Categoria "Escrevendo"

Sobre o que é família (I)

Em 15.05.2018   Arquivado em Escrevendo

Quinze de maio é o Dia Internacional da Família, e eu não sabia disso até ver um artigo sobre o assunto na minha timeline do Twitter hoje de manhã. Acho engraçado em como a gente comemora os dias de várias pessoas que fazem parte da família, mas não ela em si… Pra mim faria mais sentido, sabe? Porque nem sempre famílias são constituídas de todos esses membros que são tão comercialmente aclamados… Às vezes até por nenhum deles. Mas estou me precipitando sobre um assunto que será a parte II dessa reflexão. Por enquanto eu gostaria de mostrar algumas famílias pra vocês nesse dia que devia ser tão especial.

Sobre o que é família

Essa foto foi tirada em 1997. Nela vemos meus pais, João e Valéria carregando eu e Daninha, minha irmã mais nova. Meus pais foram casados por 18 anos, até que se separaram quando eu tinha 16. No início não tava tudo bem, mas depois ficou, sabe? Até melhor! Essas coisas da vida que parecem que serão um problema e na verdade são a solução. Desde então eu e minha irmã já moramos com a mamãe, depois com o papai, depois com a mamãe de novo. Nós quatro éramos uma família, agora somos duas diferentes. Ainda assim: família.

Sobre o que é família

Agora vou apresentar outras quatro pessoas: Marcelo, Rodrigo, Rosana e Patrícia. Assim como meus pais, Rosana e Marcelo se casaram mais ou menos na mesma época. Eles tiveram seus dois filhos nos mesmos anos, 90 e 95, com pouquíssimos meses de diferença. Esses filhos, inclusive, estudaram na mesma sala de aula em alguns momentos da vida! Mas, ao contrário dos meus pais, eles permanecem casados. O que é ótimo! De verdade! Sabe por que? Porque os quatro são uma família.

A Pati é nossa amiga há 20 anos. Na verdade ela é mais que nossa amiga: é nossa terceira irmã. Toda “coisa de irmã” que existe eu e Daninha adicionamos a Pati, como se não houvesse a diferença do sangue. Temos um grupo de Whatsapp onde todos os problemas e alegrias de qualquer uma de nós vai parar em algum momento. Se eu me casar um dia, mesmo do modo nada tradicional como pretendo fazer, elas serão minhas “madrinhas” com o mesmo grau de importância. Pati é da nossa família, e nós somos da família dela.

Sobre o que é família

Agora falaremos de Ernani. Na primeira foto Ernani está com sua mãe, Eneida (e suas gatas!), e na segunda com sua avó, Esther. Seu pai morreu quando ele era um bebezinho, então as duas o criaram juntas, os três com essa tradiçãozinha fofa de ter o nome começado com “E”. E os três são, é claro, uma família. Além disso Ernani namora, há mais de um ano, com a Daninha. Então é óbvio que se tratando de família, ele também é da nossa.

Sobre o que é família

Eu tenho várias pessoas com as quais não tenho grau de parentesco que são família, e algumas delas sequer são pessoas. Nessa nova foto, por exemplo, estou deitada com a Arwen, minha gata. Eu não serei hipócrita a ponto de dizer que criar uma gata é o mesmo que criar uma criança, porque não é. Esse é o motivo, inclusive, pelo qual adotei uma gata e não uma criança, algo que pretendo fazer um dia. Mas ainda assim eu considero Arwen minha filha, e de certa forma ela me considera “mamãe” dela também. É pra mim que ela corre quando tem fome, sede ou se sente sozinha. Quando eu chego em casa, ela sempre está do outro lado da porta me esperando. Outro dia ela achou que eu tinha saído de casa sem avisá-la ao não me achar no (nosso) quarto e correu pra minha mãe, chorando, como se perguntasse onde eu estava… E quando minha mãe mostrou a ela onde, ela correu de alegria ronronando até mim.

Arwen, a gata, e eu somos uma família.

