Categoria "Filmes"

To The Bone: O Mínimo Para Viver

Em 02.08.2017   Arquivado em Filmes

O Mínimo Para Viver

O Mínimo Para Viver (To The Bone) *****
Elenco: Lily Collins, Keanu Reeves, Liana Liberato, Alex Sharp, Kathryn Prescott, Ciara Bravo, Hana Hayes, Joanna Sanchez, Michael B. Silver, Rebekah Kennedy, Yindra Zayas.
Direção: Marti Noxon
Gênero: Drama
Duração: 107 min
Ano: 2017
Classificação: Livre
Sinopse: “Uma jovem (Lily Collins) está lidando com um problema que afeta muitos jovens no mundo: a anorexia. Sem perspectivas de se livrar da doença e ter uma vida feliz e saudável, a moça passa os dias sem esperança. Porém, quando ela encontra um médico (Keanu Reeves) não convencional que a desafia a enfrentar sua condição e abraçar a vida, tudo pode mudar.” Fonte: Filmow (sinopse e pôster).

Comentários: Antes mesmo de ter sido lançado na Netflix mês passado, “O Mínimo Para Viver” (em inglês “To The Bone”) já estava dando o que falar. O longa protagonizado por Lily Collins trata da tão falada, e ainda assim mal discutida, questão dos distúrbios alimentares através de Ellen, uma garota de 20 anos que sofre de anorexia nervosa. Após várias tentativas de tratamento impostas pela sua tumultuada família, todas frustradas, sua madrasta consegue para ela uma vaga na disputadíssima clínica do dr. Beckham, interpretado por Keanu Reeves, que tem um método muito “diferente” de tratar os pacientes, sem apelar para remédios ou medidas drásticas.

Digo “tão falada, e ainda assim mal discutida” porque é um assunto MUITO abordado na mídia e na arte, mas sempre com um foco meio errôneo. Novelas como “Malhação” sempre trazem personagens com anorexia e bulimia, e a história é quase a mesma todas as vezes: uma menina sem qualquer problema aparente, porém vulnerável aos padrões de beleza, é incentivada à prática e fica doente, mas raramente sente as consequências reais disso. Elas têm familiares e amigos que sabem exatamente como lidar, sofrem alguns desmaios que solucionam todos os seus problemas e continuam visualmente lindas, saudáveis e magras “na medida certa”. Não existem outros problemas naquela garota para serem tratados antes, durante ou depois do que rola. Mas na vida real não é bem assim.

Na vida real existe uma ramificação enorme de sequelas que viver com uma doença assim pode trazer, e é o que é abordado. A própria Ellen se corrói de remorso com o que a mistura da anorexia e arte desencadeou em sua vida e na dos outros, e ainda assim não consegue se livrar dela. Vemos vagamente que os outros pacientes da clínica também sofrem com isso, mas não é algo tão aprofundado. Se parar pra pensar isso condiz com a realidade, mesmo que a gente compartilhe das dores e problemas de alguém raramente saberemos ao fundo as causa e consequências disso. A escolha dos atores foi muito sábia nesse aspecto, assim como as tomadas feitas pela câmera… Os ossos deles aparecendo sob a pele é amargo de se ver, traz desconforto e fica quase difícil entender como alguém pode chegar a esse ponto, e aí você lembra que que não é realmente compreensível, o que torna a luta ainda mais árdua.

Dois pontos, porém, foram extremamente fracos pra mim. Primeiro um breve romance que é enfiado na história, sem pé nem cabeça, que não faz sentido, não tem base para se firmar e não dá força a nenhum aspecto da narrativa. O impacto final que isso tem poderia ser o mesmo sem esse tipo de envolvimento e seria ainda mais bacana porque teria alguma lógica, já que a amizade convence e o casinho não. E o segundo é o final. O clímax do filme é maravilhoso com uma cena SUPER forte e emotiva envolvendo a mãe da personagem, e aí o que vem logo em seguida não combina muito bem com toda a realidade que estava sendo passada até segundos antes. Os últimos minutos se arrastaram e quebraram completamente um ritmo que eu estava gostando MUITO, até que acabou e fiquei olhando pra tela um pouco decepciona. Uma pena.

