Categoria "Escrevendo"

Pequenos prazeres da vida, de novo!

Em 15.01.2018   Arquivado em Escrevendo

Coca Cola é uma coisa que vem sempre trazendo prazeres na minha vida a cada golinho. E minha Coca Cola favorita é aquela que vem na garrafa de vidro individual, a famosa KS! Não sei se o modo de armazenar torna seu gosto diferente, se é porque o gás fica mais concentradinho ali ou porque elas estão sempre geladas na medida certa, mas é a melhor, ponto final! Uma pena que venha tão pouquinho, queria uns 2 litros pra alegria durar mais… Se eu bebesse o néctar dos deuses e ele tivesse o gosto que mais gosto com certeza seria esse!

Ronronados, a qualquer hora do dia ou da noite. Procurando por um cafuné, agradecendo comida, a alegria de voltar pra casa após a vacina ou de me ver chegando depois de algumas horas fora. Ronronados distantes, que querem ficar por ali, por perto, sem encostar. Alguns no meio da madrugada, só pra chamar atenção (e dá até uma mini raiva em ser acordada sem motivo nenhum). Aqueles que querem confortar quando estou chorando mesmo sem entender o motivo, ou tentando participar da alegria quando damos muita risada. Os que pedem carinho ou que acontecem porque o carinho veio antes. O barulhinho que sai da Arwen quando ela está feliz é uma música pros meus ouvidos!

Aquela notificação favorita nas redes sociais… Você sabe de qual estou falando! Que vem de uma pessoa específica, seja um “Amei” na foto que você ficou bonita ou mesmo um comentário meio piadista. A janelinha que desce no alto da tela de celular avisando que chegou uma mensagem nova dessa pessoa, seja ela inesperada ou uma resposta pro assunto que você mesma foi lá e puxou. Até mesmo uma nova publicação que aparece em primeiro lugar na sua linha do tempo, pra causar o risinho lateral que só as saudades boas sabem trazer…

“Objeto saiu para entrega ao destinatário.” – a vontade é colocar uma cadeira na port de casa, até o entregador passar!

Inclusive, já que mencionei entregas e encomendas, não dá pra deixar de falar do maior dos hobbies: bonecas! Pegar as caixas de pequenas coisinhas pra arrumar minhas Fashion Dolls, cada uma com sua personalidade e muito jeitinho, pra depois fotografá-las, é quase terapêutico! Aí vem a hora de editar as fotos, selecionar mentalmente quais, quem sabe, podem ser usadas em um texto algum dia… Compartilhar com quem também ama! E mais gostoso ainda do que as bonecas em si são as miniaturas que compõe o “universo” delas… Acho que se eu fosse pro Japão um dia ia dar pra montar uma mini cidade na minha mala, de tanta que eu ia trazer… Ai, ai, “sonhar um sonho impossível”, por enquanto!

Mas nem só de diversão se fazem os momentos de alegria… Porque terminar um trabalho, entregar tudo muito bem feito pro cliente, ah, é MARAVILHOSO! O fim do job é o momento de maior alívio desesperador pra quem é “freelancer”. Alívio porque é hora de receber, yey! Desespero porque, bem, depois daquele nem sempre tem outro e você fica sem saber quando vai receber de novo. Mas foco no que é bem, no que é bom, e dinheiro para “patrocinar” outros prazeres é bem bom!

O dia de ir à psicóloga! Nossa, esse é um dia de alegria! Ficar repensando tudo o que aconteceu desde a última visita pra não esquecer de falar o que é importante até chegar lá e, claro, a conversa tomar todos os rumos inesperados que precisava. O andar carregado e apressado da chegada se transformar em passos leves, aliviados e descompromissados na saída! Essa conversa com uma quase estranha (ou não) que no fim das contas não passa de um bate papo profundo com a gente mesmo. O que, se parar pra pensar, é papear com a pessoa mais importante da nossa vida!

Achar 31 pequenos prazeres e escrever sobre cada um deles por, no máximo, 5 minutos, um por dia ao longo de um mês para, depois, publicá-los. Dá vontade de continuar, de ignorar o número sugerido pela proposta e ir compartilhando mais ao longo dos anos, sem parar!

