Categoria "Escrevendo"

Inclusive, saudades (I)

Em 17.08.2017   Arquivado em Escrevendo

Inclusive, saudades!

É como se um trem viesse em alta velocidade e você precisasse pular nele ainda em movimento. São meses se preparando para aquilo, para embarcar naquela viagem mais empolgante impossível, planejando tudo e só o que se consegue pensar é nos momentos maravilhosos que estão por vir, dos quais morre de saudades. Até que, finalmente, se encontra na beirada dos trilhos, correndo com os cabelo ao vento, enquanto ele vem em sua direção de portas abertas. Você estica os braços, agarra a barra de apoio e se joga por inteira lá dentro, o coração batendo descontroladamente e as borboletas na barriga fora de si. Sim, está acontecendo. Chegou a hora.

Você entra e é tão maravilhoso quanto esperava. Sem roteiro, sabe? Apenas acontece, não tem espaço pra nada negativo, só risadas e sorrisos. Mas todo embarque tem seu desembarque e chega a hora de saltar dali de novo, e é isso que você faz, naquele mesmo ponto de onde tomou o impulso que te levou a viver essa experiência. E por mais que saiba que foi real, que se lembre de cada segundo, não consegue assimilar. Podem ter sido dias, mas parece que foram horas, ou minutos, ou só um sonho que a gente nunca sabe quanto tempo durou, parece que você sequer saiu da borda da entrada, ou mesmo do ponto de onde pulou. O aperto é tanto que fica difícil pensar no quão maravilhoso foi, é quase impossível achar palavras que descrevam o que domina a mente e o coração, e tudo o que você quer é digerir, acreditar nesse algo lindo que assim merece ser lembrado.

Eu achei que esse trem não passaria mais nos trilhos da minha vida, assumi que não precisaria escrever essa história, mas não teve como fugir uma vez que ela resolveu se estender e tomar conta dos meus sentimentos, se escrevendo sozinha enquanto o tempo passava. Sempre tive muita dificuldade de aceitar que o “Fim” tinha chegado mesmo quando sabia que era até melhor assim, mas por algum motivo cismei em colocar pontos finais em cada nova fase do nosso trajeto, e felizmente fui conseguindo apagar todos eles para substituir pelas vírgulas mais bem vindas de todas, ou até transformar em reticências. Ainda que essas as reticências deixem de ser três pontinhos para se tornar um só de novo, o que realmente importa é que existiram, bem desenhadas e carregadas de significados.

A verdade é que quanto mais ela se escreve, mais vontade eu tenho de pegar a caneta e me jogar nela. Eu me apaixonei pelo embarque nesse trem desgovernado que vem e vai sem eu saber a direção… Por olha-lo de costas como se admirasse meu próprio céu estrelado, pelo seu sorriso que aparece de repente e ilumina todo o rosto, cada pedacinho dele. Me apaixonei pelas suas mãos que só de encostar em mim me arrepiam por fora e por dentro, por aquele ar sério que de início me intimidava tanto, pela cor daquele olhar que está sempre diferente, pelo som da respiração que muda a cada situação. Estou apaixonada por cada embarque nele e por ele inteiro!

Inclusive, saudades!

Quem me ensinou a gostar de ler…

Em 16.08.2017   Arquivado em Escrevendo

Quando criança eu adorava ler gibis da Turma da Mônica e nada mais. Sério, eu podia passar horas afundada nas revistinhas, sempre ganhava o Almanaque de Férias quando chegava a hora, me divertia mais com os quadrinhos do que com as atividades, mas só isso. Na escola a gente tinha que ler um livro todo mês e fazer resenha/ilustração sobre ele, e eu escolhia o menor e mais simples entre as opções disponíveis, para simplificar o trabalho. Pegar um por conta própria, por diversão? Jamais! Era melhor usar meu tempo brincando de Barbie, obrigada! Escrever era outra coisa, amava e fazia bem feito, mas nem sempre uma coisa está ligada à outra e no mais caso não estava.

