feito seja errado… Tudo isso me faz refletir o quanto é heroico esse brado retumbante, o quanto é ousado lutar pelo que queremos ser e o que temos direito num mundo onde somos reprimidos o tempo todo por isso. Aliás, democracia é uma coisa linda de forma geral!

Eu sou uma pessoa que SEMPRE será a favor de toda e qualquer manifestação, a menos que manifestem pelo fim do meu direito de manifestar. Em 2013 achei tudo muito confuso, tudo muito fora da ordem e sem objetivo, mas sem desvalorizar, apenas não participei. As que vieram logo após o resultado das eleições de 2014 então iam contra quase todas as coisas que acredito e as pessoas que eu conheço que estavam lá pensavam apenas em manter seu status de privilegiado em relação ao outro, algo que não posso aceitar, mas mesmo julgando tudo uma baita babaquice continuei sendo a favor do que estava sendo feito. Teria como não fazer o mesmo diante da minha insatisfação, da noção de todos os erros e injustiças que estão sendo cometidos? Não, não teria. Sabe como é, eu “prefiro barulho da democracia ao silêncio oprimido da ditadura” (fonte).

heroicobradoretumbante
Primeiramente…

Desafio de Junho Blythe.com.br

Em 22.06.2010   Arquivado em Dolls

– Em junho o desafio promovido pelo Blythe não tem limites de fotos, não tem data de inscrição e só tem uma regra: VERDE-AMARELO-AZUL-E-BRANCO!!
Todo e qualquer tipo de boneca pode participar mostrando seu amor e sua torcida pelo Brasil nessa Copa do Mundo…
… e como aqui em casa todo mundo tem uma nacionalidade, dessa vez minha “fotografada” é a Lilica, que fez a bandeirinha dela e já tá torcendo pelo “BÁSIL”!!

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