O Mínimo Para Viver Foto do Las Vegas Review-Journal

E agora um desabafo, porque acima de tudo seria impossível falar sobre esse filme sem isso. A maneira como me senti se sobressaiu a tudo, incluindo roteiro, atuações maravilhosas e fotografia belíssima. “O Mínimo Para Viver” enfiou o dedo numa ferida que eu sequer sabia que tinha, tão profundamente que chegou lá no osso, como o título sugere. Porque mesmo com mais de uma incidência com o passar dos anos eu continuava fingindo que nunca tinha tido um transtorno alimentar de verdade, mas a verdade é que tive, várias vezes.

Sendo uma pessoa que sofre de Transtorno de Ansiedade estou sempre suscetível a épocas de crises, muitas vezes causadas por “besteiras” que as ligações falhas do meu cérebro tornam algo grandioso. E um sintoma que NUNCA DEIXA DE APARECER é a falta de apetite. Já cheguei a emagrecer 5kg em duas semanas e esse ano a coisa chegou no seu ponto extremo em que havia dias onde eu fazia apenas duas refeições minúsculas, praticamente só pra fingir pras pessoas que estava normal. Um belo dia me olhei no espelho e vi que conseguia ver as costelas sem precisar forçar, algo que não acontecia nem quando eu era uma adolescente magrela. Minhas calças estão todas caindo e escolher o que vestir me leva ao profundo desespero, já que me sinto sempre horrorosa não cabendo em nada.

“Mas Luly, você não gosta de estar assim! Você nem se acha bonita estando tão magra! Não é a mesma coisa, né?” Não, não é a mesma coisa, mas não deve ser ignorado ainda assim. Durante todos os minutos de duração da história eu tentava me comparar visualmente com a Ellen com medo de estar iguala. É óbvio que a coisa fica ainda mais triste quando é imposta por uma sociedade que se preocupa mais com a magreza do que com a saúde, mas um distúrbio por compulsão ou isenção não deixa de ser um problema. Inclusive já falei sobre como me sinto em relação a isso largamente num vídeo que foi ao ar no meu canal do YouTube há pouco tempo…

Tem também o número absurdo que pessoas que já me disse ao longo da vida o quanto eu e a Lily somos parecidas fisicamente. Não sei se é realmente tão igual, mas entendo a comparação e fico feliz porque acho ela LINDA, e deixou tudo ainda pior! Só o que conseguia pensar era “Será que estou ficando assim? Será que já estou? Se ela ficou destruída dessa forma estando tão magra, vou ficar também? E se chegar nesse ponto?”… Ao mesmo tempo que não sei como mudar minha realidade… Desesperador.

O Mínimo Para Viver Foto do Las Vegas Review-Journal

Enfim… Em resumo, “O Mínimo Para Viver” não é um filme sobre superação, romantização ou finais felizes. É para incomodar e mostrar “na prática” que a doença pode chegar níveis extremos, acarretar outros problemas ainda maiores, se tornar mais importante que seus valores próprios. É pra te jogar na cara que vem pra matar! É pra exemplificar que afeta quem se acha gordo demais, magro demais, feio demais, infeliz demais, muito demais em algo que a pessoa pode nem ser e o pior: a torna alguém ruim ou feio mesmo se for!

Trailer:

A Bela e a Fera

Em 18.03.2017   Arquivado em Disney, Filmes

A Bela e a Fera, via Filmow

A Bela e a Fera (Beauty and the Beast) *****
Elenco: Emma Watson, Dan Stevens, Ewan McGregor, Ian McKellen, Emma Thompson, Luke Evans, Josh Gad, Gugu Mbatha-Raw, Kevin Kline, Nathan Mack, Audra McDonald, Hattie Morahan, Gerard Horan
Direção: Bill Condon
Gênero: Fantasia
Duração: 129 min
Ano: 2017
Classificação: Livre
Sinopse: “Moradora de uma pequena aldeia francesa, Bela (Emma Watson) tem o pai capturado pela Fera (Dan Stevens) e decide entregar sua vida ao estranho ser em troca da liberdade dele. No castelo, ela conhece objetos mágicos e descobre que a Fera é, na verdade, um príncipe que precisa de amor para voltar à forma humana.” (fonte – sinopse e pôster)

