Pedaços de uma vida que abriu-se em flor

Em 12.01.2017   Arquivado em Escrevendo

“É o avô do Henrique!”

Minha mãe, já grávida de 43 semanas, abriu o portão e desligou o interfone morrendo de rir dessa resposta dado pelo meu avô para responder à pergunta “Quem é?”, lá no primeiro apartamento onde a gente morou. A ideia de não contar pra ninguém se eu era menina ou menino veio dela mesma, inicialmente porque tinha medo de ficar decepcionada com o resultado do ultrasom, mas depois que isso não aconteceu era simplesmente mais legal continuar com o suspense. O quarto era todo verde, as roupas em cores “neutras”, acho que no total apenas outras cinco pessoas sabiam da verdade, entre elas meu tio Márcio, que foi selecionado pra ajudar na escolha do nome oficial.

Mamãe queria Renata. Mentira, mamãe queria Henrique, mas não tinha como, então ela optou por Renata. Papai escolheu Luciana. Os dois gostavam de ambos, então tio Márcio desempatou e Luciana venceu. Acho que foi melhor assim porque eu gosto do meu nome – não gosto de ser chamada por ele, é verdade, mas isso não muda nada, continuo gostando e pronto. Eu só consigo me ver dessa forma, não sei quem é a Renata e muito menos quem é o Henrique… Imagino que ela seja mais ou menos parecida comigo mesma, senão idêntica, já ele não tenho a mínima ideia. Será que é um cara legal, desconstruído e educado? Será que é o contrário de tudo que deveria ser, todo machista sem noção? Ai, Deus me livre! Será que ele é gay? Eu tenho quase certeza que ele é gay, espero que a família dele (no caso, a minha) aceite isso de boa, lá no universo paralelo em que eu nasci como ele e não como eu mesma…

Luciana significa “cheia de luz”, por causa do Lúcia, apesar de que não me sinto um ser TÃO iluminado assim, não, mas estamos trabalhando pra chegar lá… Significa “cheia de graça”, por causa do Ana, e pode ser que isso justifique as piadas que eu faço em tempo integral e todo mundo sempre acha que tô falando sério. Significa “aquela que veio ao amanhecer”, mas a “diferentona” aqui nasceu no finalzinho da tarde, graças ao médico que me arrancou meio que sem eu querer. Ao contrário é Anaicul, que odeio, na família é Lulu, que acho fofo, alguns conhecidos não muito próximos insistem no Lu, que eu também não gosto, e já foi Lucy em vários e vários lugares, o que é BEM legal e lembra aquela que estava no céu com diamantes. A Luly nasceu aos 12 anos por causa de uma perninha puxada sem querer que transformou um “u” em “y”, e como é que a gente ia saber que no final ela ia se tornar a oficial entre todas as outras? Essas coisas da vida… Quando a presença é alegre vira “Luulyyy”, se tá chamando de longe sai um “Lu-lê!” e tem aquelas vezes que eu mesma falo de mim na terceira pessoa carinhosamente como Lulynha…

Um ponto divertido da história, é que seu Carlito, de fato, era o avô do Henrique. Infelizmente não viveu o suficiente para saber disso, mas meu primo de mesmo nome, filho do tio Márcio (!), nasceu pouco mais de 21 anos depois do causo do interfone. É claro que ele é uma pessoa completamente diferente do Henrique que eu teria sido, mas ainda assim acho isso legal e acredito completamente na teoria de que é por isso que ele parecia um pouquinho comigo em uma ou outra foto quando era neném. Outra dessas coisas da vida…

pedacosdeumavida

Esse é o 1º texto do projeto 52 perguntas em 52 semanas, traduzido para o português pela Bia Carunchio, que tem como objetivo “ajudar no processo de escrita da sua história de vida”. A pergunta da vez é “Qual o seu nome completo? Explique porque seus pais te deram esse nome.” e foi isso que ela me inspirou a produzir!

O título desse post é um trecho da música “Cantiga Por Luciana”, da cantora carioca Evinha, vencedora do IV Festival Internacional da Canção nas categorias Nacional e Internacional em 1969.

  • Clayci

    Em 12.01.2017 | Uau!! Deixou 149 comentarios, VIP!! | [Citar]

    Aiii Luly eu acho seu nome lindo <3
    Meus pais esperavam por um menino, sabe? E eles não quiseram saber do sexo ahaha até tentaram, mas eu não colaborei.
    Enfim o meu nome era para ser Cléber e agradeço por não ter sido.. Mesmo se eu tivesse nascido homem não consigo me identificar com esse nome hahahaha

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    Luly Lage Reply:

    Eu até gosto de Henrique, mas tenho um pouco de medo de quem eu seria se fosse ele… Acho melhor ficar sendo eu mesma, hahaha!

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  • Mari

    Em 12.01.2017 | Comentou 3 vezes. | [Citar]

    Adorei! Parece nossas conversas… cheias de gatilhos, lembranças e parênteses mas no final sempre faz sentido! Delícia de ler!

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  • Isabela Luccas

    Em 12.01.2017 | Comentou 10 vezes. | [Citar]

    Fiquei muito feliz enquanto lia, porque eu me senti juntinho da sua história. Depois de muitos anos, eu as vezes paro para pensar sobre o meu eu, sobre como eu vim parar aqui e o porquê de eu estar aqui. Meu pai queria Eugênia e minha mãe queria Gabriela, como raios eu virei Isabela? kkk Eles não respondem e eu sempre dou risada sozinha pensando nisso.

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  • Gislaine, mas pode chamar de Gi

    Em 12.01.2017 | Comentou 2 vezes. | [Citar]

    Luly, amei… que escrita gostosa, quando vi pensei: nossa que textão. Mas a historia fluiu bem e realmente foi gostoso de ler.
    Gosto do meu nome, e nunca pensei como seria se eu não fosse eu rsrs

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  • Barb

    Em 12.01.2017 | Comentou 4 vezes. | [Citar]

    Nossa Luly, que escrita maravilhosa.
    Enquanto lia cada frase do texto, sentia que estava conversando com a minha melhor amiga. E acredito que isso é muito importante nos textos, cria essa proximidade com o leitor, sabe?
    Adorei mesmo, de coração.
    E seu nome é lindo <3

    Beijos
    barbfurtado.blogspot.com

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