“A Garota no Trem”, relacionamentos abusivos e gaslighting

Em 09.12.2016   Arquivado em Feminismo, Filmes

A Garota no Trem, via Filmow

A Garota do Trem (The Girl In The Train) *****
Elenco: Emily Blunt, Haley Bennett, Justin Theroux, Luke Evans, Rebecca Ferguson, Allison Janney, Darren Goldstein, Edgar Ramirez, Gregory Morley, Laura Prepon, Lisa Kudrow, Ross Gibby
Direção: Tate Taylor
Gênero: Mistério
Duração: 112 min
Ano: 2016
Classificação: 14 anos
Sinopse: “Rachel (Emily Blunt), uma alcoólatra desempregada e deprimida, sofre pelo seu divórcio recente. Todas as manhãs ela viaja de trem de Ashbury a Londres, fantasiando sobre a vida de um jovem casal que vigia pela janela. Certo dia ela testemunha uma cena chocante e mais tarde descobre que a mulher está desaparecida. Inquieta, Rachel recorre a polícia e se vê completamente envolvida no mistério.” (fonte – sinopse e pôster)

Comentários: Antes de mais nada gostaria de dizer que nunca li o livro no qual o filme é adaptado e que quando fui ao cinema (graças a um ingresso que ganhei) não sabia 100% do que se tratava, só tinha lido a sinopse mesmo, então não posso dizer se é uma boa adaptação e sequer se a temática das duas mídias é igual, mas de certa forma assisti-lo foi uma surpresa MUITO positiva porque gerou reflexões maravilhosas e me deu exemplos claros de pautas que muita gente que conheço não consegue enxergar, mas estou me adiantando. Vamos falar sobre a experiência primeiro, depois falamos do que ela gerou.

A história gira em torno de três mulheres: Anna é casada com o ex marido de Rachel, com quem tem uma filha, e Megan é a babá da criança. Desde a separação, que aconteceu por causa de seu alcoolismo, Rachel viaja todos os dias num trem que passa por sua antiga vizinhança, e para evitar olhar para a casa onde vivia observa a vida aparentemente feliz de Megan, que envolve muito carinho (e sexo) com seu marido, até que um dia dá de cara com uma cena que a deixa chocada: a garota está com um homem diferente. Desconcertada com isso e muito bêbada, ela vai até o local, tem um apagão e mais tarde descobre que Megan desapareceu, e por estar sempre “perseguindo” seu ex ela se torna suspeita, já que a vítima trabalha pra ele. A partir daí ela tem que tentar se manter sóbria pra descobrir o que aconteceu, quem causou e até que ponto está envolvida nisso. É um filme de suspense que mexe MUITO com o psicológico e emocional e tem um elenco ótimo e mega convincente, protagonizado pela MARAVILHOSA da Emily Blunt. Você vai conhecendo mais da história de cada uma delas, entendendo seus dramas e dilemas e cada hora suspeita de uma coisa que vai ser desconstruída logo em seguida (ou não).

A partir daqui esse post tem revelações sobre o enredo e, apesar de eu não falar o desfecho do filme, acho que vai dar pra sacar se ler o que tenho a dizer. Se você abomina spoiler sobre todas as coisas, não recomendo a leitura (mas salva pra depois que ver que é legal!), mas se já assistiu ou quer já fazer isso com olhar crítico e não focado no mistério, vão ‘bora!

E aí temos essa relação de três mulheres aparentemente problemáticas com três homens “misteriosos”: Tom, ex marido de Rachel e atual de Anna, Scott e Kamal Abdic, marido e terapeuta de Megan, respectivamente, e é a presença deles que nos dá exemplos claros de dois assuntos que estão dando o que falar na internet, finalmente: relacionamentos abusivos e gaslighting. O primeiro está explícito desde o momento em que conhecemos Megan durante suas sessões de terapia, ela permanece com Scott mesmo sem vontade nenhuma, mesmo tendo sua vida completamente controlada, quase como forma de auto punição pelos seus erros do passado, e só consegue se abrir para Abdic, com quem tenta ter um caso loucamente. Ele é tão absurdo que após o desaparecimento esse comportamento agressivo acaba sendo “transportado” pra coitada da Rachel que entra em contato tentando ajudar, no final das contas a gente vê que não importa os erros da pessoa, ninguém merece ser tratado assim. Inclusive muito do que rola na vida da Megan (e que acaba causando seu fim trágico) poderia ter sido evitado desde o início da parte difícil da sua história se ela tivesse tido apoio pra melhorar e sentir menos culpa pelo que passou. E aí vamos pra parte 2, mas antes um “momentinho Wikipedia” básico:

Gaslighting ou gas-lighting é uma forma de abuso psicológico no qual informações são distorcidas, seletivamente omitidas para favorecer o abusador ou simplesmente inventadas com a intenção de fazer a vítima duvidar de sua própria memória, percepção e sanidade. Casos de gaslighting podem variar da simples negação por parte do agressor de que incidentes abusivos anteriores já ocorreram, até a realização de eventos bizarros pelo abusador com a intenção de desorientar a vítima. (fonte)

Essa é a essência do filme, se você quer entender como isso funciona PRECISA assistir porque é assustador de tão claro. Rachel se tornou alcoólatra durante seu casamento e desde então tem lembranças horríveis de seu próprio comportamento, TODAS elas vindas de Tom, já que ela não lembra de nada. Após a separação ela claramente persegue a nova esposa de seu ex e a filha deles, tornando-se uma ameaça pra tranquilidade de Anna. As duas vêem uma inimiga na outra e a coisa é tão absurda que você, assistindo ao filme, também acredita que é isso que elas são! Meus comentários variavam de “louca” e “que burra” a “aposto que a culpa é dela”, até o momento extremamente esclarecedor em que você percebe que por trás disso tudo tem o gostosão babaca manipulando TUDO. Ele conseguiu convencer a primeira de que ela é mentalmente instável e culpada pelo fim do casamento, passou esse pensamento pra segunda e quando a coisa apertou mudou TUDO fazendo com que as duas se achassem malucas e neuróticas! A cena mais maravilhosa de todas que exemplifica isso: a confusão do desaparecimento de Megan leva Rachel à vizinhança (mesmo que a tenham alertado pra não fazer isso) e ela cruza com Anna na rua sem ter reações, só “olho no olho” e continua andando. Mais tarde Anna conta isso pro marido dizendo que rolou “comportamento agressivo” e ele manda largar pra lá e deixar a coitada em paz, o que faz a mulher ter SAUDADES da época que era amante dele. Nesse momento a gente pensa “Ai que mentirosa nojenta!”, mas tudo vai se encaixando quando ambas têm um “click” de sanidade (que sempre esteve lá) e percebem as ligações falsas, o ciclo vicioso de transformar a mulher em errada pra justificar a amante e o aproveitamento da fragilidade da pessoa para piorar tudo pra ela, outra característica super forte do abuso. Tudo isso, claro, intensificado por essa mania quase natural que nossa sociedade tem de SEMPRE colocar as mulheres umas contra as outras, enquanto na verdade a gente tinha era que estar dando as mãos e se ajudando para impedir que isso aconteça com qualquer uma de nós. Obrigada aos meninos d’A Estante dos Gêmeos pela chance de assistir esse thriller que pela sinopse não me interessaria tanto, mas no fim das contas era EXATAMENTE o tipo de coisa que eu busco ver e quero recomendar pra galera!

Trailer:

  • Camila Faria

    Em 09.12.2016 | Uau!! Deixou 113 comentarios, VIP!! | [Citar]

    Eu não li até o final Luly porque quero assistir o filme antes. Também não li o livro, mas estou curiosíssima com essa adaptação!

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  • Milena Schabat

    Em 09.12.2016 | Comentou 2 vezes. | [Citar]

    Não li até o final por causa do aviso de possíveis spoilers, mas já salvei e, depois que assistir ao filme, volto aqui e leio o resto do post <3

    literarizandomomentos.blogspot.com.br

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  • Bianca

    Em 09.12.2016 | Uau!! Deixou 96 comentarios, VIP!! | [Citar]

    Já tinha lido algumas resenhas sobre o livro, mas fiquei com muita vontade de assistir ao filme depois que li o seu post, parece ser ótimo! Já vou anotar aqui pra assistir em breve.
    Beijos

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  • Renata

    Em 09.12.2016 | Uau!! Deixou 30 comentarios, VIP!! | [Citar]

    Quando vi o trailler achei a ideia do filme muito legal e quis logo ir assistir! E, além de ser um ótimo filme, na questão de como o enredo é trabalhado e eu babo – muito – o ovo da Emily Blunt ehehehe…
    E o que mais me impressionou foi justamente como trabalharam e mostraram muito bem diversos tipos de relacionamentos abusivos (porque tem gente que acha que se não está apanhando está bom né…).
    Adorei o texto! O filme é tão bem exemplificado que deveria ser incluído como item de aprendizado.
    xoxo

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