Comentários: A história todo mundo conhece, né? Bela é uma menina à frente do seu tempo, sonhadora, que gosta de ler e deseja o tempo todo poder se aventurar além das fronteiras da pequena vila onde vive com seu pai, que assim como ela é um cara diferente, um inventor inovador. Ela vive se esquivando das investidas de Gaston, o machão bonitão da região, que quer se casar com ela apenas por ser a garota mais bonita do lugar e se “fazer de difícil”, mas no fundo os dois não têm nada em comum… Um dia, indo à feira de inventores, o pai da garota dá de cara com um castelo encantado e, ao tentar pegar uma rosa que prometeu levar a ela quando voltasse, acaba sendo aprisionada pelo dono do lugar, uma fera grotesca que um dia já foi um príncipe MUITO desagradável e que sofreu essa transformação justamente por causa disso. Junto com ele moram ali os antigos funcionários do local transformados em objetos animados, e a única maneira que reverter esse feitiço é que a improvável situação onde o príncipe se apaixona e é correspondido de verdade se torne realidade. Bela, para salvar o pai, troca de lugar com ele e passa a ser não só prisioneira do local como a grande esperança de todos, já que o tempo que teriam para quebrar essa maldição está se esgotando…

Aos fãs fervorosos da animação da Disney de 1991, fica aqui o meu recado: vocês não têm NADA do que reclamar! A versão live action que saiu essa semana é uma homenagem perfeita e impecável a ele, usando até mesmo as mesmas falas do original e, claro, as mesmas músicas com as mesmas “coreografias”, porém com elementos mais realistas e algumas coisinhas a mais que vêm para complementar e até mesmo explicar certos pontos que deixavam todo mundo procurando soluções nessas últimas duas décadas como, por exemplo, por que os moradores da aldeia sequer sabiam que o príncipe existia, o que aconteceu com a feiticeira do início da história, etc… Uma coisa positiva sobre a Bela é que ela, ao contrário das outras princesas até então, não é a donzela que espera pacientemente ser salva, seja pelo príncipe ou por seus amigos: se dispõe a ficar no lugar do pai, peita a fera, foge, se recusa a abaixar a cabeça e antes mesmo de ser presa já fazia o mesmo com as pessoas que tanto falam mal dela no vilarejo e com Gaston. E aí eu sempre corro o risco de ser apedrejada ao dizer isso, mas acho a Emma Watson uma atriz beeeem mais ou menos, até fui de coração aberto para me impressionar com essa performance diante dos milhares de elogios que vi, mas não aconteceu… Nada de especial, só não foi frustrante porque tô acostumada a não gostar da atuação dela, mas para ser justa tem também o fato de que a personagem não foi tão trabalhada, é exatamente a mesma da década de 90, sem nenhuma adição legal de personalidade. Não sou de desvalorizar um filme comparando ao outro, mas é quase impossível não fazer depois depois de ter me maravilhado com Cinderela, onde eles não só trouxeram uma força INCRÍVEL pra protagonista (sem deixar de lado a meiguice) como para o relacionamento dela, o que também não rolou nesse caso, o romance se desenvolve daquele jeito de sempre, em uma semana eles vão do ódio ao amor e é isso aí, já estamos acostumados. A verdade é que para mim essa fidelidade exagerada à animação atrapalhou um pouco o andamento, até a metade achei que ficou completamente sem ritmo, felizmente melhorou depois, senão seria uma decepção enorme… Por outro lado fico me perguntando se alterações nesse sentido acabariam causando incômodo e é bem provável que sim, a verdade é que ele cumpre seu papel, então mesmo que tenha achado meio arrastado não vejo como um problema (mesmo porque tinha um grupão assistindo comigo e mais ninguém sentiu isso).