Sobre o que é família

Imagem via Today

Por fim temos mais um grupo de quatro pessoas: Reginald, Zachary, Elijah e David. Reginald é conhecido mundialmente sob o nome artístico de Elton John. Mais de uma vez Elton tentou adotar crianças para ter filhos em sua família, e mais de uma vez foi recusado. Um desses garotinhos, inclusive, tinha AIDS. Após essas tentativas serem negadas ele e David, com quem mantém um relacionamento há 23 anos, resolveram ter filhos biológicos através de inseminação artificial com uma barriga de aluguel. Eles não sabem qual dos dois é o pai biológico dos garotos e isso, de fato, pouco importa. Porque esses dois homens e seus dois filhos são, é claro, uma família.

Existem famílias biológicas, “tradicionais”, monoparentais, comunitárias até mesmo uma que é considerada a “Sagrada Família”. Imagino que a maioria delas possui laços de sangue. Em algumas as pessoas decidiram ter filhos, em outras não. Temos aquelas que escolhem ter animais de estimação, já outras não querem ou mesmo não podem. Tem aqueles que são filhos só de um dos lados casal, mas que se torna parte da vida do outro também. E existem pessoas que gostam de ditar como devem ser as famílias de outras pessoas. Que não permitem um cantor milionário dar uma vida incrível a uma criança que não tem nada pelo simples fato de que ele é apaixonado por outro homem. Ou que acham que o fato de essa união não conseguir (ou mesmo decidir!) se reproduzir invalida o conceito de família. Alguns, inclusive, apoiaram um estatuto que vai contra esse amor de outras pessoas. Vai entender, né? Aparentemente a família que não nasce da união de um homem e uma mulher fere a estrutura básica da sociedade, que merece especial proteção.

Bom, pra mim, o que fere a estrutura da sociedade é mente fechada dessas pessoas e família é quem a gente considera assim. E pra você, o que é?

Elefante Cor de Rosa

Em 27.04.2018   Arquivado em Escrevendo

Sabe aquele bichinho de pelúcia que muita gente tem desde pequenininho, que dorme juntinho sempre e leva pra onde for? Aquele que é quase uma marca registrada quando criança e, à medida que vai se tornando adulto a pessoa passa a ouvir o questionamento “Você ainda dorme com isso?”? Que os parentes até sabem o nome que lhe foi dado?

Pois é. Inicialmente eu não tive um desses. Ou então devo dizer que tinha muitos, o que no fim das contas é a mesma coisa de nem ter, de qualquer forma.

Rolaram VÁRIOS bichos de pelúcia favoritos pra isso, e até algumas bonecas, mas nenhum deles era “o escolhido”. Por muito tempo foi aleatório, o que tava agradando mais no momento, o que era mais acessível, sei lá. E isso continuou além da infância, entrou na adolescência e foi AÍ que a magia aconteceu. No meu aniversário de 16 anos eu fui presenteada pelo meu grupo de amigas do colégio com um cartão da Hello Kitty com “10 Coisas Que Amamos Em Você” e ela, minha nova e definitiva companheira… Cherry Pink, a elefante cor de rosa!

Também conhecida como “a elefofa mais fofofanta do mundo”!

Elefante Cor de Rosa

Foto: Luly 16 e a elefofa recém ganhada em 10 de julho de 2006!

Eu tinha decidido chamá-la de “Amora”, já que era assim que apelidava essas amigas, às vezes. Uma delas não gostou porque chamava a própria prima desse jeito, então não deu… A outra sugeriu “Cherie”, porque achava que eu combinava com a vibe francesa e tudo mais. Aí gostei mas mudei pra “Cherry”, porque cereja era uma das minhas frutas favoritas! Pronto, Cherry, que desde então divide comigo noites de sono e insônia que nem se eu quisesse conseguiria contar. Cherry, o início de um amor que não dá mais pra negar.

Leia também: Elephant Parade em Belo Horizonte

Porque a partir daí eu me tornei uma apaixonada por elefantes!

Foi uma paixão dessas que surge devagarzinho… Quando eu ia no zoológicoos fotografava cheia de afeto, passando mais tempo naquela grade do que em qualquer outra do local. Comecei uma coleção de Dumbos por aqui, alimentada por algumas amigas, depois que comprei uma das minhas Fashion Dolls numa edição vestida do personagem. Meses se passaram, anos também, escrevi histórias onde eu os coloquei… Primeiro como coadjuvantes, depois como capa! Aí chegamos naquele ponto onde o favoritismo foi gravado para sempre: minha primeira tatuagem foi, afinal, um elefante no pulso!