Pequenos prazeres da vida, de novo
“Prazerzinho” 29/31: As mini coisinhas!

Esse post foi inspirado na proposta #95 do Creative Writing Prompts, que oferece mais de trezentas ideias legais para desenvolver sua escrita criativa. É o 20º entre os 25 que me propus a escrever até outubro de 2018. Essa proposta específica foi dividia em quatro partes, sendo essa a última delas.

Outros pequenos prazeres da vida

Em 09.01.2018   Arquivado em Escrevendo

Faz exatamente um mês que comprei uma nova coleira para a Arwen, e ela ainda está quase intacta, sem uma mordida sequer na parte de tecido. Eu acharia que ela nem percebeu que voltou a ter uma coisa estranha em volta do pescoço, se não tivesse visto uma “briga” que travou contra ela outro dia. Embora não seja tão linda quanto a antiga, que foi destroçada graças à coceira gengival da troca de dentes, acho que é uma substituta à altura. E se não ver seu dinheirinho suado jogado fora não for um dos prazeres da vida, não sei o que é!

Falando na coleira, ela foi comprada em um dos meus lugares favoritos, o Mercado Central de Belo Horizonte. Ele foi eleito agora, no aniversário de 120 anos da cidade, como o local que é “a cara” daqui, e acho impossível discordar. Eu tô sempre lá, comprando ração, areia, queijo e um monte de outras coisas, mas pra minha visita ser completa mesmo, pra eu sair daquele labirintinho saltitando de empolgação, preciso trazer pra casa um pacote de doce de leite na palha. Tenho até uma marca favorita, o primeiro que vejo pendurado já puxo e aviso ao vendedor que vou levar comigo! Sem isso o “passeio” parece que nem existiu.

Já algumas alegrias não fazem a gente saltitar e sim sentir uma dorzinha no coração… É como eu fico quando alguém me conta que também vai boicotar os filmes de “Animais Fantásticos” daqui pra frente: orgulhosa, mas decepcionada com o fato de que chegamos a esse ponto. E eu sei que a pessoa também está se sentindo assim. Mas aí conto pra ela a ideia de doar o dinheiro do ingresso pra alguma ONG que cuida de mulheres que sofreram agressão e essa triste realidade vira até empolgação!

Agora voltando pras felicidades realmente felizes, vai essa breguinha: assistir “O Vestido Ideal” nas temporadas da Kleinfeld de Manhattan! As outras são legais, mas ninguém consegue superar a presença de Randy Fenoli na hora de ajudar uma noiva a escolher seu vestido. Ele tá lá pra fazer baixa auto estima desaparecer, pra salvar consultoras perdidas, pra mostrar pra família que a felicidade de quem vai subir no altar é o mais importante ali. Choro em absolutamente todos os episódios e, oh, não sei se vou me casar um dia, não… Mas se isso acontecer vai ter que rolar um vestido de noiva sem dúvidas, tenho dito!

Fazer (ou descobrir que tem) brócolis na hora do almoço. Ou qualquer outra refeição! É um dos prazeres culinários que, independente do nível da fome, me faz repetir o prato…

Uma realização pessoal: postar algo no meu canal do Youtube, bem editado sem nenhum defeitinho ou falha. Edição de vídeo é uma coisa na qual pretendo me aprimorar e ainda quero estudar muito mais sobre, então dar conta do recado sem ter “chegado lá” ainda é muito gratificante! O mesmo vale pra vídeos feitos para terceiros, que é um dinheirinho extra que queria ganhar mais vezes porque, de verdade, eu gosto do trabalho.

Todo ano um grupo de amigos organiza o que eu chamo de “migoculto do amô”, que é bem isso mesmo: um amigo oculto de natal cheio de amorzinho! Se a gente tá sem grana, fazemos a coisa de forma mais leve… Nunca foi preciso determinar preço mínimo ou máximo, nós simplesmente amamos tudo que um tem a dar pro outro. O último mal passou e já deixou no ar a contagem regressiva pro próximo, de tão bom que é!

