Quem me ensinou a gostar de ler…

Em 10.08.2017   Arquivado em Escrevendo

Quando criança eu adorava ler gibis da Turma da Mônica e nada mais. Sério, eu podia passar horas afundada nas revistinhas, sempre ganhava o Almanaque de Férias quando chegava a hora, me divertia mais com os quadrinhos do que com as atividades, mas só isso. Na escola a gente tinha que ler um livro todo mês e fazer resenha/ilustração sobre ele, e eu escolhia o menor e mais simples entre as opções disponíveis, para simplificar o trabalho. Pegar um por conta própria, por diversão? Jamais! Era melhor usar meu tempo brincando de Barbie, obrigada! Escrever era outra coisa, amava e fazia bem feito, mas nem sempre uma coisa está ligada à outra e no mais caso não estava.

Meu pai, por outro lado, sempre leu de tudo. Nos fins de semana você sempre achava ele em casa ouvindo música, vendo futebol ou deitado com um livro nas mãos. Eu sabia que ele gostava de Saramago, que não precisava de nada pra enxergar bem ao contrário de todas nós, que iria levar a sério e até o final qualquer conjunto de páginas que caísse nas mãos dele. E não conseguia entender aquele fascínio mesmo assim…

Ele tinha uma edição de “Reinações de Narizinho”, do Monteiro Lobato, e me deu de presente. Eu tentava ler algumas páginas todas as noites, mas simplesmente não rendia… Acho que nunca me identifiquei tanto com o Sítio do Pica Pau Amarelo porque os valores da época já eram MUITO diferentes dos meus, mesmo tão novinha, mas insistia. Como incentivo ganhei o “Viagem ao Céu” novinho em folha para continuar a história quando acabasse o primeiro, e isso ficou na ideia porque nunca aconteceu. No desespero de me ver interessada pela coisa ele começou a comprar a Revista Recreio pra gente, que sempre vinha com uns fascículos da Varig que diziam que “Quem lê, aprende voando”, frase que eu já achava incrível, mesmo que não me identificasse. Foi numa dessas revistas que eu li sobre a série Harry Potter pela primeira vez, e enquanto fazia isso ele surgiu atrás de mim dizendo “Eu vou comprar esse livro pra você! Tá todo mundo falando dele, desse você vai gostar!”, a empolgação era evidente.

No fim daquele ano a irmã dele, minha madrinha, acabou fazendo isso. Me dar “A Pedra Filosofal” de presente, quero dizer. Meu pai terminou de ler antes de mim, que demorei 10 meses pra isso, e ameaçou que eu não poderia ver o filme com meus amigos até que terminasse. Às vezes acho que ele se arrepende um pouco de todo esse incentivo, tendo em vista que eu reli a história mais seis vezes antes de ganhar os outros. Tendo em vista que até hoje isso é uma paixão que não acaba… Ou então não, ou então se sentiu orgulhoso quando da adolescência, antes de ter que estudar pro vestibular, eu sempre estar com um livro debaixo do braço, varando as prateleiras da biblioteca atrás de algo legal que não tivesse pegado ainda e fazendo com que essa missão ficasse cada vez mais difícil. Já a missão dele foi cumprida… Meu pai, enfim, me ensinou a gostar de ler!

Quem me ensinou a gostar de ler... | Projeto 52 Perguntas em 52 Semanas
Foto tirado em meados de 1993, em Timóteo/MG, onde nós dois nascemos.

Projeto 52 Perguntas em 52 Semanas

Esse é o 3º texto do Projeto 52 Perguntas em 52 Semanas, traduzido para o português pela Bia Carunchio, que tem como objetivo “ajudar no processo de escrita da sua história de vida”. A pergunta da vez é “Quais lembranças você tem do seu pai? (nome, data e local de nascimento, quem eram os pais dele, etc.)” e foi isso que ela me inspirou a produzir!

O título desse post foi inspirado na dedicatória do meu primeiro livro, “Wish You Were Here”, que ainda não foi publicado. Vocês podem ler mais sobre na fanpage do Facebook e no evento que tem como objetivo achar uma editora para ele!