A escolha do resto do elenco foi absolutamente espetacular. “Moulin Rouge” é meu filme não-animação favorito e ainda assim eu acho o Ewan McGregor cantando nele péssimo, mas prometo nunca mais reclamar disso porque ele está BRILHANDO como Lumiére, se destacou entre os demais, e isso não é pouca coisa quando se tem Emma Tompson sendo maravilhosa e Ian McKellen idem ao lado, né? Dá vontade de ter todos eles como utensílios aqui de casa! Mas o principal mesmo, o que ganhou o filme, foi o Gaston de Luke Evans que está SEN-SA-CI-O-NAL, assim dividindo sílabas para dar intensidade real à coisa! Ele simplesmente rouba a cena, pegou um vilão meia boca e transformou numa crítica severa ao machismo que representa e, quando você para e analisa a história, é o real problema ali… Não só na imagem do brutamontes que usa seu status de macho alfa para conseguir o que quer, mas até mesmo para justificar por que a Bela se sente tão deslocada em uma cena maravilhosa onde ela é repreendida por ensinar uma garotinha a ler e vê uma de suas invenções sendo rebaixada, como também para explicar por que o príncipe/fera é a pessoa horrível que se tornou com o tempo, sendo privado de sentimentalismo por ser julgado “coisa de menina”. Eu sempre sou do “lado do bem”, mas não posso deixar de ressaltar a intensidade que o cara malvado teve e como isso é positivo para essa nova era da Disney que mostra para as garotas que elas podem ter tanto força quanto os garotos, e que continue assim! Outro personagem que foi extremamente bem trabalhado foi o LeFou, que deixou de ser o mero admirador babaca que quer ser (e ter?) seu amigo fortão para ir se desenvolvendo gradualmente, a libertação dele torna a apologia de seu nome ao termo “fool” quase desnecessária. E que bacana poder ver uma empresa que teve uma de suas atrizes de apenas 5 anos de idade passando pelo horror de ser ameaçada de morte nas redes sociais pela simples menção de personagens homossexuais em sua série colocar um gay no seu novo sucesso de bilheterias, né? Vi muitas reclamações sobre essa visão estereotipada e cômica que ele trás, mas discordo totalmente, acho que foi quem mais cresceu tanto sozinho nessa nova versão quanto se comparado ao “original”!

No mais, lágrimas e suspiros não faltaram! O visual é lindo demais, tem toda a sua magia mas também dá pra “acreditar” naquilo que você está vendo, rolou representatividade sem tirar a fidelidade… As versão das músicas ficaram ótimas, tanto nas novas vozes, que foram quase todas ótimas, como na aparência, a cena de “Be Our Guest” é INCRÍVEL e de “Beauty and the Beat” idem, claro, já que é o ponto alto do enredo. Chorei do início ao fim não só pela nostalgia, mas também pelos novos elementos que foram adicionados, como músicas da versão da Broadway e pequenos personagens que tornaram tudo ainda mais interessante. Tenho lá minhas críticas, sim, mas é o que eu disse, o objetivo do longa foi cumprido, então corram pro cinema porque tá maravilhoso!

Trailer:

Kubo e as Cordas Mágicas

Em 24.02.2017   Arquivado em Filmes

Kubo, via Filmow

Kubo e as Cordas Mágicas (Kubo and the Two Strings) *****
Elenco: Art Parkinson, Charlize Theron, Matthew McConaughey, Ralph Fiennes, Rooney Mara, Alpha Takahashi, Brenda Vaccaro, Cary-Hiroyuki Tagawa, George Takei
Direção: Travis Knight
Gênero: Animação, Aventura
Duração: 101 min
Ano: 2016
Classificação: Livre
Sinopse: “Kubo vive uma normal e tranquila vida em uma pequena vila no Japão com sua mãe. Até que um espírito vingativo do passado muda completamente sua vida, ao fazer com que todos os tipos de deuses e monstros o persigam. Agora, para sobreviver, Kubo terá de encontrar uma armadura mágica que foi usada pelo seu falecido pai, um lendário guerreiro samurai.” (fonte – sinopse e pôster)

Comentários: Quem assistiu outros filmes produzidos pelos estúdios Laika já está acostumado com o estilo: animações 3D em stop-motion imersas em um mundo de fantasia com um toque meio sombrio. Kubo e as Cordas Mágicas, indicado ao Oscar desse ano nas categorias Melhor Animação e Melhores Efetios Visuais, não poderia ter sido diferente: foi o quarto longa metragem deles e segue essa linha de misturar (bem) humor e aventura dentro de um ambiente soturno imerso lindamente na cultura japonesa.