E como deixar de mencionar a emoção de ter um batom vermelho novo, ainda intocado, pronto pra ser usado direto, quase todo dia, até acabar? É de fazer essa dupla de olhinhos brilhar sem parar!

Outros pequenos prazeres da vida
“Prazerzinho” 17/31: O doce de leite!

Esse post foi inspirado na proposta #95 do Creative Writing Prompts, que oferece mais de trezentas ideias legais para desenvolver sua escrita criativa. É o 19º entre os 25 que me propus a escrever até outubro de 2018. Essa proposta específica será dividia em quatro partes, sendo essa a terceira delas.

O Conto de Ano Novo

Em 06.01.2018   Arquivado em Escrevendo

O Conto de Ano Novo

Eu observava o resto do vinho na minha taça rodando e rodando enquanto brincava com ela, o vento sacudindo meus cabelos pra todos os lados. Eu raramente abria a janela do que quarto, mesmo que estivesse muito calor. Besteira de uma menina criada no interior, mesmo que um “interior grande”, sabe? Morava em BH há tantos anos e ainda rolava um medinho de alguém escalar o muro e entrar se não tivesse fechada, como se não houvesse uma cerca elétrica no meio do caminho. Mas no ano novo é impossível deixar passar, já eram mais de duas da manhã alguns fogos remanescentes continuavam brilhando lá fora de vez em quando.

Bebi o resto do conteúdo da taça de uma vez e saí rumo à cozinha para lavá-la. Ouvi vovó abrindo a porta do quarto dela e barulho de tosse la dentro, até que ela também me viu e veio em minha direção:

– Achei que você tinha ido dormir…

– É… – respondi – Eu ia mesmo, mas estou sem sono. O vovô tá bem?

Ela deu de ombros.

– Ah, tá, né… Tossindo e tudo mais, impossível dormir com ele do lado. Vou lá em baixo pegar água e um xarope pra ver se melhora…

– Pode deixar que eu vou! Tô indo lá deixar isso… – eu levantei a mão para mostrar a taça – Quer mais alguma coisa?

– Quero não… Vou te esperar aqui, então!

Ela sentou no sofá que ficava na pequena sala do andar superior, logo na frente do meu quarto. Acho que devia estar muito irritada mesmo com o barulho da tosse dele, porque normalmente ficaria do lado “tomando conta”. Seus olhos estavam cansados, o que não era tão comum, vovó e eu sempre fomos meio “corujas”, acostumadas à dormir de madrugada mesmo quando tinha que levantar cedo.

Lavei minha taça, resistindo á tentação de enchê-la novamente com o resto do vinho que eu sabia que ainda estava na geladeira, peguei a água e o remédio e subi as escadas devagar, como se pudesse acordar alguém, mesmo que nenhum deles estivesse dormindo. Vovó estava lixando as unhas enquanto me esperava. Na nossa casa sempre tem alguma lixa em qualquer lugar, nós duas compramos pacotes e mais pacotes e saímos largando pra todo lado. Assim, sempre temos uma à mão, quando é preciso.

Ela sorriu para mim, destacando sem querer todas as ruguinhas lindas do seu rosto, pegou o copo e o frasco, me deu um beijo no rosto e disse “Boa noite”! Quando estava quase chegando na porta, já levantando a mão em direção à maçaneta, eu perguntei:

– Você quer ajuda? Quer que eu durma com ele?

Ela bateu a mão no ar como se dissesse “Não precisa, boba”, e entrou, me deixando sozinha na sala escura. Fui para meu quarto e fechei a porta também.

Aquela não tinha sido uma virada de ano feliz para nenhuma das duas. Era a primeira vez que meu tio Jojo não tinha passado com a gente, já que ter se assumido gay fez com que tivesse sido praticamente expulso da família. Ele nos ligou à meia noite, direto de Salvador ao lado do seu namorado, mas só eu e vovó falamos com os dois. Vovô continuava fingindo que não tinha aquele filho. Depois disso nossa noite foi uma bela merda, não importa quantos telefonemas felizes ou fogos bonitos no céu aparecessem. Os dois foram cedo pro quarto, sem conversar um com o outro, e eu fiquei arrumando a cozinha e bebendo, enquanto remoía minha raiva. Quando terminei subi para o quarto com a intensão de ler minhas mensagens, mas nem tive saco de tocar no celular. Continuei lá, mal humorada, ouvindo a música que vinha de alguma casa vizinha cuja festa de Réveillon estava bem mais animada que a nossa.