Já falei aqui mil vezes, mas não custa repetir: me identifico com eles! Eu, apesar de pequena – tão diferente desses gigantes – também sou dramática e muito sensível! Tento ao máximo ser empática e adoro viver… “Em manada”. Acho um MÁXIMO que sejam uma sociedade matriarcal e tento sempre admirar as fêmeas de um modo geral, tanto entre humanos quanto no reino animal. Meio que temos tudo a ver. E que bom que isso surgiu com ela, a pelúcia cor de rosa não tão brilhante quando antes, mas que recebeu milhares de lágrimas de tristeza e alegria enquanto abraçada, sorrisos e risadas enquanto estava ali do lado, mordidas e carinhos da sua “irmã” felina, Arwen. Já ganhei alguns outros da mesa cor, de pessoas igualmente queridas que sabem do meu amor, mas Cherry… Ela é primeira, eterna, ela é única!

Esse texto é resultado do Desafio Surpresa United Blogs, literalmente uma surpresa! Foi perguntado “Se você tivesse que criar um nome pro seu blog com base no objeto que está a sua direita neste momento, como seria?” e depois todo mundo descobriu que estava desafiado a escrever um post tendo como título o que havia respondido. E o meu foi “Elefante cor de rosa” porque, como sempre, o que estava mais perto à minha direta era a própria Cherry!

Pequenos prazeres da vida, de novo!

Em 15.01.2018   Arquivado em Escrevendo

Coca Cola é uma coisa que vem sempre trazendo prazeres na minha vida a cada golinho. E minha Coca Cola favorita é aquela que vem na garrafa de vidro individual, a famosa KS! Não sei se o modo de armazenar torna seu gosto diferente, se é porque o gás fica mais concentradinho ali ou porque elas estão sempre geladas na medida certa, mas é a melhor, ponto final! Uma pena que venha tão pouquinho, queria uns 2 litros pra alegria durar mais… Se eu bebesse o néctar dos deuses e ele tivesse o gosto que mais gosto com certeza seria esse!

Ronronados, a qualquer hora do dia ou da noite. Procurando por um cafuné, agradecendo comida, a alegria de voltar pra casa após a vacina ou de me ver chegando depois de algumas horas fora. Ronronados distantes, que querem ficar por ali, por perto, sem encostar. Alguns no meio da madrugada, só pra chamar atenção (e dá até uma mini raiva em ser acordada sem motivo nenhum). Aqueles que querem confortar quando estou chorando mesmo sem entender o motivo, ou tentando participar da alegria quando damos muita risada. Os que pedem carinho ou que acontecem porque o carinho veio antes. O barulhinho que sai da Arwen quando ela está feliz é uma música pros meus ouvidos!

Aquela notificação favorita nas redes sociais… Você sabe de qual estou falando! Que vem de uma pessoa específica, seja um “Amei” na foto que você ficou bonita ou mesmo um comentário meio piadista. A janelinha que desce no alto da tela de celular avisando que chegou uma mensagem nova dessa pessoa, seja ela inesperada ou uma resposta pro assunto que você mesma foi lá e puxou. Até mesmo uma nova publicação que aparece em primeiro lugar na sua linha do tempo, pra causar o risinho lateral que só as saudades boas sabem trazer…

“Objeto saiu para entrega ao destinatário.” – a vontade é colocar uma cadeira na port de casa, até o entregador passar!

Inclusive, já que mencionei entregas e encomendas, não dá pra deixar de falar do maior dos hobbies: bonecas! Pegar as caixas de pequenas coisinhas pra arrumar minhas Fashion Dolls, cada uma com sua personalidade e muito jeitinho, pra depois fotografá-las, é quase terapêutico! Aí vem a hora de editar as fotos, selecionar mentalmente quais, quem sabe, podem ser usadas em um texto algum dia… Compartilhar com quem também ama! E mais gostoso ainda do que as bonecas em si são as miniaturas que compõe o “universo” delas… Acho que se eu fosse pro Japão um dia ia dar pra montar uma mini cidade na minha mala, de tanta que eu ia trazer… Ai, ai, “sonhar um sonho impossível”, por enquanto!