Ainda quando bebê Kubo tem um de seus olhos arrancados pelo avô, o Rei da Lua, numa batalha onde seu pai, o guerreiro Hanzo, acaba falecendo. Sua mãe, Sariatu, para impedir que o filho perca o segundo olho, passa a morar com ele em uma caverna, onde vive oscilando entre a lucidez e o transe psicológico. O garoto, por sua vez, frequenta a vila que fica ali perto e conta histórias de forma mágica: ao tocar seu shamisen, um instrumento japonês de três cordas, os papéis que leva em sua bolsa vão formando origamis vivos que retratam as batalhas vividas por Hanzo. Durante um festival local onde os moradores se comunicam com o entes perdidos, porém, ele se atrasa ao tentar conversar com o pai, não volta ao pôr do sol como recomendado, e quase é capturado por suas duas tias do mal que querem cegá-lo de vez. Sua mãe então sacrifica sua última magia para que ele possa seguir numa busca da armadura, elmo e espada do pai para, assim, se proteger do avô. Nessa jornada ele conta com a ajuda da Macaca, um talismã que ganha vida durante o sacrifício de Sariatu, do Besouro, um guerreiro que eles encontram acidentalmente e que é um humanoide meio inseto, e do origami animado de Hanzo que o filho usa em suas apresentações.

A animação é visualmente maravilhosa, não tem outra palavra para definir! Existe uma cena durante a jornada do trio em que o garoto cria com sua música um barco usando folhas de árvores e é de tirar o fôlego, eu particularmente não consigo imagina COMO alguém conseguiu produzir algo grandioso assim em stop-motion, sério. O cenário, personagens e efeitos são todos muito bonitos, é engraçado porque não ouvi falar tanto sobre esse filme, mesmo se tratando da obra de um estúdio que tem feitos muito aplaudidos, como é o caso de Coraline. A busca de Kubo pelos artefatos do pai contando com o que foi deixado pela mãe é super tocante, um drama familiar carregado de descobertas e auto conhecimento, e a tensão é sempre quebrada na hora certa com uma dose de humor trazido geralmente pelos seus companheiros de viagem, que são geniais! A Macaca é, de longe, a figura mais forte, carismática e bem trabalhada do filme, foi minha personagem favorita. A presença da cultura japonesa é outro forte, conseguiram fazer um tributo sem precisar forçar a barra ou soar ofensivo. Já o ponto fraco para mim foi o clímax, apesar de gostar bastante do conflito final e de como ele tem seu ápice, achei que algumas coisas ficaram meio “soltas”, não sei se fui eu que não consegui captar e não prejudica em nada realmente, mas senti que não ficou tão claro quem era REALMENTE aquele vilão tão falado desde o início, as tias macabras cobertas por máscaras davam muito mais medo quado apareciam… Por outro lado adorei como a magia é mostarda de forma natural, não precisa de uma introdução ou explicação de como aquela família tem os poderes que tem, eles simplesmente estão ali para ser usados e bem aceitos por todos, é diferente do que estou acostumada a ver, geralmente os heróis precisam esconder esse tipo de coisa ou lutar para que os outros aceitem, mas nesse caso são outros aspectos muito maiores que são trabalhados sem precisar “perder tempo” com isso. E, desculpem falar mas também não tem como evitar, que LIÇÃO é o final, viu… Que lição!!!

A trilha sonora também é super gostosa, toda instrumental nesse clima nipônico do shamisen, e pra fechar com chave de ouro os créditos finais ainda contam com uma versão LINDA de “While My Guitar Gently Weeps” (do George Harrison), que eu particularmente já adoro, cantada pela Regina Spektor. Vale a pena procurar porque é daquelas que dá vontade de ouvir e ouvir várias vezes sem parar, ficou absolutamente perfeito! Dá pra conferir um pouquinho (e mais informações no geral) no site oficial do filme.