Quando finalmente o sono começou a me pegar, resolvi fechar a janela e trocar de roupas. Peguei o celular com o objetivo de cancelar o despertador da manhã seguinte, bloqueei a tela novamente e então decidi que, quem sabe, poderia ter alguma mensagem ali pra me animar um pouquinho. Liguei a WiFi, que estava desativada desde antes do jantar, e vi o balãozinho de notificações subir freneticamente, o número crescendo a cada milésimo de segundo. Deixei ele lá, se atualizando, e fui ao banheiro fazer meu xixizinho da madrugada.

Havia 78 mensagens não lidas me esperando – sem contar os grupos silenciados da faculdade e do trabalho. A mais recente era do grupo da nossa família e continha uma foto de Laurinha dormindo no colo do meu tio, completamente apagada, enquanto ele sorria na beirada do mar. Eu ri. Ela tinha nos ligado pouco depois da virada para desejar que 2018 fosse tão lindo quanto a praia e disse que ia me trazer um presente. Respondi com um emoji de coração e continuei zapeando pelos nomes ainda não abertos quando o vi.

A foto séria ainda era mesma da última vez que nos falamos, há algumas semanas atrás. Isso não era, de forma alguma, incomum, mas reparei mesmo assim. Acho que era porque, por mais que tivesse evitando pensar nisso a noite toda, eu esperava vê-la ali quando resolvesse finalmente abrir o Whatsapp. Cliquei sobre o nome dele.

“Feliz ano novo, Lola! Sdds *coraçãozinho*”

Ninguém fora da minha família me chamava de “Lola”, e ele fora informado disso. Na verdade só sabia que esse apelido existia porque a gente contou sobre praticamente toda nossa vida ao longo do momentos que tivemos juntos. Mas nunca tinha usado. Eu quase conseguia enxergar o risinho de ironia que com certeza estava em seus lábios quando digitou aquilo, como se quisesse não só puxar papo mas dar uma debochadinha junto. E aí, ao pensar nisso, percebi que eu mesma estava sorrindo desde que vi que havia uma mensagem dele no meio de todas as outras.

Ignorando completamente o fato de que, lá no celular dele, o ícone de leitura tinha ficado azul, confirmando que eu recebi o recado, fui respondendo todas as outras pessoas que haviam se dado as trabalho de pensar em mim naquela noite – e ignorei algumas, quando elas vinham de grupos chatos dos quais minha boa educação vinha me impedindo de sair. Por fim, quando não tinha sobrado mais nenhuma e não dava mais pra evitar, finalmente escrevi:

“Feliz ano novo, Fê!”

Enviei e me arrependi na mesma hora da maneira seca como ela soou. Não era meu feitio fingir desinteresse quando, na verdade, eu ainda estava interessadíssima. Então completei:

“Muitas sdds! *carinha com olhos de coração*”

Desliguei a WiFi novamente, antes que ele pudesse dizer qualquer outra coisa ou mais alguém resolvesse prolongar algum assunto. Eu estava me segurando um pouco para não rir mais, porque se pensar bem, sabe, a noite não tinha sido de todo mal…

Esse é o segundo conto da série “Contos de Aurora”, que vai mostrar dez datas comemorativas do ano de uma mulher como outra qualquer, que eu vou conhecer junto com vocês, enquanto traço a vida dela devagarzinho… Feliz ano novo!

Inclusive, saudades (II)

Em 30.12.2017   Arquivado em Escrevendo

Inclusive, saudades

Essa manhã acordei cheia de lembranças. Tem dias que são assim, elas me invadem de um jeito que dá pra sentir o tudo bem tátil na minha frente, a tensão tão carregada que nem um machado conseguiria quebrar. Às vezes o peito aperta tanto que dá vontade de chorar, como se o que quer que seja que está ali dentro pudesse transbordar pelos olhos. Hoje não, hoje as saudades foram gostosas de sentir, sabe? Aquelas que te faz ficar parada olhando pro nada meio boba até chega no ápice do recordar em que o coração acelera de excitação, como se estivesse correndo uma maratona… Causa arrepios, dos bons!

