Categoria "Escrevendo"

Crossover

Em 09.09.2016   Arquivado em Escrevendo

Branca de Neve permanecia deitada em seu esquife de cristal, sem qualquer consciência do que havia acontecido consigo mesma, simplesmente adormecida. Não havia nada em sua cabeça, nenhum sonho ou resquício de imaginação, pois a magia que havia na maçã envenenada que tinha comido a poupava desse tipo de atividade, fosse ela funcionar como alento ou tormento. Ela não sabia que seus amigos fiéis estavam ao seu redor, esperando pacientemente pelo momento que ela despertasse daquele estágio de estupor, cuidando para que ficasse tudo bem até lá. Não sabia também (e seus amigos suspeitavam, mas não tinham certeza), que era preciso que um “príncipe encantado” finalmente desbravasse a floresta que havia ao seu redor para acordá-la com seu ato de amor verdadeiro, mas isso não solucionava realmente seus problemas, já que ninguém sabia quem era. Todos tinham seus palpites e torciam para ele surgisse logo, mas naquele momento especulações não eram o suficiente diante do baque com o qual estavam tendo que conviver. Ela havia sido amaldiçoada para que outras pessoas pudessem ter seu próprio final feliz e agora tinha que arcar com as consequências disso e permanecer apenas existindo

Ao mesmo tempo, não sabemos muito bem se perto ou longe dali, havia outra Bela Adormecida, presa num sono também causado pelas suas próprias injustiças, sua própria inimiga que não podia aceitar que ela fosse quem era. E para aquela princesa também havia um príncipe onde residia a esperança de se livrar da sua maldição. Foi definido desde sempre que um estava destinado ao outro, ele sabia que era sua função encontrá-la e por isso cavalgava na direção indicada, sempre focado em fazer aquela relação dos sonhos dar certo, sem nem ao menos olhar para os lados. E no meio de sua viagem, num daqueles tropeços do destino para os quais a vida nos empurra, acabou cruzando o caminho daqueles anões que viram nele a esperança pelo qual tanto aguardavam: o fim dos dias regados a lágrimas e silêncio. Dentro do caixão os lábios rubros como a rosa pareciam formar um sorriso, como se seu corpo inconsciente já reagisse à possibilidade maravilhosa que estava ali em sua frente. O príncipe analisava bem a situação em que havia se colocado e sabia que poderia (quem sabe?) salvar a menina, mas e se funcionasse? E se descobrisse que ela era o amor de sua vida, e não a outra com a qual ele sempre havia imaginado? Será que valia a pena arriscar, mesmo que isso fosse mudar completamente o rumo das duas histórias?

Sem coragem para agir, ele se desculpou e continuou incansavelmente o trajeto sem fim rumo à incômoda zona de conforto, à princesa com a qual esperava ser feliz, sem saber se era mesmo possível. Deixou Branca de Neve para trás e nunca descobriu se aquele beijo teria funcionado, fazendo com que a garota continuasse fora de si esperando por quem, finalmente, viesse salvá-la daquela realidade, defendê-la dos males que tanto a atormentavam sem que ela sequer tivesse ciência deles…

Crossover

Esse post foi MAIS OU MENOS inspirado na proposta #4 do Creative Writing Prompts, que oferece mais de trezentas ideias legais para desenvolver sua escrita criativa. É o 10º entre os 25 que me propus a escrever até outubro de 2018.

Arvorezinhas Comestíveis

Em 26.08.2016   Arquivado em Escrevendo

Arvorezinhas Comestíveis
Imaginem uma pessoa que gosta tanto de brócolis que tem até em miniatura pras bonecas…

Quando criança eu gostava de montar meu prato criando uma floresta: o feijão era um rio, o arroz as pedras que ficavam ali na beirada e por aí vai. Obviamente, então, era uma alegria pessoal quando tinha couve flor no almoço, porque assim meu cenário estava completo com direito até a árvores! Ai, eu dedicava tanto tempo organizando cada coisa em seu lugar que devia dar até agonia em quem assistia, mas depois comia tudo direitinho sem reclamar, então tava tudo certo. Até que um belo dia quando chegaram minhas arvorezinhas comestíveis percebi que estavam um pouco diferente do normal, bem super verdinhas e um pouquinho mais magras, mas imaginei que fosse um tipo diferente e mandei ver. E foi só quando eu comi que descobri que não era a mesma coisa, não podia ser, porque couve flor era bom, mas aquilo ali… Aquilo era ainda melhor, era maravilhoso!