Mas nem só de diversão se fazem os momentos de alegria… Porque terminar um trabalho, entregar tudo muito bem feito pro cliente, ah, é MARAVILHOSO! O fim do job é o momento de maior alívio desesperador pra quem é “freelancer”. Alívio porque é hora de receber, yey! Desespero porque, bem, depois daquele nem sempre tem outro e você fica sem saber quando vai receber de novo. Mas foco no que é bem, no que é bom, e dinheiro para “patrocinar” outros prazeres é bem bom!

O dia de ir à psicóloga! Nossa, esse é um dia de alegria! Ficar repensando tudo o que aconteceu desde a última visita pra não esquecer de falar o que é importante até chegar lá e, claro, a conversa tomar todos os rumos inesperados que precisava. O andar carregado e apressado da chegada se transformar em passos leves, aliviados e descompromissados na saída! Essa conversa com uma quase estranha (ou não) que no fim das contas não passa de um bate papo profundo com a gente mesmo. O que, se parar pra pensar, é papear com a pessoa mais importante da nossa vida!

Achar 31 pequenos prazeres e escrever sobre cada um deles por, no máximo, 5 minutos, um por dia ao longo de um mês para, depois, publicá-los. Dá vontade de continuar, de ignorar o número sugerido pela proposta e ir compartilhando mais ao longo dos anos, sem parar!

Pequenos prazeres da vida, de novo
“Prazerzinho” 29/31: As mini coisinhas!

Esse post foi inspirado na proposta #95 do Creative Writing Prompts, que oferece mais de trezentas ideias legais para desenvolver sua escrita criativa. É o 20º entre os 25 que me propus a escrever até outubro de 2018. Essa proposta específica foi dividia em quatro partes, sendo essa a última delas.

Outros pequenos prazeres da vida

Em 09.01.2018   Arquivado em Escrevendo

Faz exatamente um mês que comprei uma nova coleira para a Arwen, e ela ainda está quase intacta, sem uma mordida sequer na parte de tecido. Eu acharia que ela nem percebeu que voltou a ter uma coisa estranha em volta do pescoço, se não tivesse visto uma “briga” que travou contra ela outro dia. Embora não seja tão linda quanto a antiga, que foi destroçada graças à coceira gengival da troca de dentes, acho que é uma substituta à altura. E se não ver seu dinheirinho suado jogado fora não for um dos prazeres da vida, não sei o que é!

Falando na coleira, ela foi comprada em um dos meus lugares favoritos, o Mercado Central de Belo Horizonte. Ele foi eleito agora, no aniversário de 120 anos da cidade, como o local que é “a cara” daqui, e acho impossível discordar. Eu tô sempre lá, comprando ração, areia, queijo e um monte de outras coisas, mas pra minha visita ser completa mesmo, pra eu sair daquele labirintinho saltitando de empolgação, preciso trazer pra casa um pacote de doce de leite na palha. Tenho até uma marca favorita, o primeiro que vejo pendurado já puxo e aviso ao vendedor que vou levar comigo! Sem isso o “passeio” parece que nem existiu.

Já algumas alegrias não fazem a gente saltitar e sim sentir uma dorzinha no coração… É como eu fico quando alguém me conta que também vai boicotar os filmes de “Animais Fantásticos” daqui pra frente: orgulhosa, mas decepcionada com o fato de que chegamos a esse ponto. E eu sei que a pessoa também está se sentindo assim. Mas aí conto pra ela a ideia de doar o dinheiro do ingresso pra alguma ONG que cuida de mulheres que sofreram agressão e essa triste realidade vira até empolgação!

Agora voltando pras felicidades realmente felizes, vai essa breguinha: assistir “O Vestido Ideal” nas temporadas da Kleinfeld de Manhattan! As outras são legais, mas ninguém consegue superar a presença de Randy Fenoli na hora de ajudar uma noiva a escolher seu vestido. Ele tá lá pra fazer baixa auto estima desaparecer, pra salvar consultoras perdidas, pra mostrar pra família que a felicidade de quem vai subir no altar é o mais importante ali. Choro em absolutamente todos os episódios e, oh, não sei se vou me casar um dia, não… Mas se isso acontecer vai ter que rolar um vestido de noiva sem dúvidas, tenho dito!