Lembrei que te conhecer foi como despertar de um pesadelo. Acho que todo mundo já passou por isso, o segundo exato em que a gente abre os olhos e percebe que nada daquele horror aconteceu ou vai acontecer… Um pesadelo longo, desses que ficam tempos nos atormentando mas chegam ao fim, é só questão de tempo até esquecer. Pois é, foi assim estar com você no primeiro instante. As borboletas da minha barriga se agitaram loucas como sempre, mas esse abrir de asas não embrulhou o estômago, mas fez abrir também sorrisos. O que se intensificava quando o SEU sorriso vinha, só de lembrar já sinto tanta falta. Ah, esse sorriso que causa mutações no olhar… Ele é fácil de amar!

Sentir você pela primeira vez, por outro lado, foi como entrar em um sonho. Quando os acontecimentos fogem do nosso controle e a gente vai deixando rolar apenas curtindo esse momento, seja lá como ele acontece. Isso vai contra tudo o que eu faço na vida! Estou sempre ensaiando, pensando mais do que devia. Mas do seu lado não funciona assim, funciona sem hesitar ou ter medo do que está por vir. E acaba sendo melhor do que foi criado nessa cabecinha preocupada, seja imaginando conscientemente ou na inconsciência do sono à noite. Eu, que já tinha colocado no papel todas as ideias de como tudo deveria ser, descobri que programar esse tipo de coisa está limitado ao que nós somos sozinhos. Mas na vida real as conexões só são ideais quando a gente faz junto…

Eu acordei do meu pesadelo de angústias, mas não precisei fazer o mesmo com o sonho saudoso. No fim das contas o ruim era só impressão e o bom é que rolou pra valer. Acho que por isso ainda estou “presa” nele, ainda que completamente livre para o que quer que venha a seguir, em qualquer aspecto. Existem mil coisas que eu gostaria de dizer, algumas jogadas em textos que julgo secretos e acabam não sendo, outras que acho que vou ter que guardar aqui no meu coração… Ou quem sabe soltar devagarzinho, naquelas horas que sua voz se transforma num ronronar no meu ouvido. Não importa! Sentir é mais importante que dizer, e não importa o que eu diga: já valeu, vale a pena (sempre!) poder te sentir e lembrar de você.

Inclusive, saudades!

O Conto de Natal

Em 24.12.2017   Arquivado em Escrevendo

O Conto de Natal

A campainha tocou pela terceira vez em menos de meia hora lá em baixo. Eu estava com o rosto quase grudado no espelho, segurando meus cílios postiços emplastados de cola, esperando ela secar, então só dei uma olhada pro lado, como se pudesse enxergar através das paredes, e voltei a atenção para meu reflexo quase imediatamente. Enquanto posicionava tudo no lugar ouvi risadas, seguidas de um grito que não soube identificar se era de raiva ou alegria. Só sabia que a voz que o produziu era de uma criança. Laurinha, com certeza. Fiquei feliz em saber que ela tinha chegado… Por ser a neta mais nova não importava se era natal ou outra data qualquer: vovó só sentia que a festa tinha começado quando aquele rostinho sorridente cruzava a porta de entrada.

Enquanto retocava o delineador do olho esquerdo, a porta do meu quarto abriu abruptamente e ela entrou, com a voz muito chorosa. Logo depois vinha Diego, com um sorriso de vitória no rosto que só podia significar que havia tirado a menina do sério. Ele tinha seis anos quando ela nasceu, “tirando” seu posto de caçula e gerando muitos ciúmes. Desde então um de seus objetivos de vida era causar nela o maior número de lágrimas possível.

– Lola… – ela dizia as palavras entre soluços forçados – Lola, diz pra ele que é o Papai Noel de verdade!