Meu pai, por outro lado, sempre leu de tudo. Nos fins de semana você sempre achava ele em casa ouvindo música, vendo futebol ou deitado com um livro nas mãos. Eu sabia que ele gostava de Saramago, que não precisava de nada pra enxergar bem ao contrário de todas nós, que iria levar a sério e até o final qualquer conjunto de páginas que caísse nas mãos dele. E não conseguia entender aquele fascínio mesmo assim…

Ele tinha uma edição de “Reinações de Narizinho”, do Monteiro Lobato, e me deu de presente. Eu tentava ler algumas páginas todas as noites, mas simplesmente não rendia… Acho que nunca me identifiquei tanto com o Sítio do Pica Pau Amarelo porque os valores da época já eram MUITO diferentes dos meus, mesmo tão novinha, mas insistia. Como incentivo ganhei o “Viagem ao Céu” novinho em folha para continuar a história quando acabasse o primeiro, e isso ficou na ideia porque nunca aconteceu. No desespero de me ver interessada pela coisa ele começou a comprar a Revista Recreio pra gente, que sempre vinha com uns fascículos da Varig que diziam que “Quem lê, aprende voando”, frase que eu já achava incrível, mesmo que não me identificasse. Foi numa dessas revistas que eu li sobre a série Harry Potter pela primeira vez, e enquanto fazia isso ele surgiu atrás de mim dizendo “Eu vou comprar esse livro pra você! Tá todo mundo falando dele, desse você vai gostar!”, a empolgação era evidente.

No fim daquele ano a irmã dele, minha madrinha, acabou fazendo isso. Me dar “A Pedra Filosofal” de presente, quero dizer. Meu pai terminou de ler antes de mim, que demorei 10 meses pra isso, e ameaçou que eu não poderia ver o filme com meus amigos até que terminasse. Às vezes acho que ele se arrepende um pouco de todo esse incentivo, tendo em vista que eu reli a história mais seis vezes antes de ganhar os outros. Tendo em vista que até hoje isso é uma paixão que não acaba… Ou então não, ou então se sentiu orgulhoso quando da adolescência, antes de ter que estudar pro vestibular, eu sempre estar com um livro debaixo do braço, varando as prateleiras da biblioteca atrás de algo legal que não tivesse pegado ainda e fazendo com que essa missão ficasse cada vez mais difícil. Já a missão dele foi cumprida… Meu pai, enfim, me ensinou a gostar de ler!

Quem me ensinou a gostar de ler... | Projeto 52 Perguntas em 52 Semanas
Foto tirado em meados de 1993, em Timóteo/MG, onde nós dois nascemos.

Projeto 52 Perguntas em 52 Semanas

Esse é o 3º texto do Projeto 52 Perguntas em 52 Semanas, traduzido para o português pela Bia Carunchio, que tem como objetivo “ajudar no processo de escrita da sua história de vida”. A pergunta da vez é “Quais lembranças você tem do seu pai? (nome, data e local de nascimento, quem eram os pais dele, etc.)” e foi isso que ela me inspirou a produzir!

O título desse post foi inspirado na dedicatória do meu primeiro livro, “Wish You Were Here”, que ainda não foi publicado. Vocês podem ler mais sobre na fanpage do Facebook e no evento que tem como objetivo achar uma editora para ele!

Há lugares que me lembro…

Em 03.08.2017   Arquivado em Escrevendo

Semana passada eu voltei na minha cidade natal, depois de 10 anos sem ir lá, coincidindo lindamente com o fato de que eu precisava escrever sobre ela graças ao projeto 52 Perguntas em 52 Semanas. Mas eu não fui pra buscar inspiração, não… Tampouco para visitar pessoas, viver uma experiência nostálgica e nem nada poético do tipo: fui para resolver problemas mesmo! Era aquela “coisa”, né, alguém tinha que ir, eu tava cheia de tempo livre, peguei o ônibus e fui. A estrada está ruim como sempre, ficamos parados em certos momentos por muito minutos admirando vários nadas sem sinal de celular, mas tinha Pink Floyd tocando no meu iPod e um chocolate que uma amiga tinha me dado de aniversário na bolsa, então tava tudo bem, tava tudo certo. Umas quatro ou cinco (ou seis?) horas se passaram e finalmente desci lá… Não sei exatamente se fiquei surpresa ou não em encontrar tudo no mesmo lugar que estava antes.

Bom, quase tudo. Claro que muda uma coisinha aqui e outra ali, né? A usina, por exemplo, fica toda fechadona agora, num muro inteiro e não mais “fragmentadinho”. Tem também uns prédios espalhados que não existiam antes. Mas no geral é bem mais do mesmo: o supermercado grandão no seu quarteirão (a porta mudou de lado, o que me confundiu um pouco), a Praça de Jogos onde vários velhinhos se reúnem todo santo dia ainda sempre cheia. A igrejinha católica do Centro, a lanchonete Tia Eliana onde a gente comia pastel, a mesma loja de tecidos da esquina que nem as bancadas eram novas. A loja de sapatos então, continuava com as prateleiras e poltronas na exata mesma disposição.