Trailer:

She’s Beautiful When She’s Angry

Em 27.12.2016   Arquivado em Feminismo, Filmes

She's Beautiful When She's Angry, via Filmow

She’s Beautiful When She’s Angry *****
Direção: Mary Dore
Gênero: Documentário
Duração: 92 min
Ano: 2014
Classificação: 14 anos
Sinopse: “Conta a história das mulheres que criaram o movimento feminista nos anos 1960, fazendo uma revolução em todos os âmbitos sociais.” (fonte – sinopse e pôster)

Comentários: A primeira vez que ouvi falar sobre o movimento feminista onde o assunto realmente me chamou atenção foi através da minha mãe enquanto a gente assistia “The Wonders” pela milésima vez. Eu tinha uns 16 anos e falei que achava feio as dançarinas com os mamilos “marcando” na roupa, ela veio e me explicou o contexto, que houve a queima em massa de sutiãs em busca de direitos iguais, e apesar de continuar achando não achando bonito a presença daquelas meninas ali mudou de sentido na minha cabeça COMPLETAMENTE e eu passei a adorar a dancinha delas. Mas a história estava só começando… Sete ou oito anos precisaram se passar para eu começar a realmente entender do que aquilo tudo se tratava e o principal: perceber e admitir que eu fazia parte. Foi devagar, primeiro uns compartilhamentos no Facebook, depois uns posts por lá e por aqui, a perda total do medo de usar as palavras que marcam o movimento e, claro, a necessidade de ler e assistir mais sobre o assunto. E é aí que entra “She’s Beautiful When She’s Angry”, que está disponível na Netflix e conta um pouquinho sobre como a coisa se intensificou nos Estados Unidos justamente no período do qual minha mãe tinha me contado um pouquinho.

Sabe quando você tá lendo alguma postagem sobre feminismo e SEMPRE tem aquele(s) comentário(s) que diz(em) “Antes eu até entendo, as mulheres queriam seus direitos, mas as feminazis hoje em dia só querem privilégios e aparecer”? Pois é, as pessoas já diziam isso na época. Sabe quando as próprias mulheres reproduzem o machismo dizendo que se sentem bem com o que já têm e não entendem por que as outras querem mais? Sim, desde então muitas já davam esse tipo de entrevista. Sabe quando algum jornalista é MUITO babaca e fala merda na televisão pra todo mundo ver e ainda assim mantém seu emprego, não importa o quão misógino ele foi? Bom, nem preciso dizer que isso também sempre esteve presente, né! Esse documentários é FUNDAMENTAL pra entender do que se trata e ver que não importa o quanto as coisas melhorem pra gente, ainda temos um longo caminho pela frente até atingir a equidade de gêneros. É um mix de sentimentos, ao mesmo tempo que você quer gritar um “MUITO OBRIGADA” para cada uma delas pela vida melhor que temos hoje, é triste ver que muita coisa não mudou e ainda vai demorar pra mudar, e é por isso que a gente não deve NUNCA se calar diante do machismo nosso de cada dia!

Nele nós vemos relatos vindo direto das ativistas da época que ressaltam as dificuldades, prazeres, conquistas e até mesmo erros de cada etapa e organização que ia surgindo, a necessidade inacabável da representatividade e lugar de fala, chegando a causar até “brigas pelo protagonismo”: elas foram caladas por tanto tempo que não conseguiam ser ouvidas quando falavam em tom de voz normal ou mesmo gritando, e aí era preciso BERRAR, caminhar, reunir, queimar… O que eu mais gostei nele, porém, foi que alguns relatos me deram mais oportunidade de sair da minha “zona de conforto” feminista classe-média-branca-cis-hétero-com-curso-superior e ver que ali já começavam a nascer também algumas “diretrizes” que até hoje não têm muito espaço, como o feminismo negro e lésbico… Sempre que leio algum texto sobre esses assuntos tem alguém que está do “lado privilegiado” comentando que se sentiu ofendida, e confesso que já me senti muito também, mas é só abrir um pouquinho a mente que a gente vê que esse “ofensa” é a mesma que muitos homens sentem quando vêem que nós mulheres queremos ser tratadas como pessoas que somos, e não como seres inferiores, então é sempre bom entender que cada um tem lado oprimido, mas também seu lado “opressor” e ajudar a dar a voz pra quem tem mais “sacos de batata de opressão” nas costas poder colocar esse peso pra fora…