Fazer (ou descobrir que tem) brócolis na hora do almoço. Ou qualquer outra refeição! É um dos prazeres culinários que, independente do nível da fome, me faz repetir o prato…

Uma realização pessoal: postar algo no meu canal do Youtube, bem editado sem nenhum defeitinho ou falha. Edição de vídeo é uma coisa na qual pretendo me aprimorar e ainda quero estudar muito mais sobre, então dar conta do recado sem ter “chegado lá” ainda é muito gratificante! O mesmo vale pra vídeos feitos para terceiros, que é um dinheirinho extra que queria ganhar mais vezes porque, de verdade, eu gosto do trabalho.

Todo ano um grupo de amigos organiza o que eu chamo de “migoculto do amô”, que é bem isso mesmo: um amigo oculto de natal cheio de amorzinho! Se a gente tá sem grana, fazemos a coisa de forma mais leve… Nunca foi preciso determinar preço mínimo ou máximo, nós simplesmente amamos tudo que um tem a dar pro outro. O último mal passou e já deixou no ar a contagem regressiva pro próximo, de tão bom que é!

E como deixar de mencionar a emoção de ter um batom vermelho novo, ainda intocado, pronto pra ser usado direto, quase todo dia, até acabar? É de fazer essa dupla de olhinhos brilhar sem parar!

Outros pequenos prazeres da vida
“Prazerzinho” 17/31: O doce de leite!

Esse post foi inspirado na proposta #95 do Creative Writing Prompts, que oferece mais de trezentas ideias legais para desenvolver sua escrita criativa. É o 19º entre os 25 que me propus a escrever até outubro de 2018. Essa proposta específica será dividia em quatro partes, sendo essa a terceira delas.

O Conto de Ano Novo

Em 06.01.2018   Arquivado em Escrevendo

O Conto de Ano Novo

Eu observava o resto do vinho na minha taça rodando e rodando enquanto brincava com ela, o vento sacudindo meus cabelos pra todos os lados. Eu raramente abria a janela do que quarto, mesmo que estivesse muito calor. Besteira de uma menina criada no interior, mesmo que um “interior grande”, sabe? Morava em BH há tantos anos e ainda rolava um medinho de alguém escalar o muro e entrar se não tivesse fechada, como se não houvesse uma cerca elétrica no meio do caminho. Mas no ano novo é impossível deixar passar, já eram mais de duas da manhã alguns fogos remanescentes continuavam brilhando lá fora de vez em quando.

Bebi o resto do conteúdo da taça de uma vez e saí rumo à cozinha para lavá-la. Ouvi vovó abrindo a porta do quarto dela e barulho de tosse la dentro, até que ela também me viu e veio em minha direção:

– Achei que você tinha ido dormir…

– É… – respondi – Eu ia mesmo, mas estou sem sono. O vovô tá bem?

Ela deu de ombros.

– Ah, tá, né… Tossindo e tudo mais, impossível dormir com ele do lado. Vou lá em baixo pegar água e um xarope pra ver se melhora…

– Pode deixar que eu vou! Tô indo lá deixar isso… – eu levantei a mão para mostrar a taça – Quer mais alguma coisa?

– Quero não… Vou te esperar aqui, então!

Ela sentou no sofá que ficava na pequena sala do andar superior, logo na frente do meu quarto. Acho que devia estar muito irritada mesmo com o barulho da tosse dele, porque normalmente ficaria do lado “tomando conta”. Seus olhos estavam cansados, o que não era tão comum, vovó e eu sempre fomos meio “corujas”, acostumadas à dormir de madrugada mesmo quando tinha que levantar cedo.

Lavei minha taça, resistindo á tentação de enchê-la novamente com o resto do vinho que eu sabia que ainda estava na geladeira, peguei a água e o remédio e subi as escadas devagar, como se pudesse acordar alguém, mesmo que nenhum deles estivesse dormindo. Vovó estava lixando as unhas enquanto me esperava. Na nossa casa sempre tem alguma lixa em qualquer lugar, nós duas compramos pacotes e mais pacotes e saímos largando pra todo lado. Assim, sempre temos uma à mão, quando é preciso.

Ela sorriu para mim, destacando sem querer todas as ruguinhas lindas do seu rosto, pegou o copo e o frasco, me deu um beijo no rosto e disse “Boa noite”! Quando estava quase chegando na porta, já levantando a mão em direção à maçaneta, eu perguntei:

– Você quer ajuda? Quer que eu durma com ele?

Ela bateu a mão no ar como se dissesse “Não precisa, boba”, e entrou, me deixando sozinha na sala escura. Fui para meu quarto e fechei a porta também.