Em certo momento, enquanto eu esperava a amiga experimentar sapatos nessa loja, alguém me chamou pelo apelido de infância. Chamou não, se questionou se era eu ou minha irmã, só ouvi um “É a Lulu ou é a Dani?”, então já sabia que estavam falando de mim. Era uma das minhas duas professoras do maternal! Foi talvez um dos encontros mais legais que já tive na vida! Me chamou pra passar uns dias na casa dela, perguntou sobre minha vida e se eu ia casar (de onde as pessoas tiram essas coisas?), como estava o pessoal aqui de casa e o que eu estava fazendo. Disse pra eu não me desanimar com minha instabilidade atual, porque afinal de contas todo mundo estava mais ou menos assim mesmo, uma hora ia melhorar. A gente se despediu bem sorridente, e muito emocionada. Cês sabem, eu sou uma bela de uma manteiga derretida, segurar o choro ali foi quase como enfrentar um dos 12 Trabalhos de Hércules, mas assim como ele eu consegui!

Ainda nessas andanças vi de longe a escola onde estudei a primeira fase do Ensino Fundamental, o prédio onde ficava o consultório dos meus pais, a Maria Fumaça dos jardins da Fundação Acesita. E a Fundação em si, onde assisti peças e mais peças de teatro infantil, que aconteciam mensalmente e a gente simplesmente amava. Inclusive o outdoor onde ficava anunciada a programação permanece igual, o que me fez dar uma risadinha. Eu vi o carrinho da hambúrguer onde a gente adorava comer e que agora ele tem uma lanchonete gourmet do outro lado da rua. Achei chique. Precisei ir a um Bradesco e encontrei a agência no lugar exato onde já supus que iria encontrar. Descobri que era tudo muito menor e mais perto do que eu imaginava, e que eu não nasci pra essa coisa de cidade pequenas, de todo mundo conhecer todo mundo, de falar que pessoa X é filha do “Fulano” e todos os presentes já saberem tudo sobre a família toda. Não sinto muitas saudades, já faz 15 anos que Belo Horizonte é minha casa (e nada vai mudar isso), mas até que foi bom ter esse breve reencontro com a infância assim, no meio da turbulência da “adultisse”. Ao mesmo tempo que queria ir embora gostei de estar ali, mas não era o lugar que me fazia sorrir, sabe? Eram os momentos. Os que já tinha passado e até mesmo os que estavam acontecendo em consequência desse passado. “Na minha vida, eu os amo mais!”

Há  Lugares Que Me Lembro | Projeto 52 Perguntas em 52 Semanas
Escola Estadual Getúlio Vargas: minha 2ª casa por 4 anos, e o único lugar que lembrei de fotografar, mesmo de longe.

Esse é o 2º texto do projeto 52 perguntas em 52 semanas, traduzido para o português pela Bia Carunchio, que tem como objetivo “ajudar no processo de escrita da sua história de vida”. A pergunta da vez é “Quando e onde você nasceu? Descreva a casa, a vizinhança e a cidade onde você cresceu.” e foi isso que ela me inspirou a produzir!

O título e a última frase desse post são a tradução trechos da música “In My Life”, da banda inglesa The Beatles, na qual eles falam de sua cidade natal, Liverpool.

A paixão de junho

Em 12.06.2017   Arquivado em Escrevendo

A Paixão de Junho

Esse pode ser considerado o “mês dos namorados”, mas eu vou chamar de “mês dos apaixonados”, porque todas as vezes que me apaixonei na vida foi em junho. Ou, pelo menos, as vezes em que caí na real em relação a isso, já que esse tipo de sentimento não é da noite pro dia, é construído de passinho em passinho… A história começou bem no meio mesmo, pertinho do dia doze. Não acho que exista amizade preto-e-branco, qualquer relação tem várias tonalidades em seu redor, mas foi ali que se iniciou o processo de viver uma amizade colorida pra valer. Subindo a ladeira, descobrindo que “quem canta seus males espantas”. Uma jaqueta quentinha compartilhada e antes que eu percebesse estava sujeita a sentir, ainda pré-adolescente, o que praticamente todo mundo já sentiu na vida: fogo que arde sem se ver, ferida que dói e não se sente, contentamento descontente. O não querer mais que bem querer e o melhor é que não era solitário andar por entre a gente¹.