Guardei minha bolsa de maquiagem virando os olhos pra situação. Não era POSSÍVEL que um garoto que se gabava diariamente de ter entrado na adolescência e até já “perdido o BV” estava implicando com uma criança por causa de PAPAI NOEL! Olhei para ele colocando as mãos na cintura, o que o fez começar a pronunciar as desculpas esfarrapadas ensaiadas:

– Eu não falei que ele NÃO EXISTE, só disse que aquele lá não é o de verdade…

– É SIM! – Ela gritou se colocando de pé em cima da minha cama, então corri não só pra amenizar a briga como também para tirar aqueles pés calçados de cima do meu lençol recém trocado.

Nem era preciso explicações sobre a qual Papai Noel eles se referiam. Algum dos prédios vizinhos tinham pendurado um em tamanho natural na manhã anterior. Vovó e eu ficamos observando muito agoniadas com medo de o moço que estava fazendo isso cair de lá de cima, e ao mesmo tempo adoramos a notícia justamente porque sabíamos que nossa pequenina ia vibrar vê-lo ali. Dei uma última olhada no espelho e saí do quarto arrastando os dois junto, segurando o pulso de Diego com uma força que indicava “Pára com isso!” e tranquilizando nossa priminha, dizendo que ele estava apenas tentando irritá-la e que o “bom velhinho” já estava ali sim senhorita, esperando para presenteá-la com a Barbie Sereia que havia pedido.

Eu mudei para a casa dos meus avós cinco anos atrás, pra fazer faculdade. Meus pais moram em Ipatinga, a uns 200 km de Belo Horizonte, vim pra cá quando passei no vestibular. Minha ideia inicial (e muito iludida) era procurar um lugar só meu assim que me formasse, o que aconteceu no meio do ano, mas os três meses de desemprego e o salário baixo que recebia ao finalmente conseguir um trabalho não me permitiam sequer pensar nisso. Sem contar que meus avós estavam começando a ficar bem velhinhos, sempre precisando de alguém para levá-los ao médico, pegar algo no alto do armário e correr para comprar qualquer coisa no supermercado, então minha presença acabou sendo útil… Agora a intenção de ir embora é quase zero!

Por esse motivo eu acabo convivendo muito mais com o resto da família do que qualquer um deles entre si. Ao longo da semana meus tios e primos vêm aqui algumas vezes, para buscar correspondências, ver como estão as coisas ou mesmo “bater ponto” e não se arrepender de estar ausente daqui um tempo, quando os dois já não estiverem vivos. É bem fácil perceber quais se encaixam no último grupo. Enfim… Essa noite eu pretendia estar pronta antes de todo mundo chegar, mas fiquei no quintal com vovó batendo papo sobre nada, então já tinha muita gente quando desci as escadas, cada um colocando o que tinha levado na mesa. Meus pais e meu irmão tinham chegado na casa do meu padrinho bem cedo, mas eles esperaram para ir todos juntos. Estavam lá mais dois casais de tios, pais de Laurinha e Diego, além do irmão mais velho dela, Gabriel, que nasceu exatamente um mês antes de mim. Nós dois passamos a infância inteira esperando por férias e feriados para encontrar quando eu vinha pra cá, para poder brincar juntos. Somos meio que melhores amigos.

– Olha quem tá aqui! Feliz natal, Coisinha! – Meu irmão me tirou do chão ao me abraçar. Depois dele ouvir outras sete vozes repetindo “Feliz Natal, Lola” em menos de um minuto.

Quando Diego era bebê e não conseguia pronunciar “Aurora” direito, me chamava apenas de “Lóla”. Assim que me via cruzando a porta balançava seus bracinhos gorduchos gritando “Lóla! Lóla! Lóla!” com muita empolgação. Logo depois tia Clarinha, mãe dele, me presenteou com uma jaqueta onde havia a personagem Lola Bunny, dos Looney Tunes, estampada nas costas. Desde então a família inteira só me chama assim. Eu me irritava no início, sempre gostei de ter um nome que não dava muita brecha para apelidos, mas quando Laurinha nasceu foi uma das primeiras palavras que aprendeu a falar, logo depois de “mamã” e “cacágu” (que significava “água”), e passei a gostar, apesar de nunca deixar essa mania sair da família e passar para os meus amigos.