Aquela não tinha sido uma virada de ano feliz para nenhuma das duas. Era a primeira vez que meu tio Jojo não tinha passado com a gente, já que ter se assumido gay fez com que tivesse sido praticamente expulso da família. Ele nos ligou à meia noite, direto de Salvador ao lado do seu namorado, mas só eu e vovó falamos com os dois. Vovô continuava fingindo que não tinha aquele filho. Depois disso nossa noite foi uma bela merda, não importa quantos telefonemas felizes ou fogos bonitos no céu aparecessem. Os dois foram cedo pro quarto, sem conversar um com o outro, e eu fiquei arrumando a cozinha e bebendo, enquanto remoía minha raiva. Quando terminei subi para o quarto com a intensão de ler minhas mensagens, mas nem tive saco de tocar no celular. Continuei lá, mal humorada, ouvindo a música que vinha de alguma casa vizinha cuja festa de Réveillon estava bem mais animada que a nossa.

Quando finalmente o sono começou a me pegar, resolvi fechar a janela e trocar de roupas. Peguei o celular com o objetivo de cancelar o despertador da manhã seguinte, bloqueei a tela novamente e então decidi que, quem sabe, poderia ter alguma mensagem ali pra me animar um pouquinho. Liguei a WiFi, que estava desativada desde antes do jantar, e vi o balãozinho de notificações subir freneticamente, o número crescendo a cada milésimo de segundo. Deixei ele lá, se atualizando, e fui ao banheiro fazer meu xixizinho da madrugada.

Havia 78 mensagens não lidas me esperando – sem contar os grupos silenciados da faculdade e do trabalho. A mais recente era do grupo da nossa família e continha uma foto de Laurinha dormindo no colo do meu tio, completamente apagada, enquanto ele sorria na beirada do mar. Eu ri. Ela tinha nos ligado pouco depois da virada para desejar que 2018 fosse tão lindo quanto a praia e disse que ia me trazer um presente. Respondi com um emoji de coração e continuei zapeando pelos nomes ainda não abertos quando o vi.

A foto séria ainda era mesma da última vez que nos falamos, há algumas semanas atrás. Isso não era, de forma alguma, incomum, mas reparei mesmo assim. Acho que era porque, por mais que tivesse evitando pensar nisso a noite toda, eu esperava vê-la ali quando resolvesse finalmente abrir o Whatsapp. Cliquei sobre o nome dele.

“Feliz ano novo, Lola! Sdds *coraçãozinho*”

Ninguém fora da minha família me chamava de “Lola”, e ele fora informado disso. Na verdade só sabia que esse apelido existia porque a gente contou sobre praticamente toda nossa vida ao longo do momentos que tivemos juntos. Mas nunca tinha usado. Eu quase conseguia enxergar o risinho de ironia que com certeza estava em seus lábios quando digitou aquilo, como se quisesse não só puxar papo mas dar uma debochadinha junto. E aí, ao pensar nisso, percebi que eu mesma estava sorrindo desde que vi que havia uma mensagem dele no meio de todas as outras.

Ignorando completamente o fato de que, lá no celular dele, o ícone de leitura tinha ficado azul, confirmando que eu recebi o recado, fui respondendo todas as outras pessoas que haviam se dado as trabalho de pensar em mim naquela noite – e ignorei algumas, quando elas vinham de grupos chatos dos quais minha boa educação vinha me impedindo de sair. Por fim, quando não tinha sobrado mais nenhuma e não dava mais pra evitar, finalmente escrevi:

“Feliz ano novo, Fê!”

Enviei e me arrependi na mesma hora da maneira seca como ela soou. Não era meu feitio fingir desinteresse quando, na verdade, eu ainda estava interessadíssima. Então completei:

“Muitas sdds! *carinha com olhos de coração*”

Desliguei a WiFi novamente, antes que ele pudesse dizer qualquer outra coisa ou mais alguém resolvesse prolongar algum assunto. Eu estava me segurando um pouco para não rir mais, porque se pensar bem, sabe, a noite não tinha sido de todo mal…

Esse é o segundo conto da série “Contos de Aurora”, que vai mostrar dez datas comemorativas do ano de uma mulher como outra qualquer, que eu vou conhecer junto com vocês, enquanto traço a vida dela devagarzinho… Feliz ano novo!

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