Um longo tempo se passou e não havia dúvidas de que eu tinha encontrado o “amor da minha vida”. E acho que tinha mesmo, só não da vida inteira! Não precisa ser imortal posto que é chama, mas sim infinito enquanto dura², é o que realmente importa. Veio, ficou, passou e antes que eu estivesse pronta para novas chances uma nova porta se abriu no final daquele mesmo mês que foi marcado por isso já tantos anos atrás. E quando digo que a porta abriu não é uma metáfora bonita pra uma nova oportunidade, não, foi um “Toc-toc-toc” mesmo, e quando virei a maçaneta deixei a mão cair porque não esperava alguém aparecendo assim, aleatoriamente num dia comum e gostosinho de trabalho. Literalmente à primeira vista, porém foi nela mesmo que ficou. Aquele dia ficaria marcado como o dia em que a pior melhor coisa da minha vida aconteceu, sem dúvidas, mas com o tempo até essas pequenas certezas se tornam mentiras.

Porque o junho seguinte tornou essa dorzinha exagerada em irrelevante. Não me fez esperar muitos dias e me trouxe o coração batendo acelerado logo de cara! Aliás, não só isso, né? Teve borboleta no estômago, cabeça no ombro, tensão no ar, mãos encostando e um cheiro tão característico que dá pra lembrar exatamente qual mesmo com o passar do tempo. Teve expectativa sem decepção, muito pelo contrário, foi melhor ainda que o esperado… De um jeito que dava vontade de escrever pro mundo saber que isso existe, mas ao mesmo tempo sem essa necessidade porque tem coisas que a gente prefere guardar a dois. Elevou toda essa historia de coincidências a um novo nível, transformou a vontade em realidade.

Inclusive, saudades…

¹ “Amor é um Fogo que Arde sem se Ver”, Luís Vaz de Camões. Lisboa, 1524-1580.
² “Soneto de Fidelidade”, Vinícius de Moraes. Rio de Janeiro, 1913-1980.

A Ansiedade Queima

Em 10.06.2017   Arquivado em Escrevendo

A Ansiedade Queima

Desde muito pequena meu maior medo de todos é o fogo, e o fato de ser ansiosa tornou minha relação com ele difícil pra valer. Teve uma vez que minha tia tava queimando não-sei-o-que na entrada da casa da minha avó e eu dei meia volta para sair pela outra porta que ninguém usava, só pra não passar por ali. Antes disso rolou também uma reunião num Centro Espírita que fui com minha mãe e o moço que “liderava” esse grupo (não entendo tanto desse assunto para saber nomes, me desculpem) disse que a gente ia liberar ali nossos maiores medos… Eu nem sabia direito o que estava acontecendo, nem prestei atenção, mas comecei a reclamar que tinha alguma coisa queimando quase instantaneamente, mesmo que não tivesse.

Rolou também uma vez que fui acender o pisca-pisca da árvore de natal da minha casa, ele explodiu na minha mão e fiquei sem ter coragem de ligar tomadas por anos. Demora em adquirir habilidade para acender isqueiros e fósforos, pavor da hora do “parabéns pra você”, por aí vai… São várias histórias envolvendo essa mesma coisa, então quando falam sobre relacionar sensações com cheiros, eu relaciono a ansiedade com cheiro de queimado. Ela também é um medo constante que enfrento nessa vida, tão forte quanto assistir qualquer coisa em combustão, porque a ansiedade queima.

É meio louco que algo que faz parte de mim e não posso controlar seja associado ao “aroma” que mais me causa temor, mas é verdade.

A sensação que tenho quando a coisa “ataca” é que nem a de uma chama mesmo, mas não a chama confortável que fica nas lareiras e fogueiras que usamos pra nos manter aquecidos no frio, ou a que fica protegida pelas grades do fogão e logo vai trazer algo com pra comer. Não, não se parece nada com isso! É como se você entrasse direto num incêndio sem perceber, sem que alguém tenha te alertado do que tinha ali e, de repente, não conseguisse sair. Sua pele e/ou entranhas gritam com a ardência que você não pode combater, falta ar para conseguir proferir gritos de socorro pedindo ajuda, vai te consumindo até que você vire um mero montinho de cinzas que qualquer ventinho pode desmembrar e levar pra longe. Dói. Incomoda. Flameja. Às vezes destrói.

A sorte é que, vez ou outra, aparecem “pessoas porta fogo” com o extintor certo que a gente precisa pra colocar em ordem esse abrasamento descontrolado!

Esse post foi inspirado nas propostas #9 e #33 do Creative Writing Prompts, que oferece mais de trezentas ideias legais para desenvolver sua escrita criativa. É o 14º entre os 25 que me propus a escrever até outubro de 2018.

Página 1 de 1012345... 10Próximo