Há lugares que me lembro…

Em 03.08.2017   Arquivado em Escrevendo

Semana passada eu voltei na minha cidade natal, depois de 10 anos sem ir lá, coincidindo lindamente com o fato de que eu precisava escrever sobre ela graças ao projeto 52 Perguntas em 52 Semanas. Mas eu não fui pra buscar inspiração, não… Tampouco para visitar pessoas, viver uma experiência nostálgica e nem nada poético do tipo: fui para resolver problemas mesmo! Era aquela “coisa”, né, alguém tinha que ir, eu tava cheia de tempo livre, peguei o ônibus e fui. A estrada está ruim como sempre, ficamos parados em certos momentos por muito minutos admirando vários nadas sem sinal de celular, mas tinha Pink Floyd tocando no meu iPod e um chocolate que uma amiga tinha me dado de aniversário na bolsa, então tava tudo bem, tava tudo certo. Umas quatro ou cinco (ou seis?) horas se passaram e finalmente desci lá… Não sei exatamente se fiquei surpresa ou não em encontrar tudo no mesmo lugar que estava antes.

Bom, quase tudo. Claro que muda uma coisinha aqui e outra ali, né? A usina, por exemplo, fica toda fechadona agora, num muro inteiro e não mais “fragmentadinho”. Tem também uns prédios espalhados que não existiam antes. Mas no geral é bem mais do mesmo: o supermercado grandão no seu quarteirão (a porta mudou de lado, o que me confundiu um pouco), a Praça de Jogos onde vários velhinhos se reúnem todo santo dia ainda sempre cheia. A igrejinha católica do Centro, a lanchonete Tia Eliana onde a gente comia pastel, a mesma loja de tecidos da esquina que nem as bancadas eram novas. A loja de sapatos então, continuava com as prateleiras e poltronas na exata mesma disposição.

Em certo momento, enquanto eu esperava a amiga experimentar sapatos nessa loja, alguém me chamou pelo apelido de infância. Chamou não, se questionou se era eu ou minha irmã, só ouvi um “É a Lulu ou é a Dani?”, então já sabia que estavam falando de mim. Era uma das minhas duas professoras do maternal! Foi talvez um dos encontros mais legais que já tive na vida! Me chamou pra passar uns dias na casa dela, perguntou sobre minha vida e se eu ia casar (de onde as pessoas tiram essas coisas?), como estava o pessoal aqui de casa e o que eu estava fazendo. Disse pra eu não me desanimar com minha instabilidade atual, porque afinal de contas todo mundo estava mais ou menos assim mesmo, uma hora ia melhorar. A gente se despediu bem sorridente, e muito emocionada. Cês sabem, eu sou uma bela de uma manteiga derretida, segurar o choro ali foi quase como enfrentar um dos 12 Trabalhos de Hércules, mas assim como ele eu consegui!

Ainda nessas andanças vi de longe a escola onde estudei a primeira fase do Ensino Fundamental, o prédio onde ficava o consultório dos meus pais, a Maria Fumaça dos jardins da Fundação Acesita. E a Fundação em si, onde assisti peças e mais peças de teatro infantil, que aconteciam mensalmente e a gente simplesmente amava. Inclusive o outdoor onde ficava anunciada a programação permanece igual, o que me fez dar uma risadinha. Eu vi o carrinho da hambúrguer onde a gente adorava comer e que agora ele tem uma lanchonete gourmet do outro lado da rua. Achei chique. Precisei ir a um Bradesco e encontrei a agência no lugar exato onde já supus que iria encontrar. Descobri que era tudo muito menor e mais perto do que eu imaginava, e que eu não nasci pra essa coisa de cidade pequenas, de todo mundo conhecer todo mundo, de falar que pessoa X é filha do “Fulano” e todos os presentes já saberem tudo sobre a família toda. Não sinto muitas saudades, já faz 15 anos que Belo Horizonte é minha casa (e nada vai mudar isso), mas até que foi bom ter esse breve reencontro com a infância assim, no meio da turbulência da “adultisse”. Ao mesmo tempo que queria ir embora gostei de estar ali, mas não era o lugar que me fazia sorrir, sabe? Eram os momentos. Os que já tinha passado e até mesmo os que estavam acontecendo em consequência desse passado. “Na minha vida, eu os amo mais!”

Há  Lugares Que Me Lembro | Projeto 52 Perguntas em 52 Semanas
Escola Estadual Getúlio Vargas: minha 2ª casa por 4 anos, e o único lugar que lembrei de fotografar, mesmo de longe.

Esse é o 2º texto do projeto 52 perguntas em 52 semanas, traduzido para o português pela Bia Carunchio, que tem como objetivo “ajudar no processo de escrita da sua história de vida”. A pergunta da vez é “Quando e onde você nasceu? Descreva a casa, a vizinhança e a cidade onde você cresceu.” e foi isso que ela me inspirou a produzir!