Eles têm também um site super legal que conta com informações sobre a tragetória de cada uma das entrevistadas, o trabalho da diretora, fontes de informação, uma lojinha virtual, links das redes sociais e, claro, divulgação de onde o filme pode ser assistido, acessem lá para poder se maravilhar com ele tanto quanto eu: shesbeautifulwhenshesangry.com!

Trailer:

“A Garota no Trem”, relacionamentos abusivos e gaslighting

Em 09.12.2016   Arquivado em Feminismo, Filmes

A Garota no Trem, via Filmow

A Garota do Trem (The Girl In The Train) *****
Elenco: Emily Blunt, Haley Bennett, Justin Theroux, Luke Evans, Rebecca Ferguson, Allison Janney, Darren Goldstein, Edgar Ramirez, Gregory Morley, Laura Prepon, Lisa Kudrow, Ross Gibby
Direção: Tate Taylor
Gênero: Mistério
Duração: 112 min
Ano: 2016
Classificação: 14 anos
Sinopse: “Rachel (Emily Blunt), uma alcoólatra desempregada e deprimida, sofre pelo seu divórcio recente. Todas as manhãs ela viaja de trem de Ashbury a Londres, fantasiando sobre a vida de um jovem casal que vigia pela janela. Certo dia ela testemunha uma cena chocante e mais tarde descobre que a mulher está desaparecida. Inquieta, Rachel recorre a polícia e se vê completamente envolvida no mistério.” (fonte – sinopse e pôster)

Comentários: Antes de mais nada gostaria de dizer que nunca li o livro no qual o filme é adaptado e que quando fui ao cinema (graças a um ingresso que ganhei) não sabia 100% do que se tratava, só tinha lido a sinopse mesmo, então não posso dizer se é uma boa adaptação e sequer se a temática das duas mídias é igual, mas de certa forma assisti-lo foi uma surpresa MUITO positiva porque gerou reflexões maravilhosas e me deu exemplos claros de pautas que muita gente que conheço não consegue enxergar, mas estou me adiantando. Vamos falar sobre a experiência primeiro, depois falamos do que ela gerou.

A história gira em torno de três mulheres: Anna é casada com o ex marido de Rachel, com quem tem uma filha, e Megan é a babá da criança. Desde a separação, que aconteceu por causa de seu alcoolismo, Rachel viaja todos os dias num trem que passa por sua antiga vizinhança, e para evitar olhar para a casa onde vivia observa a vida aparentemente feliz de Megan, que envolve muito carinho (e sexo) com seu marido, até que um dia dá de cara com uma cena que a deixa chocada: a garota está com um homem diferente. Desconcertada com isso e muito bêbada, ela vai até o local, tem um apagão e mais tarde descobre que Megan desapareceu, e por estar sempre “perseguindo” seu ex ela se torna suspeita, já que a vítima trabalha pra ele. A partir daí ela tem que tentar se manter sóbria pra descobrir o que aconteceu, quem causou e até que ponto está envolvida nisso. É um filme de suspense que mexe MUITO com o psicológico e emocional e tem um elenco ótimo e mega convincente, protagonizado pela MARAVILHOSA da Emily Blunt. Você vai conhecendo mais da história de cada uma delas, entendendo seus dramas e dilemas e cada hora suspeita de uma coisa que vai ser desconstruída logo em seguida (ou não).

A partir daqui esse post tem revelações sobre o enredo e, apesar de eu não falar o desfecho do filme, acho que vai dar pra sacar se ler o que tenho a dizer. Se você abomina spoiler sobre todas as coisas, não recomendo a leitura (mas salva pra depois que ver que é legal!), mas se já assistiu ou quer já fazer isso com olhar crítico e não focado no mistério, vão ‘bora!

