Sex Education: uma série necessária!

Em 06.02.2019   Arquivado em Séries e Desenhos

Sex Education *****
Sex Education Elenco: Asa Butterfield, Emma Mackey, Ncuti Gatwa, Gillian Anderson, Connor Swindells, Aimee Lou Wood, Patricia Allison, Kedar Williams-Stirling, Alistair Petrie, Chaneil Kular Anwar, Deobia Oparei, Hannah Waddingham, James Purefoy, Jim Howick, Sharon Duncan-Brewster, Simone Ashley, Tanya Reynolds, Toby Williams
Direção: Kate Herron, Ben Taylor
Gênero: Drama, Comédia
Duração: 398 min | 8 episódios
Ano: 2018
Classificação: 14 anos
Sinopse: “Otis Thompson é um virgem com ansiedade social que é filho de uma terapeuta sexual. Por ter crescido cercado por manuais, vídeos e conversas abertas sobre sexualidade, ele torna-se um expert no assunto – mesmo que contra sua vontade. Com a ajuda de Maeve, ele inicia uma clínica clandestina dentro da escola, ajudando os colegas com problemas sexuais em troca de dinheiro.” Fonte: Filmow (sinopse e pôster).

Em meio a tantas discussões sobre a presença ou não de aulas de educação sexual nas escolas, tantos casos de denúncias de abuso que essas aulas ajudaram a fazer acontecer e a volta do “boom” de infecções sexualmente transmissíveis ainda que supostamente a informação esteja disponível a todos, a Netflix nos apresenta uma série britânica que é exatamente o tipo de coisa que todos nós devemos assistir em algum momento da vida: Sex Education! Nela Otis, interpretado por Asa Butterfield, é um adolescente muito reprimido sexualmente, mesmo que sua mãe seja uma conhecida terapeuta sexual e seu melhor amigo, Eric, tente ao máximo ajudá-lo a superar isso. É quando Maeve, a “diferentona” do colégio, vê nesse parentesco do garoto um meio de ganhar uma muito bem vinda grana que vai ajudá-la a pagar suas contas e o convence a, juntos, abrir uma “clínica” de terapia sexual entre os colegas, que estão todos com hormônios à flor da pele…

Com diálogos inteligentes, personagens muito identificáveis e abordagens extremamente sensíveis, Sex Education faz rir de forma nada forçada nos momentos de humor e chorar com um aperto lá no fundo do coração nos momentos de drama. Ela tenta quebrar vários clichês e, ao mesmo tempo, não te faz pensar que esses clichês seriam um erro de qualquer forma. Otis é o “mocinho” virgem inexperiente, mas que não deixa as pessoas pisarem nele ou o tratarem mal por causa disso. Eric, seu “fiel escudeiro”, é gay e gosta de fazer maquiagens extravagantes e usar saltos altos de vez em quando. Maeve parece uma “bad girl” excluída, mas que mantém amizade com uma garota popular e às vezes cede aos próprios sentimentos. Até seu “peguete”, Jackson, foge ao padrão: o atleta super cobiçado é um rapaz negro, cuja família foge do convencional. Essas coisas, porém, não são faladas, simplesmente fazem parte da narrativa. Ela também trata corpo e nudez com MUITA naturalidade, como pele, mesmo, que é o que são. Inclusive as cenas mais explícitas foram gravadas com o apoio de uma “direção de intimidade”, para não rolar mais um dos tantos casos de assédio e abuso que vemos na história da TV e cinema. Muito legal, né?

Sex Education

Um ponto muito interessante da equipe técnica é que nela há a presença forte de mulheres em cargos importantes: criação, direção e, claro, roteiro! Isso é não só fora do padrão, uma vez que a indústria do entretenimento ainda é bastante sexista, como fez TODA diferença nos mais diversos momentos. Os melhores episódios, na minha opinião, são o 3º e o 5º (esse segundo com uma cena que não consegui ver, porque fui alertada do que acontecia, mas ainda assim maravilhoso) e neles é claro que se trata de uma abordagem feminina… São assuntos delicados e polêmicos, mas mostrados de forma belíssima, pertinente e emocionante. De causar alegria melancólica em quem já tem a mente aberta para eles e, quem sabe, ajudar a mudar a visão de quem ainda a mantém fechada. Por outro lado, o que considero o único ponto negativo, nossa principal garota da história, a própria Maeve, não foi o tipo de representação feminina mais legal de todas… Sim, ela é forte em vários aspectos, o que é ótimo, mas a maneira como ela trata as pessoas ao seu redor, PRINCIPALMENTE Otis e Jackson, me deixou bastante incomodada. Às vezes suas atitudes são carregadas de profundo descaso e crises de ego. Espero que ela melhore um pouco nisso, daqui pra frente! Principalmente porque a série dá a impressão de que os protagonistas serão um casal em algum momento, e do jeito que as coisas caminharam até agora isso não faz sentido algum.

No que se diz respeito à versão brasileira, que é um aspecto positivo de todas as séries originais Netflix que já assisti dubladas, essa não fica atrás. Seguindo a onda da equipe, tanto a tradução quanto a direção de dublagem, da Flávia Saddy, foram feitas por mulheres também, o que já é bem legal! As vozes são bastante condizentes com suas personalidades, das “gente como a gente” às mais caricatas. O Otis, obviamente grande destaque da série, foi dublado pelo João Cappelli, que conseguiu passar perfeitamente seu ar introspectivo sem cair no velho clichê do “bonzinho bobinho”. Já falei aqui antes que o João é uma das pessoas mais adoráveis que conheço, e isso refletiu perfeitamente na personagem, o encaixe é ideal. Além disso várias gírias e memes em alta estão presentes de forma pontual e, em um episódio onde um dos “pacientes” não consegue parar de perseguir uma colega, ele explica o assédio com a frase mais simples e perfeita que vemos nas ruas: “Não é não”. Coisas que parecem bobas, mas que têm o impacto perfeito que Sex Education veio acrescentar tanto em quem já sabe quanto em quem ainda precisa aprender!

Sex Education

A primeira temporada, com seus 8 episódios já disponíveis na plataforma desde 11 de janeiro, terminou bem, mas algumas tramas ainda ficaram em aberto, dando brecha para prosseguir com o sucesso. Depois que a criadora da série, Laurie Nunn, deixou bastante claro várias vezes que o assunto vinha sendo discutido, a Netfflix enfim confirmou a segunda temporada através de um vídeo sempre muito divertido, comentando alguns momentos da primeira, sem spoilers. Vamos torcer pra fazer jus ao que já tivemos até agora. Tenho até minhas esperanças de que, com o tempo, ela seja adotada como material didático para tirar, ou só reduzir, todo o tabu em volta de algo tão natural quando sexo…