O título e a última frase desse post são a tradução trechos da música “In My Life”, da banda inglesa The Beatles, na qual eles falam de sua cidade natal, Liverpool.

Pedaços de uma vida que abriu-se em flor

Em 12.01.2017   Arquivado em Escrevendo

“É o avô do Henrique!”

Minha mãe, já grávida de 43 semanas, abriu o portão e desligou o interfone morrendo de rir dessa resposta dado pelo meu avô para responder à pergunta “Quem é?”, lá no primeiro apartamento onde a gente morou. A ideia de não contar pra ninguém se eu era menina ou menino veio dela mesma, inicialmente porque tinha medo de ficar decepcionada com o resultado do ultrasom, mas depois que isso não aconteceu era simplesmente mais legal continuar com o suspense. O quarto era todo verde, as roupas em cores “neutras”, acho que no total apenas outras cinco pessoas sabiam da verdade, entre elas meu tio Márcio, que foi selecionado pra ajudar na escolha do nome oficial.

Mamãe queria Renata. Mentira, mamãe queria Henrique, mas não tinha como, então ela optou por Renata. Papai escolheu Luciana. Os dois gostavam de ambos, então tio Márcio desempatou e Luciana venceu. Acho que foi melhor assim porque eu gosto do meu nome – não gosto de ser chamada por ele, é verdade, mas isso não muda nada, continuo gostando e pronto. Eu só consigo me ver dessa forma, não sei quem é a Renata e muito menos quem é o Henrique… Imagino que ela seja mais ou menos parecida comigo mesma, senão idêntica, já ele não tenho a mínima ideia. Será que é um cara legal, desconstruído e educado? Será que é o contrário de tudo que deveria ser, todo machista sem noção? Ai, Deus me livre! Será que ele é gay? Eu tenho quase certeza que ele é gay, espero que a família dele (no caso, a minha) aceite isso de boa, lá no universo paralelo em que eu nasci como ele e não como eu mesma…

Luciana significa “cheia de luz”, por causa do Lúcia, apesar de que não me sinto um ser TÃO iluminado assim, não, mas estamos trabalhando pra chegar lá… Significa “cheia de graça”, por causa do Ana, e pode ser que isso justifique as piadas que eu faço em tempo integral e todo mundo sempre acha que tô falando sério. Significa “aquela que veio ao amanhecer”, mas a “diferentona” aqui nasceu no finalzinho da tarde, graças ao médico que me arrancou meio que sem eu querer. Ao contrário é Anaicul, que odeio, na família é Lulu, que acho fofo, alguns conhecidos não muito próximos insistem no Lu, que eu também não gosto, e já foi Lucy em vários e vários lugares, o que é BEM legal e lembra aquela que estava no céu com diamantes. A Luly nasceu aos 12 anos por causa de uma perninha puxada sem querer que transformou um “u” em “y”, e como é que a gente ia saber que no final ela ia se tornar a oficial entre todas as outras? Essas coisas da vida… Quando a presença é alegre vira “Luulyyy”, se tá chamando de longe sai um “Lu-lê!” e tem aquelas vezes que eu mesma falo de mim na terceira pessoa carinhosamente como Lulynha…

Um ponto divertido da história, é que seu Carlito, de fato, era o avô do Henrique. Infelizmente não viveu o suficiente para saber disso, mas meu primo de mesmo nome, filho do tio Márcio (!), nasceu pouco mais de 21 anos depois do causo do interfone. É claro que ele é uma pessoa completamente diferente do Henrique que eu teria sido, mas ainda assim acho isso legal e acredito completamente na teoria de que é por isso que ele parecia um pouquinho comigo em uma ou outra foto quando era neném. Outra dessas coisas da vida…

pedacosdeumavida

Esse é o 1º texto do projeto 52 perguntas em 52 semanas, traduzido para o português pela Bia Carunchio, que tem como objetivo “ajudar no processo de escrita da sua história de vida”. A pergunta da vez é “Qual o seu nome completo? Explique porque seus pais te deram esse nome.” e foi isso que ela me inspirou a produzir!

O título desse post é um trecho da música “Cantiga Por Luciana”, da cantora carioca Evinha, vencedora do IV Festival Internacional da Canção nas categorias Nacional e Internacional em 1969.