Engraçado como a gente nem percebe o quanto gosta de uma coisa às vezes, né? Eu acho que aquela nem era a primeira vez que eu comia brócolis na vida, mas lembro muito desse dia e sei que, depois dele, eu sabia que gostava, simplesmente. Com o tempo, porém, eu fui amando devagarzinho… Sempre que ia almoçar fora ele estava no meu prato, quando era servido dentro de casa a refeição era uma alegria, com certeza! Já bem mais velha, na época do faculdade em que eu e uma amiga almoçávamos no mesmo restaurante perto do estágio toda quarta feira, ela comentou com uma colega nossa que se tinham duas coisas que eu comia todos os dias SEM FALTA era isso (e batata). E aí quando tive que fazer uma lista dos meus 5 alimentos favoritos no blog para um desafio semanal que participei, sei lá, eu me dei conta que devia colocar minhas “arvorezinhas” queridas na lista, que elas eram importantes o suficiente para isso. Alguns amigos riram, ficaram admirados e tudo mais, mas é verdade: eu sou mais feliz quando como primeiro a parte de cima e deixo o cabinho por último, porque é o mais gostoso. Quando alguém que nem sabe dessa paixão toda cozinha pra mim (ou pra quem mais estiver ali), ou mesmo quando é alguém que sabe disso! Sou mais feliz quando vamos no nosso restaurante japonês favorito de todos e tem a opção de sushi de brócolis. Sou mais feliz quando abro a caixa de miniaturas das minhas bonecas e lembro que tenho um re-mentzinho pra elas também poderem “comer”. Sou mais feliz com brócolis!

Esse post foi inspirado na proposta #79 do Creative Writing Prompts, que oferece mais de trezentas ideias legais para desenvolver sua escrita criativa. É o entre os 25 que me propus a escrever até outubro de 2018.

BEDA2016

Dia Chuvoso

Em 19.08.2016   Arquivado em Escrevendo

Dia Chuvoso

Apoiada na janela, sem saber se é uma boa posição, sentada com o olhar vago. Não há ninguém para se olhar, observar, analisar, estudar ou qualquer outro verbo que poderia se encaixar nesse momento. Ninguém e nada, apenas as partículas que caem do céu.

Ela começam devagar, a gente só percebe que estão vindo pelo cheiro característico que fica no ar, pelo vento forte que sacode tudo que existe ao seu redor, até que começa a engrossar, o chuvisco se torna tempestade e assim permanece até conseguir se conter e virar um chuvisco de novo. E enquanto ela cai não há nada melhor do que permanecer ali, apenar vendo aquilo acontecer. Os pingos batem no vidro e por ali escorregam, deixando seu rastro, encontrando um no outro para acelerar o caminho até, enfim, chegar no final e sumir. Gotas viram uma poça e a poça depois evapora para, alguns dias depois, virar uma gota de novo. E quando isso acontecer é só voltar para a janela para admirar esse processo mais uma vez, todas as vezes. incansavelmente!

Esse post foi inspirado na proposta #82 do Creative Writing Prompts, que oferece mais de trezentas ideias legais para desenvolver sua escrita criativa. É o entre os 25 que me propus a escrever até outubro de 2018 e tive apenas 5 minutos para escrevê-lo, um baita desafio!

BEDA2016

Extraordinariamente

Em 12.08.2016   Arquivado em Escrevendo, Leitura

Ex.tra.or.di.ná.rio; adjetivo: 1. fora do comum; 2. adicional, suplementar; 3. admirável, espantoso, grandioso. Acontecimento imprevisto ou inesperado. (fonte)

Extraordinariamente

A primeira vez que assisti ao booktrailer, em plena Turnê Intrínseca, foi em 2013 e minha reação foi a que todos já esperariam de mim: eu chorei. Um ano depois no mesmo evento foi reproduzido mais uma vez e chorei de novo, e aí percebi que precisava finalmente ler aquele livro que já me arrancava lágrimas antecipadas. Foi o que eu fiz e desde então posso dizer que, de certa forma, é meu livro favorito (Potter doesn’t count). Uma aula de empatia, humanidade, sensibilidade e, acima de tudo, gentileza: é assim que podemos definir Extraordinário, de R.J. Palacio, cujo título se refere ao personagem, mas poderia ser também à história, não existe classificação melhor!

August Pullman tem 10 anos, é viciado em Star Wars, adora jogar video game, vive com seus pais, irmã mais velha e uma cachorrinha de estimação. Ele também tem uma deformação craniofacial que o fez passar por diversas cirurgias ao longo de sua vida, impedindo que ele vá para a escola… Pelo menos até agora! Ser o aluno novo já é difícil, entrar na segunda fase do ensino fundamental também, mas tudo se torna muito mais impactante quando você tem um rosto tão diferente. Auggie é uma pessoa que causa reações fortes, sempre, mas nem todas são ruins: quanto mais as pessoas se abrem para ele, mais elas percebem a influência positiva que essa história pode trazer em suas vidas. Isso já é de conhecimento de Via, sua irmã igualmente extraordinária, e acaba sendo também daqueles que estão ao seu redor, como Summer, Jack, Justin… E de cada leitor que embarca junto com eles nas palavras de Palacio. Eu tornaria essa leitura obrigatória em toda e qualquer turma de escola que contenha crianças da faixa etária dele, e recomendo para todo mundo, de não importa a idade. Através de momento do cotidiano, preceitos e muitos lágrimas você termina a última página aprendendo que vale a pena ser escolher ser gentil sempre, e acima de todas as coisas!

