A Ansiedade Queima

Em 10.06.2017   Arquivado em Escrevendo

A Ansiedade Queima

Desde muito pequena meu maior medo de todos é o fogo, e o fato de ser ansiosa tornou minha relação com ele difícil pra valer. Teve uma vez que minha tia tava queimando não-sei-o-que na entrada da casa da minha avó e eu dei meia volta para sair pela outra porta que ninguém usava, só pra não passar por ali. Antes disso rolou também uma reunião num Centro Espírita que fui com minha mãe e o moço que “liderava” esse grupo (não entendo tanto desse assunto para saber nomes, me desculpem) disse que a gente ia liberar ali nossos maiores medos… Eu nem sabia direito o que estava acontecendo, nem prestei atenção, mas comecei a reclamar que tinha alguma coisa queimando quase instantaneamente, mesmo que não tivesse.

Rolou também uma vez que fui acender o pisca-pisca da árvore de natal da minha casa, ele explodiu na minha mão e fiquei sem ter coragem de ligar tomadas por anos. Demora em adquirir habilidade para acender isqueiros e fósforos, pavor da hora do “parabéns pra você”, por aí vai… São várias histórias envolvendo essa mesma coisa, então quando falam sobre relacionar sensações com cheiros, eu relaciono a ansiedade com cheiro de queimado. Ela também é um medo constante que enfrento nessa vida, tão forte quanto assistir qualquer coisa em combustão, porque a ansiedade queima.

É meio louco que algo que faz parte de mim e não posso controlar seja associado ao “aroma” que mais me causa temor, mas é verdade.

A sensação que tenho quando a coisa “ataca” é que nem a de uma chama mesmo, mas não a chama confortável que fica nas lareiras e fogueiras que usamos pra nos manter aquecidos no frio, ou a que fica protegida pelas grades do fogão e logo vai trazer algo com pra comer. Não, não se parece nada com isso! É como se você entrasse direto num incêndio sem perceber, sem que alguém tenha te alertado do que tinha ali e, de repente, não conseguisse sair. Sua pele e/ou entranhas gritam com a ardência que você não pode combater, falta ar para conseguir proferir gritos de socorro pedindo ajuda, vai te consumindo até que você vire um mero montinho de cinzas que qualquer ventinho pode desmembrar e levar pra longe. Dói. Incomoda. Flameja. Às vezes destrói.

A sorte é que, vez ou outra, aparecem “pessoas porta fogo” com o extintor certo que a gente precisa pra colocar em ordem esse abrasamento descontrolado!

Esse post foi inspirado nas propostas #9 e #33 do Creative Writing Prompts, que oferece mais de trezentas ideias legais para desenvolver sua escrita criativa. É o 14º entre os 25 que me propus a escrever até outubro de 2018.

Crise dos “vinte e poucos” (e por que ela nem devia existir)

Em 04.06.2017   Arquivado em Escrevendo

Crise dos vinte e poucos

Em 2017 minha turma de terceiro ano do Ensino Médio completa uma década desde a formatura, e eu passei esse tempo todo planejando aqui na minha cabecinha um super reencontro da galera em dezembro em alguns dos lugares que comemoramos esse marco na época, todo mundo contando como tá a vida aos “vinte e poucos anos”, rindo daquelas mesmas piadas e se surpreendendo como tudo e nada mudou ao mesmo tempo… Eis que alguns meses atrás, fuçando o Instagram afora, vi uma das meninas celebrando que seu casamento estava chegando já com um bebê a caminho. Minha primeira reação? Sorrir, claro, ela tava linda e sorridente! A segunda? Me preocupar fortemente com isso. Das cinco garotas da sala de onze alunos o saldo era 01) casada, 02) mãe, 03) noiva, 04) noiva E grávida e… 05) eu!