O resto do pessoal chegou na hora seguinte. Nos últimos dois natais tinha um sentimento de “Será que é o último?” no ar, todos temiam que um dos nossos avós fosse morrer a qualquer momento, então ninguém abria mão daquela noite. Bom, na verdade uma pessoa abriu dessa vez: tio Jojo. Ele tinha “saído do armário” (finalmente!) nove meses atrás ao apresentar o namorado pra todo mundo. Bastou uma única e longa conversa comigo para vovó aceitar, mas meu avô e dois dos tios ainda se recusavam a olhar na cara dele. Agora ele só vinha quando não tinha mais ninguém por lá (vovô se fechava na sala de televisão até ele ir embora) e sabe-se lá onde estava fazendo sua ceia… Eu sentia saudades e ódio de todo o resto só de pensar nisso!

Olhando ao redor da mesa, todo mundo sentado espremidinho em cadeiras e bancos improvisados, me vinha nos peito uma mistura de alegria e hipocrisia. Eu estava feliz em ter papai, mamãe e Augusto, meu irmão, ali comigo. Vovó também, já que ela é minha pessoa favorita no mundo, e eu até amava o vovô, mas o culpava de não ter meu tio mais querido ali. Gosto dos meus primos, uns mais que outros, e algumas tias. Mas todos os meus outros tios (e uma prima mais distante) eram nada além de parentes pra mim. Me dava raiva ouvir de longe os comentários machistas e preconceituosos que eram camuflados na conversa aqui e ali. Minha vontade era bater boca contra aquela babaquice toda, mas foquei na presença de Laura em meu colo, com seu prato encostadinho no meu me contando várias novidades infantis enquanto nossos braços lutavam para conseguir comer ao mesmo tempo.

Nós temos algumas tradiçõezinhas pra data, seguidas todos os anos. Todo mundo senta pra comer às 22h, em ponto, e quando faltam 15 minutos para meia noite rola uma oração e um “Parabéns pra você” para o “Menino Jesus”. Já faz anos que não sigo religiões, mas não me importo em continuar fazendo isso. Vovô então faz um discurso e assim que o relógio bate a meia noite corremos para a árvore para trocar presentes, independente se tiver terminado ou não… Na verdade o combinado é esse, mas ele sempre consegue dizer tudo a tempo, provavelmente de propósito. Dessa vez, porém, assim que a oração terminou, ele saiu alegando que precisava ir ao banheiro e pediu que a gente continuasse na sua ausência por causa das crianças. Na hora do discurso passamos a palavra para vovó, mas ela não sabia o que dizer e pediu ao meu pai que fizesse isso. Ele, por sua vez, jogou a bola pra minha mãe, que conseguiu até se emocionar com o que disse – e alfinetar cada um dos responsáveis por não sermos mais uma família completa. Alguns, eu entre eles, fizeram questão de aplaudir quando ela terminou exatamente quando devia terminar

Foi quando começamos a ouvir fogos de artifício sendo jogados ao céu do lado de fora. Laurinha largou minha mão, correndo desesperada, e abriu a cortina, com a boca aberta de excitação. Fomos assistir também e, quando parei ao seu lado, ela disse para mim, sorrindo:

– É o Papai Noel!

Passamos cinco minutos admirando o show pirotécnico que acontecia ali, até ouvir a porta dos fundos bater. Quando olhamos para trás a árvore de natal estava bem mais cheia do que antes. Fomos correndo conferir o que tinha sido deixado , gritando uns aos outros para que cada presente chegasse ao seu dono o mais rápido possível. Acho que ninguém além de mim reparou quando vovô entrou de mansinho com as chaves na mão e parou apoiado em meu ombro, para receber um pacote com seu nome que estava na minha mão. De fato, e apesar de tudo, um bom velhinho tinha trazido para cada um de nós um pouquinho mais da magia do natal.

E assim termina o Blogmas 2017: com um começo! Na série “Contos de Aurora” vou mostrar pra vocês a trajetória dessa nova personagem ao longo de algumas datas importante do ano. Em alguns momentos irei improvisar, em outros já sei exatamente o que fazer. O destino dela? Só o tempo dirá! Feliz natal!

Blogmas 2017

Página 1 de 1212345... 12Próximo