Extraordinariamente

Esse post foi inspirado na proposta #31 do Creative Writing Prompts, que oferece mais de trezentas ideias legais para desenvolver sua escrita criativa. É o entre os 25 que me propus a escrever até outubro de 2018 e nesse eu simplesmente tinha que falar sobre um objeto azul.

BEDA2016

Quando deixei ela ir…

Em 05.08.2016   Arquivado em Escrevendo

Quando deixei ela ir...

Existem duas raças de cachorro pelas quais sou completamente apaixonada, daquelas que me fazem morrer de amores com muita força, mesmo que no geral eu não dê a mínima pra isso. A grande favorita é basset hound, que eu terei um dia, e a segunda dachshund, também conhecido como “basset” ou mesmo “salsicha”. Esse amor todo nasceu por causa da Pankeka, nossa bassetzinha que foi o melhor cachorro do mundo por 11 anos da nossa vida, e desde que ela morreu eu queria uma nova, dessa vez pretinha ao invés de ruiva, pra poder se tornar minha melhor amiga de todos os tempos. E foi em 2009 que eu ganhei a Peggy, seguindo a tradição da família (que já não existe mais) de cachorros com nomes começados com P, era a “coisa” certa que devia acontecer na minha vida, mas infelizmente veio na hora errada.

Os primeiros dias foram incríveis. Ela era quietinha e amorosa, tão diferente do que eu esperava de uma raça tipicamente caçadora, fez amizade com a Pakita logo de cara, as duas se davam super bem, eu não podia estar mais feliz. Até que descobrimos que toda aquela manha era porque ela estava doente, então com a maior dor do mundo no coração internamos minha bebê. Assim que ela voltou eu percebi que já sabia que eu era a “mamãe” dela, veio correndo pra mim toda feliz e bagunceira, e foi assim que ela continuou nos dias seguintes, causando todos os problemas que nem sei se estavam ali de verdade. A versão curada da Peggy era o demônio, mas só quando eu estava perto. Fim de semestre, eu passava o dia inteiro na faculdade e no estágio, cheia de coisa pra fazer, enquanto ela ficava quietinho dentro de casa, só esperando. E assim que eu chegava o amor gigantesco que minha cachorrinha tinha por mim virava meu inferno pessoal: ela corria sem parar, queria brincar, mastigava tudo o que via pela frente pra chamar minha atenção, destruía meus cadarços, passava a noite uivando na minha cabeça, pulava na minha mão pra dar as piores mordidas de carinho do mundo, agarrava sem dó ia puxando, não soltava até perder o fôlego. Tudo isso combinado com o fato de que a gente tinha acabado de sair de uma casa grande com quintal e tivemos que enfrentar a realidade de dois cachorros em um “apertamento”, eu acordava de manhã exausta só de pensar no novo dia sempre com uma bagunça dela pra arrumar. Eu tinha que fazer meus trabalhos, estudar pras minhas provas e só o que conseguia sentir era que ela me odiava profundamente por não me deixar fazer nada daquilo, quando na verdade era o oposto, ela estava só sendo um cachorrinho feliz em me ter ao seu lado. E aí não deu mais, pra nenhuma de nós. No meio do meu desespero e crises de choro sem sentido, sem perceber o que estava fazendo, conversei com uns colegas do trabalho e um deles (e eu poderia dizer até “o melhor deles”) aceitou com a maior alegria do mundo ficar com ela. E foi quando eu deixei ela ir.

O último momento como “mãe e filha” foi terrível. Assim que ela viu que tava indo embora olhou pra mim com a cara mais triste que já vi na vida e eu usei todas as minhas forças pra esperar eles estarem longe e começar a chorar. Mas então eu consegui terminar meu semestre em paz e foi possível sobreviver no nosso novo lar só com nossa Pakitinha e suas bagunças inofensivas. A Peggy cresceu bem maluca, como esperado, mas LINDA, saudável e completamente apaixonada pelo papai dela, e o sentimento foi recíproco desde o começo. Desde sempre eu fui e sempre serei contra fazer o que eu fiz, mas na primeira vez que vi os dois juntos numa foto soube que foi melhor assim. No final tudo deu certo e eu juro, juradinho mesmo, que é algo que não vai acontecer mais, cachorros serão pra mim o que merecem ser: uma decisão fácil, maravilhosa, não o contrário… Porque essa definitivamente foi a mais difícil que já tive que encarar, de todas.

Antes de mais nada preciso dizer o quanto esse post me causa aperto no coração, pois nesse sábado, dia 30 de julho, nossa Pakita infelizmente morreu, e agora existe um vazio gigantesco aqui em casa e na nossa vida… A ideia de fazer essa “homenagem” à Peggy, porém, foi inspirado na proposta #25 do Creative Writing Prompts, que oferece mais de trezentas ideias legais para desenvolver sua escrita criativa. É o entre os 25 que me propus a escrever até outubro de 2018 e dessa vez tive que falar sobre uma das decisões mais difíceis que já tive que tomar.

BEDA2016

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