Sim, eu! Sem nenhuma perspectiva de ter a vida encaminhada desse jeito, sem sucesso profissional ou sequer estar fixa num emprego. Sem nenhum feito legal digno de ser anunciado assim, formada num curso que eu amei mas que não trouxe grandes frutos pra mim… Eu que escrevo coisas na esperança de alguém ler mas sem ter essa certeza, cheia de paranoias e problemas na cabeça, que não sabe se vai conseguir pagar tudo o que precisa quando o mês virar e que mora com a mãe por tempo indeterminado porque, infelizmente, é só assim que dá pra ficar. Eu mesma, com vinte e tantos anos nas costas (os “poucos” já viraram “tantos”!) tão diferente do que tinha imaginado que seria quando esse momento chegasse. E essa constatação, somada ao transtorno de ansiedade nosso de cada dia, de repente virou mais uma grande crise na minha mente já preocupada.

Quem tava comigo na hora era um casal de amigos daqueles que eu ajudo a enfrentar várias barras com um ombro pra chorar e alguns conselhos ignoráveis, e que fazem o mesmo por mim mesmo se eu não fizesse por eles. Essa então foi a pauta do dia: como eu não precisava pirar por nada daquilo, porque cada um vive a vida do seu jeito, no seu momento e não tem nada de fracasso em ser de forma diferente um do outro. Lá no fundo da minha loucurinha eu já sabia disso, mas tem vezes que a gente precisa ouvir de outra pessoa pra acreditar, e como nem assim eu conseguia absorver eles soltaram a seguinte pergunta:

“Luly, você queria estar casada, queria já ter filhos?”

Ao que respondi, soltando um suspirinho e com toda sinceridade do meu coração, com um sonoro “Não!”, porque pra mim existem milhares de coisas “na lista” que precisam vir antes, porque sequer acho que eu devia fazer essas coisas tão cedo e porque eu realmente acho que na MINHA vida ainda TÁ CEDO pra tudo isso. E aí isso resolveu a questão, ou pelo menos deveria, se não fossem as pressões da sociedade que, às vezes, nos tornam desesperados para conseguir o que a gente sequer deseja.

Se parar pra pensar, aos vinte e poucos anos você viveu, sei lá, pouco mais de um quarto da sua vida!

Muita água já passou por essa ponte, sim… Mas tem tantas outras ainda por vir que não dá pra ficar surtando com isso. Nesse processo muitas vezes seus maiores feitos não aparecem em fotos nas redes sociais ou conversas de telefone, ou até aparecem e são ofuscados pelos feitos dos outros, e isso não quer dizer que eles não estão ali, fazendo diferença. Às vezes ninguém fica sabendo daquela pessoa que você ajudou, daquela conta monstruosa que você pagou, daquela coisa que você lutou tanto pra comprar e conseguiu… É, nem todo mundo sabe do dia que você brilhou no trabalho, da manhã que você conseguiu sair de casa mesmo que tenha acordado com o pé esquerdo, de qualquer porcaria com defeito que você consertou mesmo sem entender do assunto.

Meus colegas de escola não sabem do concurso público que eu passei, dos eventos que ajudei a organizar, do livro que escrevi, das mensalidades da faculdade da minha irmã que paguei. Eles não sabem das coisas que eu aprendi a fazer sozinha, das lágrimas que derramei quando machucaram alguém importante pra mim, ou dos beijos incríveis que rolaram na minha vida umas semanas aí atrás… E sabe do que mais? Eu sei que os sorrisos das fotos são sinceros que eles devem se orgulhar de tudo isso que estão mostrando viver, mas sabe-se lá quantas coisas estão por trás disso tudo das quais também se orgulham. Como saber que eles também não tiveram suas crises pessoais e tudo ficou parecendo ruim, como rolou comigo nesse dia?

A gente nunca vai saber tudo sobre todos… E nem sobre a gente mesmo, se bobear!

Não é todo mundo começa a contribuir para o INSS com apenas duas décadas de vida nas costas ou tem o emprego ideal ao completar seu 1/4 de século. Nem sempre dá pra comprar uma casa dos sonhos aos 30, ter gêmeos na escola aos 35 ou pode pagar uma viagem pra toda família ir pra Disney junta aos 40. Algumas pessoas conseguem isso, sim, e isso não necessariamente é fracasso ou sucesso, é a vida, e na vida tudo é sempre muito relativo e o melhor: pode mudar a qualquer momento! Pode ser até pra pior, mas por pode ser também pra melhor e é nisso que temos que apostar para fazer acontecer. Não precisa ter crise dos vinte e poucos, nem dos 30, 50 ou mesmo 80 porque “Fulano” está assim ou porque “Deltrano” esperava de você assado. As coisas serão do seu jeito na hora que tiver de ser, e pra quem vive resta duas alternativas que podem caminhar juntas sempre: aceitar o que faz bem e correr atrás de mudar o que for preciso pra ficar melhor!