E aí temos essa relação de três mulheres aparentemente problemáticas com três homens “misteriosos”: Tom, ex marido de Rachel e atual de Anna, Scott e Kamal Abdic, marido e terapeuta de Megan, respectivamente, e é a presença deles que nos dá exemplos claros de dois assuntos que estão dando o que falar na internet, finalmente: relacionamentos abusivos e gaslighting. O primeiro está explícito desde o momento em que conhecemos Megan durante suas sessões de terapia, ela permanece com Scott mesmo sem vontade nenhuma, mesmo tendo sua vida completamente controlada, quase como forma de auto punição pelos seus erros do passado, e só consegue se abrir para Abdic, com quem tenta ter um caso loucamente. Ele é tão absurdo que após o desaparecimento esse comportamento agressivo acaba sendo “transportado” pra coitada da Rachel que entra em contato tentando ajudar, no final das contas a gente vê que não importa os erros da pessoa, ninguém merece ser tratado assim. Inclusive muito do que rola na vida da Megan (e que acaba causando seu fim trágico) poderia ter sido evitado desde o início da parte difícil da sua história se ela tivesse tido apoio pra melhorar e sentir menos culpa pelo que passou. E aí vamos pra parte 2, mas antes um “momentinho Wikipedia” básico:

Gaslighting ou gas-lighting é uma forma de abuso psicológico no qual informações são distorcidas, seletivamente omitidas para favorecer o abusador ou simplesmente inventadas com a intenção de fazer a vítima duvidar de sua própria memória, percepção e sanidade. Casos de gaslighting podem variar da simples negação por parte do agressor de que incidentes abusivos anteriores já ocorreram, até a realização de eventos bizarros pelo abusador com a intenção de desorientar a vítima. (fonte)

Essa é a essência do filme, se você quer entender como isso funciona PRECISA assistir porque é assustador de tão claro. Rachel se tornou alcoólatra durante seu casamento e desde então tem lembranças horríveis de seu próprio comportamento, TODAS elas vindas de Tom, já que ela não lembra de nada. Após a separação ela claramente persegue a nova esposa de seu ex e a filha deles, tornando-se uma ameaça pra tranquilidade de Anna. As duas vêem uma inimiga na outra e a coisa é tão absurda que você, assistindo ao filme, também acredita que é isso que elas são! Meus comentários variavam de “louca” e “que burra” a “aposto que a culpa é dela”, até o momento extremamente esclarecedor em que você percebe que por trás disso tudo tem o gostosão babaca manipulando TUDO. Ele conseguiu convencer a primeira de que ela é mentalmente instável e culpada pelo fim do casamento, passou esse pensamento pra segunda e quando a coisa apertou mudou TUDO fazendo com que as duas se achassem malucas e neuróticas! A cena mais maravilhosa de todas que exemplifica isso: a confusão do desaparecimento de Megan leva Rachel à vizinhança (mesmo que a tenham alertado pra não fazer isso) e ela cruza com Anna na rua sem ter reações, só “olho no olho” e continua andando. Mais tarde Anna conta isso pro marido dizendo que rolou “comportamento agressivo” e ele manda largar pra lá e deixar a coitada em paz, o que faz a mulher ter SAUDADES da época que era amante dele. Nesse momento a gente pensa “Ai que mentirosa nojenta!”, mas tudo vai se encaixando quando ambas têm um “click” de sanidade (que sempre esteve lá) e percebem as ligações falsas, o ciclo vicioso de transformar a mulher em errada pra justificar a amante e o aproveitamento da fragilidade da pessoa para piorar tudo pra ela, outra característica super forte do abuso. Tudo isso, claro, intensificado por essa mania quase natural que nossa sociedade tem de SEMPRE colocar as mulheres umas contra as outras, enquanto na verdade a gente tinha era que estar dando as mãos e se ajudando para impedir que isso aconteça com qualquer uma de nós. Obrigada aos meninos d’A Estante dos Gêmeos pela chance de assistir esse thriller que pela sinopse não me interessaria tanto, mas no fim das contas era EXATAMENTE o tipo de coisa que eu busco ver e quero recomendar pra galera!

Trailer:

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