E se não der certo a gente chora um no ombro do outro, toma umas juntos, come uma caixa de chocolate que não devia ter comprado, vê um filme ruim na Netflix, procura uma terapia e curte a merda até que ela acabe… Pode ser que assim seja, também…

Janeiro Branco e a (minha) Ansiedade

Em 15.01.2017   Arquivado em Escrevendo

janbrancoansiedade

A primeira vez que me surgiu um estalo de que algo não estava e nunca esteve bem comigo foi através de uma brincadeira. Eu estava tomando coragem para puxar assunto com um crush e assim que uma publicação dele apareceu na minha timeline do Facebook amarelei, comecei a suar frio e senti que não daria conta mais. Meu amigo que estava ao lado, sem perceber que era tão sério assim, brincou “Vai em frente, Luly, deixa de ser besta, se você ficar intimidada por causa disso é caso de precisar de tratamento, hein!”.

Ele estava certo.

Ainda assim eu fui vivendo com aquilo achando que “precisar de tratamento” era um grande exagero da minha parte, não passava de uma piada, mesmo com um grande histórico de pessoas que tiveram que se tratar com psicólogos e psiquiatras na família. Continuei minha vida do jeito que ela sempre foi, tentando justificar as coisas que me aconteciam e, principalmente, minha reação a elas com milhares de desculpas que doíam muito menos que a realidade. Até que chegou uma situação simples, algo altamente inofensivo que não iria me prejudicar em nada, aquele momento da vida em que “ou ganha, ou empata” e lá estava eu, sem conseguir fazer. Era um telefonema e tudo o que aconteceu foi eu discar e cancelar a ligação três vezes até finalmente desistir quando já estava chorando e tremendo MUITO, precisando gritar no travesseiro para que ninguém soubesse o que se passava dentro do meu quarto, sentindo dores horríveis dentro da barriga. E aí caiu a ficha de que aquilo tinha um motivo, então passei o dia inteiro quieta entre lágrimas, muitos pensamentos e testes de internet que me fizeram concluir que havia uma possibilidade de todos os meus problemas pessoais em toda a minha vida serem causados por uma única coisa. Tomei coragem para conversar com uma pessoa que poderia me ajudar, papo vai e papo vem, e enfim veio o diagnóstico, escancarado na minha frente: TAG. Transtorno de Ansiedade Generalizada. Aos poucos toda minha existência foi magicamente explicada.

Quando chorei porque sentaram minha irmã perto de uma sacada pedindo para tirarem ela dali porque conseguia ver direitinho milhares de jeitos dela cair não estava sendo super protetora. Quando eu unhava minhas mãos na escola porque estava prestes a ter que jogar vôlei não era frescura, como minhas amigas já me disseram várias vezes. Quando eu andava na beirada da calçada pensando no dia absolutamente comum que vinha pela frente em total desespero não era depressão juvenil. Quando eu tinha que apresentar um trabalho e suava frio não era timidez (apesar de que na época eu era bem tímida, sim). Quando eu não dormia nas vésperas das provas não era insônia. Todos os “transtornos alimentares” que já tive na verdade não eram transtornos alimentares, inclusive quando parei de comer porque tinha um TCC pra apresentar ou conversar com um cara que eu estava afim. Quando viajei para visitar uma amiga e quis voltar pra casa no segundo que cheguei lá, sem nem saber os dias ótimos que teríamos pela frente, não era arrependimento bobo . Quando eu estava prestes a dizer o que pretendia, fazer o que desejava ou realizar o que esperava e nada disso acontecia não estava “amarelando’. Quando estava vivendo uma das melhores coisas da minha vida, sabendo que não vivi várias outras por causa disso, ainda assim havia uma parte de mim desejando que um meteoro caísse naquele momento para que eu não precisasse ir em frente, por mais que eu soubesse que era o que queria… As mãos tremendo visivelmente, as dores de barriga instantâneas, o choro inexplicável em ocasiões inexplicáveis, o desespero só de pensar que existem outras milhões de possibilidades para algo além da que eu esperava, mesmo que fossem impossíveis ou improváveis. A ansiedade já me fez perder 10 quilos de uma vez, o que muita gente encarou como uma dádiva, mas eu sabia que aquilo não estava certo. A ansiedade transformou meus principais paraísos particulares em verdadeiros infernos.

Há uma diferença absurda entre estar ansioso e viver com a ansiedade. É mais ou menos a diferença entre sentir fome e passar fome: o primeiro é até gostosinho, aquele momento logo antes de uma refeição saudável e feliz que você vai encontrar em casa, enquanto o segundo muitas vezes representa uma vida de miséria. Quando você está ansioso por algo, sua viagem de férias, a festinha do fim de semana, uma oportunidade de matar saudades de alguém, sente um friozinho na barriga de animação e sorri sem parar. A ansiedade como doença não é assim… É quase odiar sua vida e não poder desistir dela porque não consegue parar de pensar nas consequências do que vai deixar pra trás, parafraseando Freddie Mercury é não querer morrer, mas às vezes desejar sequer ter nascido. Qualquer atividade comum pode ser um verdadeiro desafio para um ansioso: atender o telefone, enviar uma mensagem, falar com a atendente do banco, comparecer ao primeiro dia de trabalho, comparecer aos demais dias de trabalho, terminar um relatório que está já atrasado, flertar, sair de casa em um dia chuvoso, falar para um grande público, dirigir um carro diferente do que está acostumado. É ótimo que você, com sua mente sadia, consiga fazer, mas entenda que alguns têm muita dificuldade em conseguir também. De fato é difícil lidar com algo que você não entende e não há nada de errado em dizer “Calma, tudo vai dar certo!”, mas lembre-se que essa fala deve ser incentivo e alento, e não ordem e solução, porque palavras não curam doenças, e uma doença mental não pode ser vista, mas continua sendo uma doença. A minha vida como ansiosa não é percebida quando você entra no meu blog e vê o template colorido, ou é apresentado a mim enquanto estou falando sem parar animadamente, nem mesmo na minha foto de perfil sorridente que foi tirada num dia em que tive uma crise que me deixou sem ar, porém existe em tantas situações, grandes e pequenas, que somente eu posso saber como é viver dentro da minha cabeça… E nem mesmo ter TAG pode faz saber exatamente como é a outra pessoa que também tem, porque se manifesta de forma diferente para cada um de nós.

E é por causa da existência desses transtornos que nós temos a campanha do Janeiro Branco para conscientizar e debater sobre a Saúde Mental e o Bem Estar. Nem sempre o corpo são é sinônimo de mente sã, seu vizinho piadista pode ter depressão, sua professora maravilhosa pode ser bipolar, sua prima que te vê semanalmente na casa da vovó pode ter fobia social, o cara que senta ao seu lado na primeira aula da segunda feira pode ter um distúrbio alimentar, seu personal trainer pode ser esquizofrênico e a autora de um blog que você visita às vezes, que você encontrou naquele evento que você foi no fim de semana, pode ter sido diagnosticada com TAG. É preciso entender que o problema existe, dar carinho a quem vive com ele e lembrar que é perfeitamente possível ter uma vida normal assim, basta ter acesso ao tratamento adequado e apoio daqueles que o cercam. Quem quiser saber mais sobre o assunto pode visitar o site e Facebook do projeto e começar o ano com ainda mais empatia na sua vida!

Foi MUITO DIFÍCIL MESMO pra mim escrever esse post e não sou profissional no assunto, apenas alguém que está descobrindo como lutar contra algo que não escolheu viver, 100% do que está aqui é baseado na MINHA experiência e na orientação que estou recebendo para ficar melhor (se passei alguma informação equivocada me desculpem). Sendo assim, por favor, tenham muito cuidado ao julgar e comentar algo dessa vez, ok? Obrigada!